sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Livros da Semana - edição 27

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Discobiografia Legionária

Chris Fuscaldo

216 páginas

Turnê de autógrafos:
Hoje, sexta 09/12, 19h, na Saraiva do Rio Sul

Segunda 12/12, 19h, na livraria Cultura da Av. Paulista
Quinta 15/12, 19h, na Gutemberg de Niterói
Terça 27/12, 19h, na Cultura do Shopping Curitiba

Para encerrar o ano que marca duas décadas sem Renato Russo, a LeYa leva às livrarias Discobiografia Legionária, livro escrito pela jornalista Chris Fuscaldo: um relato com histórias, bastidores e curiosidades das gravações de todos os álbuns da Legião Urbana. Do primeiro LP, aos discos póstumos, passando pelos trabalhos solo, discos ao vivo e coletâneas, Renato, Marcelo Bonfá, Dado Villa-Lobos, Renato Rocha e muitos outros convidados aparecem em episódios que ajudam a entender a importância de uma das maiores bandas de rock da história do Brasil e como registraram alguns dos maiores clássicos nacionais.

A jornalista começou a trabalhar nas histórias que resultam neste livro em 2008, quando a gravadora EMI Music a convidou para produzir textos que acompanhariam as reedições em LP e CD dos álbuns de carreira da Legião. Além do seu envolvimento pessoal de longa data com a banda, a autora entrevistou amigos, músicos, produtores e técnicos que trabalharam nas gravações para contar uma história até aqui pouco explorada.

O resultado está nesta biografia de cada disco lançado pela banda responsável por mudar a história do rock brasileiro entre 1980 e 1996 – Renato Russo morreu em 11 de outubro de 1996, encerrando a parte mais bonita da história da banda.

Chris Fuscaldo coleta histórias curiosas. Como o episódio em que o produtor do primeiro álbum, José Emilio Rondeau, só topou trabalhar quando Renato Russo e Marcelo Bonfá imploraram, debaixo de chuva, para ele esquecer uma briga feia que ocorreu no estúdio pouco antes.

Conta ainda os problemas de inspiração que Renato Russo sofria no segundo disco, fazendo a gravação demorar muito mais do que o esperado. Ou ainda a técnica de Mayrton Bahia, o produtor que mais trabalhou com a banda e um mestre em cortar e colar com lâmina de barbear as fitas na edição das músicas. 

A intimidade dos músicos, as brigas e confusões e ainda as amizades seladas ao longo da trajetória da Legião também estão presentes no livro.

“Que as novas histórias sejam um presente para os fãs e para devoradores de biografias musicais”, afirma Chris Fuscaldo. “Que elas complementem tudo o que já foi dito e escrito sobre a Legião Urbana. E que satisfaçam o desejo de 

Renato Russo, se consagrando como
mais um documento de resgate da memória e de celebração da história da música brasileira.”

Chris Fuscaldo é formada em jornalismo pela UniverCidade e em letras pela UFF. Mestra e doutoranda em Letras: Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio, atua como jornalista especializada em música desde 1999. Trabalhou e colaborou como repórter e editora nos jornais (e seus respectivos sites) Extra e O Globo, na revista Rolling Stone e em diversos outros veículos.
Lindo Sonho Delirante, o livro

Bento Araujo

228 páginas

Este livro só está à venda na internet. Basta acessar http://www.poeirazine.com.br/loja/

Texto do autor:

Lindo Sonho Delirante: 100 discos psicodélicos do Brasil (1968-1975) é uma celebração à música psicodélica e inventiva produzida no Brasil - uma autêntica antropofagia tropical. O objetivo do livro é mostrar que existiu rock psicodélico feito no Brasil. Da virada do século até agora, o gênero ganhou projeção, porém muitas pessoas ainda não conhecem as suas origens.

Nunca, em nenhum lugar do planeta, alguma editora se interessou em publicar um livro sobre o rock psicodélico brasileiro. Portanto, essa é a nossa chance de fazê-lo de forma totalmente independente e verdadeira. Vamos juntos não só manter viva a história da música psicodélica brasileira, como finalmente mostrá-la ao mundo, já que o objetivo é publicar o livro em português e em inglês.

Para preparar o livro eu passei mais de um ano reouvindo, analisando, compilando, contextualizando e resenhando os cem (100) grandes álbuns e compactos psicodélicos que mudaram para sempre a música feita no Brasil e na América do Sul. Durante esse período eu também pesquisei livros, jornais e revistas para garimpar histórias, curiosidades e informações sobre um dos períodos mais incríveis e inspirados, mas ainda absurdamente negligenciados, da música brasileira.

