sexta-feira, 28 de abril de 2017

Brasil, não tenho mais tempo

Brasil, não tenho mais tempo. O meu tempo passa cada vez mais veloz entre os ponteiros de segundos. Meus impostos, taxas, tarifas, contribuições, óbulos, encargos, ônus estão rigorosamente em dia, bem como todas (TODAS) as minhas obrigações morais e cívicas para contigo.

Mame à vontade, Brasil. O sangue é teu.

Brasil, o meu tempo voa e não pode se dar ao luxo de contemplar o seu, lento, re
dundante, atolado, preguiçoso, corrupto, venal. Meu tempo é para o trabalho, para a minha saúde, para o amor, já que não tive tempo de pular fora antes. Se fosse antes, estaria longe, em outro lugar, sorvendo outros tempos. Mas você não me deu tempo, Brasil. Tive que ficar.
Brasil, nas ruas há sempre carnavais, micaretas, grevistas vagabundos sustentados por nós. Hoje haverá mais, no interior e nas capitais, mas não irei ver porque não quero. Não quero e não tenho tempo. Tenho muito trabalho a fazer, apesar de você, tenho muita história para contar, apesar de você, tenho muito mar para abraçar e beijar, apesar de você.

Brasil, divirta-se, mas não me convide. Você tentou, mas não roubou o meu tempo. Pelo menos ele, não. E não me chame para apartar briga de ratos. Não me presto a isso.


Enquanto houver tempo, não.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Aureliano

Pacato cidadão, exímio pagador de impostos, funcionário público federal concursado com 30 anos de repartição, eleito funcionário do mês 87 vezes, quatro filhos homens com curso superior completo, morador de Copacabana, Aureliano levava a vida como ela é.

Leitor voraz de Nelson Rodrigues, Rubem Braga e Monteiro Lobato, dizia ao espelho que não, mas se identificava, sim, com alguns personagens de Rubem Fonseca, em especial O Cobrador. Aureliano falava pouco, mas ajudava muito. Ajudou o porteiro do prédio onde morava a casar, ajudou a pagar o tratamento dentário do dono de um bar, onde diariamente, pontualmente as 7 da manhã, tomava uma garrafa Caracu com ovo cru. Em seguida, corria nove quilômetros pela orla.

No metrô, seu único “desvio moral”: lia Cassandra Rios, François Rabelais, Charles Bukowski, e outros, escondendo as capas. Quando o metrô chegava ao Centro, ele guardava os livros em sua pasta lacrada. No trabalho, todos gostavam de Aureliano, apesar de nunca terem presenciado um sorriso seu. Seu ar era sério, mas sereno, e quando surgia algum documento que exigia seus dados pessoais, ele descrevia seu estado civil como hediondo.

Ao longo do tempo ajudara ($) o ascensorista, o chefe de serviços gerais, duas telefonistas e até um superior seu. A todo instante era abordado por colegas mais novos que queriam tirar dúvidas. Aureliano parava o que estava fazendo para ajudar, pacientemente.

Não tinha telefone em casa e era o único na repartição sem celular. Na repartição, no prédio e provavelmente no quarteirão. Várias vezes indagado por que não tinha celular, ele respondia “assunto meu”. Em compensação, em sua mesa de trabalho o telefone não parava de tocar.

Filho 1 – Pai, que horas você vai depositar aquele dinheiro na minha conta? O plano de saúde de Berenice (esposa) vence hoje.

Filho 2 – Pai, vou viajar com Clarinha amanhã. Não esquece de deixar o dinheiro da gasolina e da nossa estadia no meu escaninho.

Filho 3 – Pai, realmente decidi que é melhor trocar de carro. Um zero KM sai bem mais em conta do que um usado. O cara da agência só está me esperando pagar o sinal para fechar o negócio. Dá para fazer aquele empréstimo consignado aí pela repartição?

Filho 4 – Pai, não esquece de pagar meu aluguel. A conta do supermercado está com o porteiro aí da repartição. Aumentou porque semana que vem é aniversário da minha sogra e vamos fazer uns queijos e vinhos na casa dela.

