segunda-feira, 20 de março de 2017

Agudas reflexões

Domingo foi o último dia do verão, bem mais quente do que o do ano passado e segundo previsões catastróficas o do ano que vem vai ser pior. Vai canalha! Resisto ao verão como posso já que isso aqui não é Europa. Assim como tem gente que gosta de apanhar, há quem adore o verão. Fazer o que? O que mais gosto da grotesca estação é do seu final, quando começam as projeções sobre o outono.

Imagino a massa polar que frequenta o outono e o inverno no Brasil e traz o azul mais profundo do céu infinito, realça o verde das árvores (onde ainda existem) e nos convida para visitar a oca das reflexões. Mesmo os chamados anti reflexivos refletem sem saber. Na pior das hipóteses, contemplam a vida com um olhar levemente crítico do tipo “o que é que estou fazendo nesse filme?”.

Sou do time das reflexões profundas que, muitas vezes, se transformam em crises existenciais, minhas velhas conhecidas. Como o mar de marolas que vai engrossando, engrossando e de repente vira trazendo as ressacas. Ressacas, irmãs do inverno, das pedras e conchas geladas, vento soprando de leste, quase frio.

Se viver é fundamental, refletir é crucial. Pensamentos mergulham em trilhas muito duras e sofridas mas graças à luz do outono/inverno chegam a alguma conclusão saudável, ou possível. Outono e inverno parecem jogar a nosso favor. Não tenho nada contra a primavera e o verão, mas definitamente o calorão não combina com reflexões plácidas. É só caos, caos, caos.

Confesso que já fugi (ou tentei fugir) de alguns pensamentos, especialmente os caóticos que, não se sabe por que, nos levam a becos que tornamos sem saída. O noticiário dos últimos dias não tem combinado com a beleza das folhas molhadas ou com o orvalho que vira para molhar as calçadas dos lugares arborizados. O noticiário dos sites, jornais, revistas, TVs está pesado e, a vezes, dá vontade de parar de querer saber o que está (ou não) acontecendo com o Brasil.

A dor de querer saber compensa mais do que a dormência da ignorância, por si só, boçal, totalmente boçal, que nos engessa numa redoma de lata sem o menor sentido. Fundamental, para mim, continuar querendo saber e, ao mesmo tempo, contemplar o azul profundo do céu levemente gelado do outono que desperta sentimentos profundos, belos e, porque não, alguns nós na garganta.

E o vento sopra, carrega o orvalho, as luzes, o azul do céu de outono.



sábado, 18 de março de 2017

Gestapo

Nascida na Alemanha nazista, segundo o filósofo Luiz Felipe Pondé, a moléstia chamada politicamente correto, vulgo PC, voltou ao planeta a bordo dos varguardoides nos anos 90. Se tivesse surgido antes teria esquartejado Peter Sellers em via pública devido a seu "alto teor de liberdade criativa", considerado crime inafiançável e indefensável pela militância do PC.

Teria jogado no forno, também, Mel Brooks por ter escrito e dirigido e clássico do humor “Banzé no Oeste” e cerca de 90% da produção intelectual mundial (des) graças a seus regulamentos, regras, estatutos.

Não podemos chamar um branco de branco, um negro de negro. Num carnaval, em Minas, um casal resolveu se fantasiar de Aladdin e Jasmine e o seu filho de 2 anos de Abu, o macaco de estimação e um dos melhores amigos do personagem. O casal quase foi linchado porque a Gestapo do politicamente correto decretou que fantasiada de macaco, a criança estava sendo racista.

O PC tem vínculos uterinos com o império da corrupção e do jogo do bicho que comandam, também, o carnaval no Rio de Janeiro. Na Marques de Sapucaí o PC deixa rolar porque mama forte nas tetas da imundice, como bem mostra o livro “Os Porões da Contravenção – jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado”, de Aloy Jupiara e Chico Otavio.

Foi o politicamente correto que inventou toda a geração de políticos que assola o país desde o início dos anos 90, alguns filhotes da famigerada UDN, um nefasto partido, União Democrática Nacional, cujo lema era uma frase e Thomas Jefferson: “"O preço da liberdade é a eterna vigilância". Com o apoio da UDN o presidente Jânio Quadros proibiu o uso de biquínis nas praias e piscinas de todo o país.