A análise da criação e a interpretação do simbolismo desta lisergia tropical cria uma iconografia inédita, um volume que funciona como um presente à memória da música nacional e àqueles artistas brasileiros que expandiram a mente em nome da arte, em plena era de sangrenta repressão militar e de extremo preconceito social. Espero produzir um trabalho que se torne não somente referência aos pesquisadores e colecionadores de discos, mas que também preencha uma série de lacunas sobre as trajetórias de artistas e bandas em meio ao vácuo dos exílios e prisões e ao silêncio da censura daqueles tempos.

Todos estão juntos nesse Lindo Sonho Delirante: os medalhões da música brasileira que em algum momento flertaram com o rock psicodélico e também os malditos e esquecidos, muitos deles, pela primeira vez tendo a sua oportunidade de aparecer para o mundo.

Lindo Sonho Delirante é ricamente ilustrado, com reproduções das capas de todos os cem (100) discos apresentados. Cada álbum e compacto é acompanhado de uma resenha em português e inglês, minuciosa reprodução da arte gráfica original, um cabeçalho contendo o nome do grupo/artista, nome do disco/compacto, seu respectivo selo fonográfico, número de série da prensagem original e data de lançamento.

Considerando o disco-manifesto Tropicalia ou Panis et Circencis como uma espécie de marco zero da psicodelia nacional, a garimpagem das obras contidas no livro começa em 1968. De Tropicalia ou Panis et Circencis partimos rumo a uma jornada de oito anos, que termina no talvez mais raro e mitológico disco psicodélico brasileiro de todos, Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol, lançado por Lula Côrtes e Zé Ramalho, em 1975.

De pioneiros como Arnaldo Baptista, Rogério Duprat, Tom Zé, Fábio e Ronnie Von, até astros como Rita Lee, Milton Nascimento, Secos & Molhados e Novos Baianos. De gigantes como Gil, Caetano, Gal, Jorge Ben e Os Mutantes, até heróis e heroínas não tão celebrados, como Daminhão Experiença, Lula Côrtes, Sidney Miller, Suely e Os KantikusMarconi Notaro, Guilherme Lamounier e Loyce e os Gnomos. Do rock marginal da Equipe Mercado, Ave Sangria, A Bolha, Casa das Máquinas, Spectrum e Paulo Bagunça e a Tropa Maldita, até a sofisticação de Marcos Valle, João Donato, Egberto Gismonti, Luiz Carlos Vinhas, Pedro Santos e Arthur Verocai. Todos estão juntos nesse Lindo Sonho Delirante, os superstars e os esquecidos, os raros compactos e os elepês.

Além das cem (100) resenhas, o livro contém uma introdução, onde uma particular visão do período é abordada, analisando a influência da música pop anglo-saxônica misturada à exaltação das raízes brasileiras por parte dos artistas locais, tomando como ponto de partida a Semana de Arte Moderna de 1922 e ícones da cultura nacional, como Chacrinha e Grande Otelo.

A profundidade da pesquisa somada à beleza artística das capas dos discos deve atrair tanto os colecionadores de longa data, como aqueles que estão adentrando agora ao mundo do colecionismo.
A Segunda Profissão Mais Antiga do Mundo: Paulo Francis
Jornalismo, Política e Cultura nos Textos do Maior Polemista da Imprensa Brasileira

Paulo Francis

408 páginas

"Nunca apoiei governo algum. Acho que é um dever de jornalista adotar o mote dos anarquistas. Hay gobierno, soy contra", escreve Paulo Francis em um dos textos dessa nova coletânea de seus melhores artigos publicados na Folha de S.Paulo entre 1975 e 1990.

Espírito inquieto e independente, Francis foi um dos jornalistas mais importantes do país entre o final da ditadura militar e a redemocratização do Brasil. Seus comentários e reportagens - que nunca deixavam indiferentes os leitores - preservam até hoje vigor incomum, como se pode atestar neste livro.