Todos os dias, sem falta, os filhos ligavam com as suas demandas. Ligavam porque Aureliano não permitia que fossem a sua casa. Como também não ia a casa deles, não se viam há muitos anos. Aureliano não reclamava porque achava que “quem pariu Mateus que o embale”. 

Apesar de formados, os quatro não trabalhavam. Oficialmente, Aureliano atribuía a falta de emprego da prole a crise econômica, falta de sorte, etc. Mas no íntimo, na hora em que bebia sua Caracu com ovo cru ou corria na orla pensava, cheio de culpa “parasitas, filhos da puta. Petistas escrotos. Sanguessugas, sevandijas, zânganos...só matando”. Pensava e se arrependia, pensava e se arrependia, pensava e se arrependia. E ia mais além: “filhos daquela porra, esperar o que?”. Mas ninguém sabia quem era “aquela porra”. Ninguém.

Apesar de ter dado “de presente” os apartamentos aos quatro filhos, Aureliano não tinha imóvel algum. Preferia morar de aluguel baseado em pensamentos terríveis. “Vai que um dia eles entram na justiça, vendem meu imóvel para comprar quatro motocicletas e me botam para morar na rua”.

Mas aquele 11 de setembro foi diferente. Como sempre Aureliano saiu de casa para tomar sua Caracu com ovo cru. O faxineiro pediu alguns reais para... o porteiro pediu dinheiro para...uma carta da receita federal mandava ele comparecer para... a caminho do trabalho um morador de rua espetou uma faca no seu pescoço exigindo...no metrô um arrastão levou sua pasta com tudo, inclusive os livros...no trabalho os quatro filhos, pelo telefone, pediam antecipação do 13º. (eles recebiam 13º. do pai)...Aureliano desceu para almoçar na Pensão Pinguim, como fazia há décadas, e teve a visão monumental. Nos aparelhos de TV das vitrines das lojas, imagens mostravam jatos de passageiros derrubando as Torres Gêmeas, em Nova Iorque.

Trinta dias se passaram. Filhos 1, 2, 3 e 4, desesperados, insistiam para que a polícia desse notícias do pai. O dinheiro estava acabando e pelo visto teriam que cometer o absurdo de ter que trabalhar. Na portaria do prédio de Aureliano, as contas dos filhos se amontoavam. O porteiro, aflito, perguntava por ele aqui e ali porque queria comprar um forno de micro-ondas. O jornaleiro não sabia o que fazer com três edições de segunda mão de Cassandra Rios que acabara de chegar. Aquele miolo de Copacabana só falava no sumiço de Aureliano, o “bom homem”, o “bom samaritano”, o “amigo de fé, irmão camarada”.

Na repartição, o baque. Cadê Aureliano? O serviço estava atrasado, os novatos perdidos, a chefia sem ter a quem pedir dinheiro, o bando do sindicato não sabia de quem cobrar o jabá, o diretor apelou para Brasília mas ninguém sabia de nada. Não estava em hospitais, nem no IML, nem nos lixões da cidade e muito menos no Paraguai, disneylandia de degredados em geral.

Um ano, dois anos, três anos, quatro anos. Cadê Aureliano?

Cadê?





terça-feira, 25 de abril de 2017

A esquerda que conheci

Minha adolescência mesclou terror e êxtase e apesar de ter começado a escrever em jornais aos 15 anos, política era um tema distante, proibido. A ditadura estava no auge (anos 70) e ninguém explicava o que estava acontecendo para nos resgatar do estranho planeta da alienação ideológica.

Os professores de História do Brasil paravam em Getúlio Vargas, como se o Brasil tivesse sido parido em 1500 e abduzido em 1954. Havia curiosidade com relação a aquele mormaço provocado pelo silêncio imposto pela ditadura. Ainda assim, não consegui me informar mais, apesar de saber o que significava a pichação “fora comunas” em alguns muros da cidade.

Quando comecei a trabalhar na grande mídia aos 16 anos, mantive os primeiros contatos com pessoas ligadas à esquerda. A carnifica no país seguia seu curso macabro e, por isso, minha cautela era máxima, apesar de nunca ter exercido militância. Qualquer uma. No entanto, me encantei com o ideário da esquerda, principalmente a chamada esquerda radical, que pegou em armas, assaltou bancos.

