Postagens

Reconhecimento

Imagem
Sabe aquele quadro pequeno pendurado na parede com os dizeres “Funcionário do Mês” mais uma foto e um nome? Cada vez mais raro, vi um desses quando fui tomar um mate nas imediações da rua do Ouvidor. Coincidentemente o tal funcionário do mês foi o que me atendeu. Dei parabéns, o cara ficou meio sem jeito e tal, agradeceu e seguiu trabalhando, sorriso estampado na cara. https://bit.ly/2WQOHfS A espécie humana não sobrevive sem reconhecimento. No início dos anos 70, um colega entrevistou o assaltante Lúcio Flávio Vilar Lirio na penitenciária e perguntou o que ele sentia ao ser considerado pela polícia o inimigo público número um. Lúcio Flávio respondeu que se sentia muito bem porque era mais uma demonstração do cagaço que a polícia tinha dele, o que “para mim é um grande reconhecimento”. E, segundo o colega, esboçou um leve sorriso. A entrevista foi censurada. Vamos supor que o ser humano tenha 60% de defeitos e 40% de qualidades. Na melhor das hipóteses. Se pouca gente ...

Do rock - por Carlos Heitor Cony

Imagem
Tocam a campainha e há um estrondo em meus ouvidos. A empregada estava de folga, o remédio era atender o mau-caráter que me batia à porta àquela hora da manhã. Vejo o camarada do bigodinho com o embrulho largo e enfeitado. — É aqui que mora a senhorita Regina Celi? Digo que não e fulmino o importuno com um olhar cheio de ódio e sono, mas antes de fechar a porta sinto alguma coisa de íntimo naquele “senhorita Regina Celi”, sim, há uma Regina Celi em minha casa, minha própria filha, mas apenas de 12 anos, uma guria bochechuda ainda, não merecia o título e a função de senhorita. Chamo o homem que já estava no elevador. Eram CDs, a garota encomendara um mundão de CDs numa loja próxima, e pedira que mandassem as novidades, pois as novidades estavam ali, embrulhadinhas e com a nota fiscal bem às claras. Gemo surdamente na hora de assinar o cheque e recebo o embrulho. A garota dormia impune, o mundo podia desabar, e ninguém a despertaria do sono 12 anos. Deixo o embrulho...

Sofrência

Imagem
As novas gerações estão desconectadas da chamada mídia formal. Garotas e garotos tem seus códigos próprios e, pelo que vejo, ouço, converso, frequentam-se mutuamente numa rica troca de ignorâncias . Ignorância no sentido literal, de ignorar. Neste caso, propositalmente. As novas gerações terão sempre razão e entendê-las minimamente é tentar evitar ser chutado para fora da van da história. É você Que ama o passado E que não vê Que o novo sempre vem (Belchior) Ouvir filhos, enteados, netos, sobrinhos, agregados, com atenção é conectar-se ao presente, ao tempo deles, especialmente na adolescência, quando eles tentam escapar do maçarico da fase adulta que chega incendiando os portais da puberdade. É quase inútil, mas vale tentar convencê-los (muitos, nem todos) que talvez fosse bom conhecer, também, outros tipos de músicas fora do eixo sertanejo industrial-pagode de merda- funk, etc. Paralelamente, a ignorância literal é um direito e se as novas gerações (...

Novo filme mostra as gravações de "Imagine", de John Lennon

Imagem
A Netflix lançou há 10 dias o documentário “John & Yoko: Só o Céu como Testemunha”, de Michael Epstein, o mesmo que dirigiu “LennoNYC”. O filme mostra a intimidade das gravações do álbum “Imagine” e foi feito para a emissora britânica Channel 4. Produzido ano passado, são 90 minutos preciosos que mergulham em arquivos inéditos e acesso a vida do músico como nunca ninguém (de fora) teve. Yoko Ono foi uma peça fundamental para que Epstein (nada a ver com Brian Epstein) tivesse a sua disposição as raridades, incluindo cenas cotidianas do casal. O filme conta a história de Yoko conhecendo John e inclui uma entrevista com ela nos dias de hoje e também dos mais próximos como o fotógrafo David Bailey, o galerista John Dunbar que apresentou o casal, o filho mais velho de John, Julian. Todos os músicos que gravaram “Imagine” aparecem como George Harrison, o pianista Nicky Hopkins, o baterista Alan White, o baixista Klaus Voormann, o produtor esquisitão Phil Spector. Segun...

Relendo um grande livro: "Dias de Luta - o rock e o Brasil dos anos 80", de Ricardo Alexandre

Imagem
Mais uma vez cumprimento o colega Ricardo Alexandre por sua tijolada maravilhosa chamada "Dias de Luta - o rock e o Brasil dos anos 80" (Arquipélago Editorial), livro que ganhou uma segunda edição em 2013 e que entrou no cardápio do Kindle e outros e-books. Um dos capítulos é dedicado a Rádio Fluminense FM e reproduzo aqui: FLUMINENSE FM Quem, às seis da manhã de primeiro de março de 1982, sintonizasse os 94,9 da velha Rádio Fluminense FM de Niterói e trombasse com “The kids are alright”, do Who, não poderia imaginar por quais vias tortas o clássico riff de Pete Townshend composto 17 anos antes poderia se conectar com o nascente rock brasileiro. Muito menos que diabos fazia o Who àquela hora, naquela frequência. Havia alguns minutos, a Fluminense ainda era um inexpressivo braço radiofônico do Grupo Fluminense de Comunicações, sustentado pelo jornal O Fluminense — no nono andar de um prédio caindo aos pedaços em frente à rodoviária de Niterói. Foi para ...

Os 50 anos da ópera rock Tommy, do The Who

Imagem
É assustador constatar que a ópera rock Tommy, do The Who, vai comemorar 50 anos de lançamento no próximo dia 23. É assustador por uma série de motivos. Não lembro quando e nem onde ouvi pela primeira vez, mas com certeza mão foi no ano do lançamento porque os discos do The Who saíram no Brasil com um grande atraso e fora de ordem. Conheci a banda quando vi a capa falta de “The Who Live at Leeds” numa loja de discos chamada Stop que existiu em Icaraí. Capa falsa porque a gravadora no Brasil achava que a original, um envelope pardo de correio apenas com o carimbo “The Who, Live Leeds”, era anticomercial e inventou outra com uma foto.   Tinha razão. A original era anticomercial mesmo porque comprei o disco por causa da foto.        Capa original inglesa                                                   Falsa capa bra...

Redenção

Imagem
                                                                   Olhe por nós Setecentos e nove metros de altura. A vida ruge baixo, lá embaixo, abaixo de linha do Equador. Parto, infância, adolescência, vida. Avista-se tudo, olho nu, nas fronteiras aéreas que demarcam a existência. Traço, montanha, lago, mar. Imenso, profundo, imundo mar. Norte, sul, leste, oeste, quadrantes existenciais em recorte, expostos à nitidez da baixa umidade relativa. Risos, gritos, sussurros, de ontem, anteontem, passado, futuro. Detidos naquele amplo espaço. Soberbo e minúsculo ao pé da estátua; pulsar de cidades, fazendas, favelas, praias, até onde a vista alcança. Olho nu. Até onde a vista descansa. Tele objetivamente. O futuro joga as cartas. Destino a leste, de onde sopra a brisa. Suave e fresca. Ao pé da estátu...