Textos que marcaram época estão reunidos em A segunda mais antiga profissão do mundo. Eles trazem a visão incisiva de Francis sobre o jornalismo, a TV e o show business, suas análises lúcidas e sarcásticas da política brasileira e americana, além de retratos memoráveis de Carlos Lacerda, Samuel Wainer, Antonio Maria, Stanislaw Ponte Preta, Henfil e Millôr Fernandes, entre outras personalidades de seu tempo.
Medicamentos Mortais e Crime Organizado
Como a Indústria Farmacêutica Corrompeu a Assistência Médica

Peter Gotzsche

312 páginas

Nesta obra, Peter Gøtzsche expõe a indústria farmacêutica e seus comportamentos corruptos e fraudulentos tanto na pesquisa como no marketing, em que o desrespeito moralmente repugnante por vidas humanas é a norma.

Abastecido de provas, Medicamentos mortais e crime organizado" denuncia uma falha geral do Sistema, que precisa de reformas radicais urgentes.
Mulheres em Ebulição

Julie Holland

240 páginas

A verdade sobre os remédios que você está tomando, o sono que está perdendo, o sexo que não está fazendo e todas as coisas que estão tirando você do sério. “Finalmente, um manual de valor inestimável sobre saúde que aborda a mente, o corpo e o espírito feminino.” – Andrew Weil, autor de Felicidade espontânea

“Num estilo franco e agradável, como uma conversa entre amigas, Dra. Julie Holland analisa como os medicamentos funcionam em cada estágio da vida da mulher.” – Library Journal “Este livro vai ajudar você a assumir o controle do seu temperamento e da sua vida.

Combinando a sabedoria ancestral com a ciência moderna, ele vai fazer você compreender a montanha-russa em que se acostumou a viver. Ao entender seu corpo e seus ciclos hormonais naturais (e descobrindo como os medicamentos desorganizam sua sensível calibragem), você poderá fazer escolhas melhores, que lhe permitirão viver com mais qualidade.” – Dra. Julie Holland.

Baseado em estudos e pesquisas científicas, Mulheres em ebulição faz um raio X da vida e da saúde da mulher, abordando temas como TPM, sexualidade, casamento, envelhecimento, menopausa, anticoncepcionais, reposição hormonal, relação entre comida e humor, importância do sono, terapias naturais e depressão.

Especializada em psicofarmacologia e com mais de 20 anos de experiência clínica, Dra. Julie Holland afirma que a variação de humor que toda mulher vive – um dia cheia de energia, o outro se sentindo a pior das mortais – é uma característica feminina básica que não deve ser anulada com remédios nem encarada como um problema a ser resolvido.

A autora analisa a fundo essa questão e discute os prós e contras do uso de medicamentos, mostrando quando eles são indicados e quando só pioram a situação. Além disso, ela traz informações detalhadas sobre como os hormônios influenciam nossas decisões, nosso comportamento e nossos relacionamentos. A variação de humor é um indicador poderoso de quem somos e do que queremos. Quando anulamos nossa emotividade, abrimos mão de uma parte importante de nós mesmas. E quando aprendemos a compreendê-la, podemos fazer dessa aparente fragilidade a maior fonte de nossa força.











quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O dia em que John Lennon morreu

                                           Julian Lennon fala sobre o pai John, numa praia
                                             da Itália
No dia seguinte a morte de John Lennon (8 de dezembro de 1980), assassinado as 11 da noite na porta de casa com cinco tiros de 38 disparados por um idiota chamado Mark Chapman, imbecil que vivia no Havaí e lá comprou a arma, fui cedo para o trabalho. Chocado, ouvia em meu Fiat 147, em 9 de dezembro de 1980, as notícias transmitidas pela rádio onde trabalhava, a Jornal do Brasil AM. 

Trabalhava, também, como editor de jornalismo da Rádio Cidade (que pertencia ao Grupo JB) para onde rumei. Eram 9 e meia da manhã quando entrei na ponte Rio-Niterói a caminho do prédio do Sistema JB, aquele belo navio que está ancorado na avenida Brasil 500, hoje sede do Into, já que, vejam vocês, conseguiram destruir uma instituição nascida no império, chamada Jornal do Brasil.

Como boa parte do planeta, eu estava transtornado, confuso, triste, angustiado. Jornalista profissional desde os 16 anos, aprendi nas redações que o melhor remédio para amenizar esse tipo de dor é meter a cara nas notícias, escrever, apurar, enfim, mergulhar de cabeça no fato, enfrentar o monstro de frente. Foi o que fiz.