O ideário esquerdista dizia que “os fins justificam os meios”, e, sinceramente, quando comecei a escrever no Pasquim e Opinião (dois jornais ultra esquerdistas) onde defendia não explicitamente a necessidade de uma revolução popular para instaurar a ditadura do proletariado. Sim, assim como todos os movimentos de esquerda, em especial os radicais, a palavra democracia não era citada. O modelo era, basicamente, o cubano, com fartas doses de maoismo, stalinismo, trotskismo. Gente de direita era tratada como déspota.

Acreditei que assaltos a bancos eram necessárias “expropriações revolucionárias”, que os sequestros eram uma forma de “capitalizar e socializar o movimento”. Contraditoriamente, apreciava o radicalismo de esquerda e a proposta hippie em sua receita de paz e amor, tratada como alienante. Pela esquerda.

Com o avanço do tempo, além de defender a ditadura do proletariado acreditei que só Estado poderia resolver as mazelas do mundo. Defendi em artigos, discussões, bate bocas, a estatização de tudo. Bancos, supermercados, empresas de ônibus, escolas, clínicas, hospitais. O Estado estatizante seria soberano e o ideário esquerdista era claro ao afirmar que aqueles que roubassem dinheiro público seriam devidamente “justiçados”, ou seja, eliminados.

Com o passar do tempo, a esquerda foi se deformando. Coincidentemente (?) tornei-me democrata ferrenho e não engoli quando o ideário purista e limpo começou a dar lugar ao “pragmatismo” inventado pelos oportunistas e larápios em geral. Comecei a romper com o esquerdismo quando o novo (?) trabalhismo surgiu à bordo do recriado PTB e do PT. O primeiro nascia fisiológico e até a medula, apesar de alguns bons quadros filiados a ele e o PT, quase imediatamente após a sua criação, foi tomado por parasitas do movimento sindical. O MDB se esfacelou. Tancredo Neves, hoje santinho de cabeceira dos novos esquerdistas, criou em 1980 o famigerado Partido Popular (com anuência do general Figueiredo), um ajuntamento de escroques do naipe de Chagas Freitas, ex-governador do Rio.

Veio a redemocratização, com Sarney, Collor, FHC, Lula e Dilma. Alguns grandes nomes da esquerda que conheci foram presos por corrupção. Sorte minha que larguei o balaio lá por 1978 quando o jornalismo me levou a ter contato com as mais variadas matizes da escrotidão política. Corria o risco de: 1 – padecer de tanta decepção e desilusão; 2 – tentar explicar a corrupção, ato inexplicável por si só.

Democrata, hoje não sou esquerda, muito menos direita. Leio, vejo, constato gente imbecil e pobre de espírito chamando os outros de “alienados” em nomes de devaneios oportunistas e espúrios que justificam o assalto ao Estado como necessidade.

Meu dilema. A esquerda que conheci já era uma caixa de gordura totalitária e ladra nos anos 70, disfarçada de reino moralista, ou a falência ética veio depois?


segunda-feira, 24 de abril de 2017

O castigo de Sísifo

Não tenho vocação para Sísifo e seu castigo, apesar de já ter dito por aí que o trabalho é a minha razão de viver. Sem exagero. Filei essa afirmação do lendário jornalista Samuel Wainer, pai de meu saudoso amigo Samuca, cuja autobiografia se chama “Minha Razão de Viver” e continua a venda nas boas livrarias. Estou pegando fôlego, alugando coragem para reler “O Mito de Sísifo”, de Albert Camus que foi um herói de minha pós-adolescência, se é que isso existe. Mas coragem não é uma casaca que você entra numa loja e aluga para usar num batizado, casamento, funeral. Coragem anda por aí.

Estou assistindo na Netflix a série “Breaking Bad” (não recomendável para quem procura kkkkkkk) e a partir do quinto episódio comecei a dar razão ao professor Walter White e a sua opção pelo lado B. Meu lado B (quem não tem?) já me convidou para assaltos a bancos estatais e outras barbáries.