Em 1957, quando era governador de São Paulo, proibiu a execução de rock nos bailes no Estado de São Paulo por considerá-lo imoral e também os gritos de vendedores em feiras livres por achar que são assédio.

Em suma, o politicamente correto inventou o “desviver”, o desprazer, o “é proibido permitir”, jogando a sociedade num curral de perversidades moralistas, capaz de jogar numa máquina de moer carne todo o humor inteligente ainda disponível no planeta.

Até quando?



quarta-feira, 15 de março de 2017

A nova Onda

Arte: Nilson Ricardo
Lancei o canal A Onda no Spotify. Durante a estada de A Onda Maldita no Sound, das TVs por assinatura, foi enorme a repercussão. A homenagem aos 35 anos da Rádio Fluminense FM durou 15 dias e atendendo a muitos pedidos decidi dar sequência ao trabalho no Spotify. É lá que mora A Onda, que é uma nova Onda.

Todo mundo pode ouvir de graça no celular, notebook, tablet, PC. É só acessar http://www.spotify.com , deixar e-mail, senha e ouvir de graça. Quem preferir pagar R$ 16,90 por mês ouve sem anúncios e a sequência das músicas segue o que programei. Na opção gratuita a sequencia é aleatória e tem anúncios. Quem quiser pode experimentar a versão paga de graça por 30 ou 60 dias, sem anúncios e seguindo a minha sequencia.

Inicialmente programei cerca de 50 horas de músicas pensando numa emissora de rádio livre. Toco muitos estilos de rock, em especial hard, progressivo, soft e folk rock, num mosaico atemporal já não acredito em música datada. Afinal, quando ouvimos a 5a. Sinfonia de Beethoven pensamos em tudo, menos que foi composta em 1804. Para mim não importa se uma boa música é de hoje, de 1970, 1930. Quando ouço Neu, Can, Amon Duul ignoro os calendários porque os grandes são a prova de tempo.

Todos estão convidados a ouvir A Onda. Se gostarem peço que sigam, divulguem, espalhem por aí e opinem no e-mail que está lá.

terça-feira, 14 de março de 2017

Temer

Michel Temer vivia no limbo político até o PT transformá-lo, duas vezes, em estafeta e vice-presidente de Dilma Rousseff. Até então pouca gente o conhecia no Brasil.

As razões que fizeram o PT colocar Temer na chapa de Dilma foram o trânsito dele junto ao chamado baixo clero do Congresso (parlamentares desconhecidos e medíocres, mas com votos) e os seus poderosos amigos e quase amigos como Eliseu Padilha, Romero Jucá, Moreira Franco, Renan Calheiros e outros. Gente capaz de “azeitar” as relações do Dilma-PT com o Congresso.

Habitante do Palácio do Planalto, Temer sabia de tudo o que acontecia. Tudo. Não se sabe do que foi ou se foi cúmplice de muita coisa. Mas um dia, cansado dos coices e do desprezo de Dilma-PT, turbinado pelos amigos e gurus como Eduardo Cunha, o estafeta se rebelou e escreveu uma carta aberta expondo o seu sentimento de rejeição em relaão a então presidente.

A partir daí sua relação com Dilma-PT azedou. Eduardo Cunha, então, insuflou Temer até o limite para que ele aderisse ao impeachment que iria varrer Dilma-PT da presidência. Impeachment dentro da Lei. Temer aderiu.

Com quase 80 anos, Temer virou presidente. Um presidente que tenta blindar os amigos do garrote da Justiça escondendo-os no primeiro escalão, habitado pelo escroque “foro privilegiado”. Torce todos os dias para que o processo envolvendo ilegalidades de sua chapa com Dilma não o degole.

Aqui e ali grita-se “Fora Temer”. Eu também gritaria caso não assumisse seu lugar, em caso de impeachment, o genro de Moreira Franco, Rodrigo Maia (presidente da Câmara dos Deputados) ou, na sequência, o misterioso presidente do Senado Eunício Oliveira.


É isso aí.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Vulcão invertido

O VALOR DO SILÊNCIO

"Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que eu queria dizer já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. Eu estou precisando desse sonho. Aliás eu não queria mais escrever. Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro. Eu queria ficar calada. Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio." 

Clarice Lispector, em Crônicas no 'Jornal do Brasil (1968)' 


Aqui na psicodélica cabana da minha crônica insignificância ouso compartilhar alguns draminhas pequenos burgueses com
os leitores. Draminhas (ideal seria dramecos) que não interessam a ninguém.