Meu horário de trabalho era de meio dia e meia as 19h30m, mas fiz questão de assumir o jornalismo da Rádio Cidade as 10 e meia da manhã. Eu e a equipe de jornalistas, formada somente por mim. Isso mesmo. Eu era o único jornalista naquela adorável e muito saudosa emissora, onde fiz amigos como Fernando Mansur, Romilson Luiz, Eládio Sandoval, etc. 

Evidentemente o dia foi dedicado a Lennon. As 2 da tarde, convidaram um sujeito que o destino colocaria em meu caminho como peça-chave em outras situações. Seu nome: Sérgio Vasconcellos. Foi convidado, naquele macabro dia, a dividir o microfone com Eládio Sandoval falando de John Lennon, Beatles, e tocando raridades que só ele tem.

Apesar do luto, Serginho deu um show ao longo de toda a tarde, contando histórias de bastidores da banda e de Lennon em particular. Eu me dedicava as chamadas “hard news”, ligando para Nova Iorque, falando com correspondentes do JB, enfim, cuidando daquele dia fatídico.

De 15 em 15 minutos descia para o sexto andar do Jotabezão (as rádios ficavam no sétimo) e ia a sala dos telexes, máquinas que vomitavam notícias 24 horas por dia. Lá também funcionavam as transmissões de radiofoto e telefoto da Agência JB e das norte-americanas UPI e Associated Press, sediadas também no prédio do JB. Abro um parêntese: só muita incompetência e burrice para levar aquele império a falência. Fecho o parêntese.

Numa dessas descidas e subidas, o operador de radiofoto me chamou com uma foto na mão. Nela, John Lennon aparecia morto no necrotério de Nova Iorque. Era um close de seu perfil, nariz curvado, sem óculos, expressão serena. Não vou publicar a foto aqui para esse desabafo não virar mundo cão.

No dia em que John Lennon morreu, 34 anos atrás, trabalhei muito. Sergio Vasconcellos também. Lizzie Bravo, brasileira que gravou com os Beatles o vocal de “Across The Universe”, estava pelas ruas do Rio, organizando vigílias, enfim, cada um vivenciou o luto à sua maneira. Por por volta das oito da noite, fiz a última descida (foram dezenas) a sala dos telexes e as máquinas, que não paravam nunca, histéricas. Peguei o último boletim, acho que da Reuters, com algumas palavras que Paul McCartney conseguiu dizer.

No fim de jornada, abracei Sandoval, Serginho (e peguei o telefone dele), meus amigos do Departamento de Radiojornalismo da JB e fui para o Leme. Sentei sozinho na Fiorentina, que me pareceu deserta, mas na verdade quem estava deserto naquele estranho dia éramos todos nós.

Meses depois, liguei para Sérgio Vasconcellos. O primeiro convidado para participar de uma nova revolução. Em setembro de 1981, começávamos a montar a Rádio Fluminense FM, a Maldita, que entrou no ar em 1 de março de 1982, tendo o Serginho, que se tornou meu amigo, como seu produtor de ponta. 

O resto, todo mundo sabe.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O jornalismo e o mundo cão


Trabalho na mídia há mais de 40 anos. Comecei muito novo e de cara quase desisti quando, na semana do Natal de mil novecentos e setenta e tal, trabalhando numa rádio popular, um de meus chefes me mandou fazer uma reportagem tipicamente mundo cão.

Sangue puro, desgraça, tragédia, tipo “Homem decapitou a mulher a machadadas e jogou a cabeça no canil”. Saí para fazer a tal matéria mas, na verdade, peguei um ônibus, a barca e voltei para casa. Escrevi uma carta para o chefe comunicando que havia jogado a toalha, que não era esse tipo de jornalismo que estava em minhas intenções e, por isso, voltei a estudar com a cabeça voltada para a medicina.

O que eu não esperava é que o tal chefe ligaria para a minha casa querendo conversar. Na minha família ninguém sabia que eu estava pulando a cerca, traindo a medicina, me enroscando com mídia, jornais, rádios e por isso dei sorte de atender o telefone. Fui lá na redação e voltei a trabalhar, mas na reportagem geral, mas, logicamente, sempre que acontecia uma tragédia monumental todo mundo entrava na história. Cobri várias. Várias. Mas sempre distante do sensacionalismo, dos jornais que quando esprememos jorram sangue.