Neste exato momento passo por um abissal conflito. Além de apoiar o professor Walter White, meu lado B começa a me convencer de que não há mais nada a perder e que meu erro foi ter revelado outros impulsos deste mesmo lado B lá pelos anos 1980, 1990. De fato não há mais nada a perder e, como o castigo de Sísifo, a afirmação vai e volta, vai e volta.

Levemente transtornado, saí de manhã para ajustar os óculos, que estavam escorregando pelo nariz. Fui na rua Gavião Peixoto, em Icaraí, onde em frente ao número 113 (funcionava uma loja da Ortobom), perto da Pereira da Silva, numa calçada muito estreita um “morador de rua” (definição dos politicamente corretos) e seus quatro cachorros raivosos e imundos decidiram se fixar, obrigando os pedestres a andarem pela rua. No auge de uma crise, pensando no castigo de Sísifo, provavelmente de cabeça baixa, não reparei que já estava chegando bem perto do homem e seus cães. Já ia desviar e andar pela rua quando o sujeito vociferou “vai pela rua!”. Não prestou.

Em questão de segundos reações subiram a mente como larva vulcânica: “vou chutar os cornos desse sujeito”; “que porra é essa de me mandar andar na rua?”; “pago IPTU e Guarda Municipal não existe”; “transformar cachorro em mendigo é sacanagem, vou soltar todos”. E por aí foi até uma senhora se aproximar do sujeito com um embrulho de comida e farta quantidade de ração para os cães. Ou seja, a culpa não é do cara mas dessa hipocrisia pequeno burguesa, etc etc etc.

Fui em frente lembrando que no horário da manhã meu humor fica imprestável. Antes do meio dia, vejo uma cena dessas como “um malandro se aproveitando de cachorros para achacar a multidão”. Já por volta das 2 ou 3 horas da tarde, pode ser que eu veja a mesma cena como “cachorros sendo cuidados por um morador de rua, vítima dessa sociedade desumana e ególatra”.

Enquanto isso, em “Breaking Bad”….


domingo, 23 de abril de 2017

Hóspede

Quase no final da estreita estrada, a subida contornada de cerca viva. Piso de pedras. No final da subida um pátio, não muito grande, com antigas, muito antigas, marcas de pneus. Bem em frente, uma confortável suíte para o hóspede, em madeira e telha colonial.

Depois da suíte, uma escadaria rústica bem à frente. Canil, horta, um pequeno curral, pinheiros muito altos sentindo a canção do vento. A escadaria terminava próximo ao pico do morro.

Na descida, mais árvores, o vento, o curral, a horta, o canil, o pátio, o som do silêncio. A esquerda, a casa. Grande, gentil, hospitaleira. A porta, a copa, a cozinha. Vazias. Nas paredes manchas de armários que há tempos eram abertos e fechados frenética e alegremente. Depois da cozinha um pequeno banheiro e a sala de estar. Vazios.

Ecos do leve falatório. Colada a sala de estar o salão de jantar. Também vazio. Ecos. Vozes, risos, planos, angústias, camaradagem, afeto.

Janelões. Vista da mata, cheiro de eucalipto, de chuva em terra molhada, alguma neblina, estrelas radiantes, luar.

Andar de cima. Mais quartos. Vazios. O sossego parecia o canto da cigarra no fim de tarde. Brisa fria, fome, sono, sonhos.


Descendo os degraus, as duas salas desertas, a copa, a cozinha, o pátio, as antigas marcas de pneus. A subida se fazia descida, contornada de cerca viva, que levava ao quase final da estreita estrada.

sábado, 22 de abril de 2017

"Descomunicação"

Jamais a civilização teve tantos meios de comunicação disponíveis. Até “ontem” (1990) quem quisesse enviar uma mensagem confidencial escrita tinha que pegar papel, caneta, escrever, por no envelope, ir até a agência do correio, postar e esperar dias até que o destinatário recebesse. Uma carta do Rio para a Europa demorava 10 dias para chegar. Em 1990 já havia fax, mas todo mundo podia ler o que estava escrito. Havia também o pager que, em sua época, foi importante. Em 1983, nos Estados Unidos, quem pagasse 20 mil dólares conseguia um telefone celular.