Escrevo esta coluna como a mais severa, dura, moleca e (posso falar?) escrota das censuras: a auto censura. Um vulcão de cabeça para baixo que ocupa o meu âmago e entra em erupção de fora para dentro, fritando a alma imoral.


Trabalhei sob dura censura no regime militar. Escrevi no Pasquim, no Opinião (ambos sob censura prévia) e vi os burocratas da polícia com canetas pilot riscando com verde e vermelho. Verde para matérias liberadas, vermelho para censuradas. O Opinião pertencia ao empresário Fernando Gasparian e funcionava no Jardim Botânico. Uma vez ele foi reclamar que 90% de uma edição tinha sido censurada, inclusive a minha matéria sobre indígenas tratados como entulho na Casa do Índio, entidade assistencialista que funcionava na Ilha do Governador. Em resposta ouviu um "f...da-se!".


Volta e meia o Opinião era apreendido. Com o Pasquim, a mesma coisa. Mas a minha insignificância era mais corajosa e eu ousava cuspir no olho dos meganhas tentando ir mais além. Não dava. A caneta vermelha era imperativa, degolava e fim de papo. Nunca fui preso, molestado, perseguido porque era fichinha, estafeta das letras miúdas, "hippie de Vaz Lobo" como me chamava o grande e saudoso J.A. Xavier. Em compensação, quando liberado, escrevia sobre tudo, opinava livremente, enchia a bola, baixava o cacete.


Aqui nesta Coluna do LAM, não. Sou auto censurado do princípio ao fim. Acho que 1/1000000 do que realmente penso, acho, procuro, vejo, presumo, não publico porque posso ofender alguém, posso estar politicamente incorreto
demais, posso não estar sendo de bom tom, posso....posso nada.

Nem escrever sobre o nada consegui porque o nada é um conceito subjetivo tão amplo que, muitas vezes, atende a porradas e beijos simultaneamente. Algo como...como...


Um
a mulher com cabeça de peixe.

sábado, 11 de março de 2017

Vaca Louca


Doutor Oswaldo Cruz,

Com toda a franqueza, não dá para levar fé. Na boa. Como boa parte da população de Niterói parei de comer carne bovina em janeiro porque havia gente internada com sintomas parecidos com os do Mal da Vaca Louca e há tempos eu radicalizei: não dá para acreditar em nada que qualquer governo diga, nem a fundação que leva o seu nome. A desconfiança atingiu o pico quando a Prefeitura de Niterói se meteu na história e passou a desmentir a Vaca Louca também. O problema, Dr. Oswaldo Cruz, é que o prefeito de Niterói é conhecido como Pinóquio.

Dr. Oswaldo Cruz, os mais radicais, tomados por desespero diante desse estado de mentira, roubalheira e incompetência generalizada que assola o Brasil, pararam de comer até frango (temem pela gripe aviária, que não atinge humanos) e estão matando micos temendo a febre amarela. Veja o senhor, nobre cientista, o que a lambança institucional é capaz de fazer.

Nobre cientista, hoje os jornais dizem que os cariocas estão correndo atrás de vacina contra a febre amarela. Um taxista que para num ponto aqui perto é um dos caçadores de vacina. Ele argumenta que “pô, se aquela mulher (Dilma) nos deu aquele banho de baixar o valor da conta de luz em 18% em 2012 e causou um rombo de R$ 60 bilhões, que nós vamos pagar, tudo é possível. O ideal seria uma vacina contra governo”.

Pois é, nobre Dr. Oswaldo Cruz, essa vacina o senhor não pode criar já que a única que conheço é uma revolução popular que taque fogo em tudo, justice os maus e reinicie o Brasil do zero. Mas isso não é politicamente correto, entendeu Doutor? Politicamente correto é chamar mal da vaca louca de boato e a população que desconfia das autoridades de irresponsável.

Doutor, já defendi a intervenção federal no Rio. O Rio faliu vampirizado pela corrupção galopante e insaciável dos amigos do desgovernador que está aí, que continua estuprando todo mundo. O aumento do ICMS em tudo é revoltante. O problema é que com a intervenção federal o ex-vice de Dilma duas vezes e hoje presidente ia nomear um interventor. Seguindo a tradição, certamente seria o nome mais nefasto possível, um dos amiguinhos dele. Doutor Oswaldo Cruz, o senhor já viu quem são os amiguinhos do ex-vice de Dilma?