Por isso fiquei mobilizado quando, ano passado, assisti na TV Globo um boletim ao vivo do colega Márcio Gomes, direto das Filipinas. Quando ele disse que estava faltando água e comida também para jornalistas, quase liguei para Cezar Motta, amigo e ex-colega (foi meu chefe na Rádio JB AM, lendária, nos anos 1970) porque o Marcio estava descrevendo uma situação que a maioria de nós já viveu: é quando o narrador vira personagem. Tive a sorte de ter tido chefes como Cezar Motta, Ana Maria Machado e monstros sagrados do jornalismo ao vivo como o saudoso Eliakim de Araújo, que muito me ajudaram a buscar, sempre, a ética, a verdade, o respeito.

A barra é muitíssimo pesada em situações como a das Filipinas ou da tragédia das serras aqui no Estado do Rio em 2011. O rosto do “monstro” é hediondo. Você fica andando entre corpos, escombros, na esperança de poder dar uma boa notícia, mas nada (ou pouco) acontece. E a situação só piora, só se agrava; os saques, os crimes paralelos, as noites “dormidas” em cima de papelão e o desespero que transforma todos em saqueadores já que a fome de sobrevivência é maior e muito mais avassaladora do que conceitos éticos.

O que estranho é um desejo que bate na gente de querer estar lá, mesmo em condições sub-humanas para exercer o jornalismo. Há quem chame esse desejo de vocação. Pode ser. Quando o Japão viveu aquele tisunami (a usina de Fukushima quase acabou com tudo), o colega Roberto Kovalick também passou o maior sufoco, com a diferença de não estar cercado por milhares de esfomeados dispostos a, literalmente, come-lo vivo em prol da sobrevivência.

Esse tipo de jornalismo é limpo, necessário, útil. Nada a ver com o mundo cão. Esse tipo de jornalismo ajuda, controla a fome de algumas autoridades que só pensam em garfar verbas internacionais.

Acima de tudo nos torna mais humanos, ao contrário da mídia mundo cão que nos transforma em vampiros sociais.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Redentor

709 metros de altura.

A vida ruge baixo, lá embaixo, abaixo de linha do Equador. Parto, infância, adolescência, vida. Avista-se tudo, olho nu, nas fronteiras aéreas que demarcam a existência.

Traço, montanha, lago, o mar. Imenso, profundo, imundo mar. Norte, sul, leste, oeste, quadrantes existenciais em detalhe, expostos à nitidez da baixa umidade relativa.

Gargalhadas, gritos, sussurros, de ontem, anteontem, passado, futuro. Detidos naquele naquele amplo espaço. Soberbo e minúsculo ao pé da estátua; pulsar de cidades, fazendas, favelas, praias, até onde a vista alcança. Olho nu. Até onde a vista descansa. Teleobjetivamente.

O futuro joga as cartas. Destino a leste, de onde sopra a brisa. Suave e fresca. Ao pé da estátua em pedra sabão, a mulher chora e implora sob o rosto de pedra imponente, decente, que avista adiante, olho por olho, dente por dente. Futuro. Sol, chuva, orvalho, vendaval, tempestade.

Abaixo, aviões, drones, helicópteros. O som do silêncio e o clamor abafado da angústia. Beijo na boca, bangue bangue, ansiedade máxima, o cochilo do miserável sob a marquise. Sob nós, tudo aberto, tudo certo, como as veias de uma América, condenada, para sempre, Latina.

Nos braços e cabeça, para-raios. Para nós e para Ele. O guardião e a força que ninguém explica, energia que sossega, aquieta, estanca o ir e ver enlouquecido das preocupações trafegando por nossa artérias e becos. O guardião para tudo. 

O guardião pode tudo.

Ali perto, ou logo abaixo, ou mais adiante, ou na linha do horizonte, as árvores são devoradas para ceder espaço para o metro quadrado desonestamente caro, especulado. Inversão térmica. Inversão ética. O guardião sabe que tem chovido menos, terra seca, ganância. O guardião sabe que o fim dessa história é o recomeço.

Ação reação. Motosserra, estiagem, seca, inversão térmica, colapso caos, morte, recomeço. Ele sabe. Calado.

709 metros de altura.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Se o Brasil tivesse enfrentado guerras teria sido diferente?

Prólogo – “Minha ideia sobre Deus está formada pela profunda convicção emocional da presença de uma força racional superior, que se revela no incompreensível do universo” (Albert Einstein); “Não posso dizer “eu creio”. Eu sei! Tive a experiência de ter sido capturado por algo mais forte do que eu, algo a que as pessoas chamam Deus” (Carl Gustav Jung).   