Hoje reina a fartura tecnológica. No mundo há bilhões de linhas de celular, outros bilhões de usuários da internet. Os preços desabaram, o acesso continua cada vez mais fácil e a quantidade de aplicativos e programas impressiona. E-mail, SMS, Whatsapp, Facebook com voz, etc. etc. etc. muitos de graça.

Ótimo. E a contrapartida? Se a civilização nunca viu tanta fatura tecnológica em prol da sua comunicação, por outro lado a falta de consideração/educação parece imperar. Muita gente não responde e-mails, nem whatsapp, muito menos celular. Tenho um amigo que mandou uma mensagem profissional por e-mail e SMS para um sujeito (mensagem de interesse do sujeito, diga-se de passagem) há 20 dias e até agora está sem resposta.

Se no âmbito profissional a coisa está a bangu, no pessoal não fica muito longe. Mensagens do tipo “quando chegar em casa me avisa, estou preocupado” podem ser respondidas no dia seguinte ou simplesmente ser ignoradas. A falta de consideração está comprovada até pela própria tecnologia. Uso um programa de envio de e-mails que depois da remessa diz quem abriu, quando, quem leu, quem abriu e não leu, etc. Não recomento para quem sobre de rejeição crônica. 

Eventualmente envio e-mails para um grupo informando sobre a atualização de meu podcast Uivo e sabem qual o percentual máximo de pessoas que abrem? Catorze por cento! Um dado que me deixaria bolado não fossem alguns colegas que usam o mesmo programa e dizem que o percentual é o mesmo.

O que não consigo entender é porque gente que não se comunica se envolve com programas de comunicação, que, lógico, não são obrigatórios. Tem quem quer. É mera falta desconsideração/educação? Ou é mera boçalidade mesmo?



quinta-feira, 20 de abril de 2017

A onda que se ergueu no mar – dedicado a querida amiga Gilda Mattoso

"No dia em se reescrever a Constituição, um dos novos artigos dirá: Todo brasileiro tem direito a um cantinho e um violão. Tem direito também a cidades saudáveis, matas verdes, céu azul, mar limpo e seis meses de verão". (Ruy Castro).

Em tempos de cólera faz bem a alma ler "A onda que se ergueu no mar", um livro antigo do Ruy Castro (é de 2001), um verdadeiro poema para o Rio de Janeiro que amo, mas que não conheci pela mais inquestionável das razões: não era nascido.


A personagem principal dessa obra é a bossa nova, movimentação cultural que surgiu numa fase do Brasil encravada entre o suplício representado pela era varguista, a boçalidade janista, o baixo astral apático do janguismo e o golpe de 1964. Coisa linda era o Rio nos anos 1950, início de 60. Coisa maravilhosa era a bossa nova, capaz de ver mais beleza onde de fato já havia beleza, a contemplação dos olhos verdes da morena e seu biquíni "ousado" em 1960, que hoje daria para fazer um paraquedas. 


A bossa nova acabou porque seu muso era o Rio. E o Rio cidade maravilhosa, sol, céu, sul, faliu no final dos anos 70. Virou um amontoado disforme, portador de anemia cultural grave. A bossa nova acabou porque seu muso, aquele Rio de Janeiro, não mais existe. A ponto de eleger prefeito um bispo da igreja universal!!!! O que estaria sentindo o genial e saudosíssimo (como faz falta ao mundo!) Vinícius de Moraes e o amigo Tom Jobim?

Não li esse livro na época
que saiu, apesar de ter ido ao lançamento só para dar um abraço no Ruy Castro. Ele me olhou fixo, não me reconheceu no ato, mas depois lembrou de um repórter da lendária da Rádio JB em 1974, magro pra cacete, cabelos encaracolados na altura dos ombros, roqueiro, que uma vez acendeu um cigarro dele. Esse repórter era eu. Ruy era repórter do Jornal do Brasil e, ele não sabia, era um dos meus ídolos porque tinha acesso aos bossanovistas, apesar de detestar rock, até hoje. Ruy detestava rock mas me respeitava ao perceber que amo também bossa nova e seus personagens, principalmente Vinícius de Moraes, que entrevistem ao longo de duas horas por volta de 1977. Foi uma aula de vida, generosidade, cumplicidade, inteligência, nacionalismo e carioquice. Sua morte precoce me deixou devastado. Muito mais do que quando Elvis partiu. Não li "A onda que se ergueu..." aquela época porque optei por sorvê-lo bem devagar um dia. E esse dia chegou.

Minha relação com o Rio daqueles tempos é tão comocional que na noite
numa noite, lendo o livro, uma lágrima escorreu de meu olho esquerdo. Emoção vadia. Bateu saudade de meu tio Evaldo, irmão de minha mãe, que também era enfronhado entre os bossanovistas e mais tarde tropicalistas. Tio Evaldo era pura vanguarda, pura arte, puro bom gosto e quando ia lá em casa eu o enchia de perguntas. Sim, foi ele quem me "aplicou" de bossa nova.

Quando conheci meu padrinho de estúdio*, Roberto Menescal, em 1984, chutei os protocolos e pedi: 1 - um autógrafo; 2 - que um dia fôssemos ao Veloso (bar) e, lá, tirássemos uma foto abraçados. Queria ter comigo a lembrança
 de um dos pais da bossa no bar-berço da bossa nova. Um dia fomos, hora do almoço, o garçom tirou a foto na mesa onde Vinícius, Tom e Menescal costumavam sentar. A foto ficou linda, linda, mas na famigerada mudança (lambança) de endereço que fiz ela se perdeu. Mas, não quero embaçar o astral, falar da bela foto perdida e da mudança que não quis fazer. Há muito o que falar do Menescal. Muito. E escreverei um dia desses.

Sobre "A onda que ergueu no mar", aqui vai um texto da editora Companhia das Letras:


"As andanças de Tom Jobim pelo mundo; o longo verão de Brigitte Bardot em Búzios; a  trágica história de Orlando Silva; as vidas paralelas de Dick Farney e Lucio Alves; céus e mares de Johnny Alf e João Donato; samba e swing no Beco das Garrafas; com Nara Leão em Copacabana; ao redor do pijama de João Gilberto - em A onda que se ergueu no mar, 

Ruy Castro conta novas histórias da música que voltou para conquistar uma nova geração. 
Hoje ela talvez seja mais ouvida do que em 1961, em salas de concerto, teatros, boates, 
bares, clubes, escolas, estádios, sem esquecer os elevadores e as salas de espera, os comerciais e as trilhas de filmes e novelas. Em discos também: nunca se ouviu tanta Bossa Nova em São Paulo, Nova York, Paris, Sydney, Tóquio. E quem se dispuser a entrar em todos os sites brasileiros e internacionais dedicados à Bossa Nova, arrisca-se a morrer de velhice antes de sequer arranhar a superfície.

Com Chega de saudade, de 1990, Ruy Castro foi um dos responsáveis por essa volta. Mas ali a história se encerrava por volta de 1970, quando a Bossa Nova foi dada como morta. 

Ruy mergulhou de novo no assunto - mas agora para falar da volta de uma música que, como as ondas, só esperava o momento de dar de novo à praia."


* Padrinho de estúdio é a pessoa que apresenta um estúdio de gravação a um produtor de primeira viagem. Quando dirigiu a gravadora Polygram (hoje Universal), Menescal contratou Celso Blues Boy por meu intermédio, mas colocou uma condição: que eu produzisse o disco. Eu disse que nunca tinha produzido um disco e Menescal (otimista visceral) mandou "ora, você tira de letra, nasceu em rádio". Topei. Ele me levou ao monumental estúdio Um da Polygram (24 canais em 1984), olhou para o engenheiro, técnicos e disse "esse é o Luiz Antonio Mello que vai produzir o Celso Blues Boy". E foi embora! Segurando as gargalhadas. Querem saber? Ele fez bem. Aprendi produção fonográfica fazendo e me orgulho muito de "Som na Guitarra", álbum de estreia do Blues Boy.