Até os livrotes vagabundos tricotam freneticamente sobre o renascimento de nações que foram dizimadas por guerras. Inglaterra, Alemanha, Itália, China, Japão. A Coréia do Sul, depois de ser destruída nos anos 50/60, passou todo mundo e hoje é o país-modelo em educação. Isso sem falar em tecnologia, distribuição de renda, etc.

Após intensa guerra civil provocada pela invasão do narcotráfico, a Colômbia renasceu após a morte do capo Pablo Escobar, em dezembro de 1994. Governos investiram e investem bilhões em educação. Fundações como a de Bill Gates está entre os que pagam, investem e executam projetos fundamentais como os da bibliotecas parques, reconhecidas mundialmente. Hoje, quem vai a Medellín, cidade humana, moderna, cheia de crianças uniformizadas indo e vindo das escolas e bibliotecas, não acredita que já foi a capital mundial do narcotráfico e da violência. Os comovidos e solidários colombianos que vimos na TV semana passada com a tragédia do voo da Chapecoense são fruto desse novo país, magnânimo, generoso, altruísta. 

Brasil. Enquanto o avião cheio de brasileiros se espatifava na Colômbia, a Câmara dos Deputados, que nós elegemos, visando aumentar o faturamento e a impunidade de seus hóspedes, na calada da noite tentava enterrar a Lava Jato. Querem manter impunes a bocada, a propina, a roubalheira.

Se o Brasil tivesse encarado guerras teria sido? Sabem a antiga teoria psicanalítica de que o ser humano só cresce com dor, sob tensa e intensa crise? Ela se aplica a nações? O Vietnã viveu em guerra de 1910 a 1975. Japão invadiu, França invadiu, Estados Unidos invadiram. Só na guerra contra os Estados Unidos morreram 1 milhão e 500 mil vietnamitas que, em nenhum momento, largaram o osso. Foram até o fim e botaram os americanos pra fora com memoráveis chutes na bunda. Hoje o Vietnã já é quase um “tigre asiático”.
                                                
Parto de um princípio de que a culpa não é de quem faz, mas de quem deixa fazer. Exemplo: se puserem um caixa eletrônico em cima da Pedra do Arpoador a culpa será do banco ou da prefeitura?  A passividade popular homologa os desvios. As eleições sacramentam. Em outras palavras, qualquer pau de enchente que esteja no poder num regime democrático, o aval (culpa) é nosso.

Não vou citar exemplos de outros países que venceram o arbítrio/corrupção/canalhice porque todos (sem exceção) usaram a truculência*. Mussolini foi pendurado num poste, americanos jogaram coquetéis molotov em postos de gasolina que aumentaram preços no crash de 1929, enfim, não encontro um exemplo de vitória popular que não passe pela luta.

Não estou defendendo ninguém e muito menos atacando. Estou apenas refratando diante do que vejo, sinto. E o que a História me conta, sussurrando de madrugada, é que por não coincidência os povos regidos por fanatismos religiosos são os mais manipulados. Os povos da Índia e África, em sua maioria, são hordas de mortos-vivos dopados por crenças fanáticas que não deixam enxergar que os seus governos roubam, matam, achacam, em nome desse mesmo fanatismo. E Deus não tem nada a ver com isso.

Para mim nada é possível sem Deus. Querem saber? Para mim tudo é impossível sem Deus. Não tenho lastro teológico algum para afirmar que Deus discorda do fanatismo religioso, mas tenho o direito de supor que Ele não concorda. Fanatismo paralisa, enlouquece, dopa. Fanatismo quando decreta que orelhão é sagrado os seguidores batem palmas quando o Estado não instala orelhão nenhum.

Fanatismo quando determina que peixe é sagrado seus seguidores autorizam o Estado a não investir nada em indústria pesqueira. Mao Tse Tung radicalizou quando sentenciou que “a religião é o ópio do povo”. Em alguns casos, a religião manipulada, mais do que o ópio, é pior do que heroína.

Por que nós, brasileiros, somos tão submissos e cordatos? Faltou guerra? Faltou o olhar do invasor dentro da nossa casa citando Renato Russo : “eu sou a sua morte/ vim de fazer companhia”? De vez em quando vejo carros com adesivos “Basta isso”, “Basta aquilo”. Bastar como? Como se “basta” a lambança? Como se basta o arbítrio, a corrupção, tráfico de vidas?  

Fato é que a gemedeira e a vitimologia continuam por aí. Continuamos pagando a tal taxa de “assinatura” dos telefones, engolindo o “matematicalogismo” que aumenta planos de saúde, mais casa, comida, roupa lavada e corrupção de parlamentares. Qual é o critério? A submissão? Qual é a saída? 

Quem é o inimigo, quem é você?

* Existe outro caminho?

domingo, 4 de dezembro de 2016

O amor sem tempos de cólera

As 5:11  - Por motivos não alheios a minha vontade meu fuso horário deu uma virada e pelo visto terei uma longa madrugada pela frente. Não gosto de escrever e publicar. Preciso decantar, especialmente sob forte emoção. Escrevo agora, mas penso em postar mais tarde.

As 5:14 - O amor de uma pessoa pela outra é inexplicável como a fé. Ninguém conseguiu passar para o papel. Sejam filósofos, sociólogos, antropólogos. No entanto, para mim, Freud foi na mosca: "atração baseada no desejo sexual". Uma vez escrevi num trabalho de faculdade (cadeira de Psicologia Social) que o que mais nos difere dos chamados irracionais não é a inteligência mas a sofisticação do afeto. O professor não gostou. Conversamos, ele disse que viveu uma experiência na África, numa região próxima a de uma família de gorilas, o que virou a sua cabeça. Passou a achar que, de alguma maneira, os animais irracionais também tem essa percepção e me deu nota 7. No final do mês a nota tinha subido para 9. Perguntei por que e a resposta veio vaga: “Realocação de conceitos”, ele disse.

Não quis reclamar porque estava apaixonado por uma garota (tínhamos 20 anos, ela e eu) e ingressava mais uma vez na ante-sala do amor comocional, aquele que ignora os raios e vendavais e nos faz rolar em êxtase por virtuais calçadas, encharcadas de chuva as nove horas da noite, com carro da polícia parado na esquina na base do dane-se o carro da polícia, o negócio é agora enquanto ainda. Ela me escolheu como seu primeiro macho. Eu a aceitei. Ela me elogiava, chamava de pervertido. Uma história que durou alguns anos e nela vivi mais uma vez o amor sem explicações e, sobretudo, complicações. Mas jamais incondicional, esse papo de existencialista amador. O ser humano é condicional em sua essência. Há quem diga que o amor sem sexo satisfaz, como há quem diga que o homem não pisou na lua (que foi tudo fraude), que vacina faz mal a saúde e que disco voador é Uber interplanetário.

Ela queria, eu também queria casar, ter filhos, mas o destino nos chamou no centro de uma praça no Rio Comprido e disse que não ia rolar não. E não rolou. Saímos da praça, eu a levei até a porta de casa em meu Karmann Guia TC bege igual ao da foto, que toda a faculdade conhecia e venerava. Mais livre e corajoso eu amava carros com design revolucionário não os modelos "cordatos" e formais de hoje. Ela desceu do carro, eu também, fomos até a portaria do prédio, nos olhamos (olhos marejados) sem nada dizer, apenas ouvindo ao longe, baixinho, o rádio do Karmann Guia TC na Eldo Pop FM tocando o Renaissance, ao vivo em Londres. Não esquecerei a música: At The Harbour, a que ela mais gostava. Sincronicidade. E como a música é a linha de tempo e afeto de minha vida, jamais desvinculei “At The Harbour” daquele momento. Nem o cheiro da chuva no asfalto daquela rua que ficava junto a Pedra do Leme.

Ela entrou no prédio. O Karmann Guia TC me pegou para dar uma volta pela orla do Rio. Fui até o final do Leblon e voltei. Em Copacabana parei numa carrocinha da Geneal, comi duas mini pizzas olhando para o mar escuro e mexido (como eu), pensando naquela história de amor que havia acabado. Uma prostituta, corpo surrado, cansada, passou pelo calçadão, bem perto, falou qualquer coisa. Topei pagar uma hora sem sexo, ela achou que tinha algum problema. Por que sem sexo? Eu disse que só queria papo. Sentamos num banco de frente para o mar, para conversar. E assim foi. "Tem dias que transo com 15, mas só gozo quando chegou em casa, com o homem que amo". Perguntei "e se seu homem levasse um tiro na genitália e não pudesse mais transar, o amor resistiria? Ela respondeu com um longo silêncio ......... Pensei que o amor sozinho não se sustenta, como Machado de Assis já havia mostrado no século 19. E nem quando a mulher-namorada que me escolheu como primeiro macho me pediu perdão mais cedo, em prantos. Impossível reverter um vácuo chamado “perdeu”. 

Amor condicional.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Livros da Semana - edição 26

Livrarias pesquisadas:

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Saraiva - www.saraiva.com.br

O Ladrão de Verrugas

Mathilda Kovak – ilustrações de Cesar Lobo

32 páginas

Mathilda Kovak é uma das melhores escritoras de sua geração. Movida pelo inusitado, ela mergulha o leitor no absurdo com a naturalidade de quem sair para tomar um cafezinho e diz que volta já.

O site Sopa Cultural fez uma ótima resenha do recém lançado "O Ladrão de Verrugas". Confira:

“Como todo bom larápio, Arseninho Lupão sabe ser meticuloso. Antes de efetuar o furto, examina detidamente a vítima. Planeja o bote. É hábil com as armas. O que o diferencia de seus colegas, no mundo da gatunagem, é que não está atrás de dinheiro. Tampouco de relógios, joias ou smartphones. O que o leva ao crime é a obsessão por algo diminuto, improvável e protuberante. Uma coisinha pequena e, para alguns, até meio asquerosa, que Lupão só consegue extrair após o uso de gás hilariante e de sua infalível fórmula secreta.

Em O ladrão de verrugas, a escritora Mathilda Kóvak — também conhecida, no cenário cultural, como compositora de centenas de canções — une-se ao ilustrador Cesar Lobo para criar uma história cheia de suspense, aventura e humor. Uma narrativa repleta de originalidade, construída com linguagem de quadrinhos e com surpreendente carisma, na cômica interseção entre o detetivesco e o nonsense.(...)”
Gestapo
Mito e realidade na polícia secreta de Hitler

Frank McDonough

288 páginas

A hedionda  Gestapo foi a polícia secreta de Adolf Hitler. Parte de um todo poderoso sistema tipo “Big Brother” dentro do estado totalitário nazista, seu objetivo principal era caçar e exterminar os “inimigos do povo”.

Desenvolvido a partir de uma detalhada pesquisa em arquivos nunca tornados públicos, este livro retrata de forma viva e fascinante as histórias perturbadoras de pessoas – ordinárias e extraordinárias – que caíram na rede de intrigas da Gestapo, seja como informantes ou equipe. Revela, também, os métodos eficientes e o sangue-frio dos oficiais que trabalharam para a organização.
Janis Joplin por ela mesma

Organização: Atanasio Cosme

160 páginas

Com pouco mais de 17 anos, Janis Joplin já cantava em bares de beira de estrada em troca de bebida. Rebelde e atormentada, rejeitada desde a infância cantou com a mesmo fúria a potência do rock e o desespero do blues.

Consagrada após o Festival de Monterey, em 1967, tornou-se uma superestrela do rock mundial. Vendeu e vende milhões de discos. Foi a única cantora branca capaz de cantar blues com a alma sincera que o blues exige.
Animais Fantásticos e onde Habitam
Guia Do Mundo Mágico Do Filme

Michael Kogge

96 páginas

Simultaneamente a estreia do filme “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, chega às prateleiras “Animais Fantásticos e Onde Habitam: Guia do Mundo Mágico do Filme”.

Com fotos e detalhes do filme, este guia destaca todos os personagens favoritos, locações, artefatos, feitiços e momentos mágicos do longa-metragem, reunindo tudo o que os fãs precisam saber sobre o mundo mágico de Animais Fantásticos e Onde Habitam.
Não Há Tempo A Perder

Amyr Klink – depoimento a Isa Pessoa

216 páginas

O navegador Amyr Klink lembra de momentos difíceis que passou para realizar seus planos, e garante que as crises podem nos motivar.

Em seu novo livro, “Não há tempo a perder”, o maior navegador do Atlântico Sul evoca sua experiência para demonstrar como os projetos mais complexos podem ser realizados, se você se comprometer a destrinchar cada etapa. E trabalhar duro, ter resiliência.

Ele lembra da infância em Paraty, da adolescência, das vitórias e erros que já cometeu – garantindo que a pressão pode ser um estímulo para sobrevivermos. Este é um livro sobre a escassez, o medo, e a nossa misteriosa capacidade de realizar nossos sonhos.