Passivo, cordato, covarde, o povo prefere reclamar nas alcovas eletrônicas como o Facebook. Mas, na calada (sempre na calada) parou de comer carne de boi, corre atrás de vacina contra a febre amarela e mata macacos. Isso sem falar do trio desesperança que enfrenta há anos: dengue, zika e chikungunya. Doenças que o senhor eliminou.

Mas o Pior, mestre Oswaldo Cruz, é a venalidade eleitoral. Já pensou se o povo chama Lula, o marco zero, de volta ano que vem? Ou, pior, o Aécio? Melhor o senhor ficar onde está.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Pragmatismo

Sujeito conversava com Predicado ao telefone. 1994? Pode ser. 1991? Também pode. Como pode ter acontecido em 1997, não sei precisar, mas aquela manhã morna foi inesquecível. Uma manhã de sábado, nublada, quase abafada. Devia ser 11 e meia e o Sujeito lia os jornais esparramado no sofá da sala. 

Seu interfone interior estava desligado e, talvez por isso, quase se assustou quando ouviu as três batidas na porta. Batidas fortes, secas, precisas, decididas. Deixou o jornal de lado, levantou e foi abrir.

Em
sua frente estava um sujeito que não era risonho, mas também não fedia a antipatia. Não se fazia de íntimo e parecia conhecer Sujeito muito bem. Como uma flecha foi direto ao assunto.

- Chegou a hora de me conhecer, meu chapa. Muito prazer, eu me chamo Pragmatismo e certamente você já ouviu falar de mim. Aliás, falam muito mal de mim por aí, mas como bom pragmático, ignoro.

Pragmatismo entrou, vestia calça jeans e uma camiseta preta. Calçava botinas de couro. Caminhou devagar olhando as estantes. Nada comentou. Foi até a janela, olhou para fora, pigarreou e sentou na outra ponta do sofá.

- Não vai me oferecer um café?

Sujeito levantou e foi fazer. Café solúvel. Bebeu o seu na cozinha mas o de Pragmatismo levou numa xícara. Desculpou-se pelo café solúvel.

- Não importa, disse o visitante. O importante é que temos o café possível e não o ideal. E o possível é sempre mais fundamental do que as possibilidades. E é por isso que estou aqui.

Calado, Sujeito acompanhava o ritmo levemente acelerado da fala daquele sujeito atonal que, eventualmente, passava a mão nos cabelos mas que em nenhum momento demonstrou indecisão, insegurança. Ele prosseguiu:

- Você finalmente amadureceu, meu chapa. Graças a muita porrada que você não conta para ninguém porque acha que o bom cabrito não berra. Quer saber? Você está certo. O bom cabrito não berra mesmo, não. Plateia nenhuma merece assistir ao espetáculo do nosso sofrimento. Mais: você amadurece cada vez que abre mão de ideias pueris em prol de fatos concretos mas sem aquele banho de prata vagabunda que os imaturos dão.
Comecei a entender.

- É bom mesmo que você fique quieto porque hoje quem fala aqui sou eu, o tão decantado e esculachado Pragmatismo. Bem, rapaz, a sua maturidade significa que você vai começar a considerar a possibilidade de achar que ser cabeça de sardinha é melhor do que bunda de baleia. O que acha disso? Acha aviltante, ofensivo, papo de babaca trocar o bundão da baleia pela cabeça da sardinha só porque sardinha é pequena? Ou acha que cabeça é cabeça, não importa como, pragmaticamente falando.

Quantas vezes você abriu mão de projetos de vida que não julgava serem ideais. E lá vem ele de novo, ideal, ideal, ideal, essa coisa que não existe. Não existe, rapaz! Não existe mulher ideal, trabalho ideal, vida ideal. O que existe é o possível que a gente transforma em ideal. O possível exige que a gente jogue com a bola no chão porque o jogo é de botão. A vida não é para amadores, príncipes encantados, fadas madrinhas. A vida é mel e fel.

Você deve estar se perguntando por que escolhi visitá-lo hoje. É que nos últimos tempos você tem demonstrado “desilusões” com as ilusões e isso é absolutamente do cacete porque quem se desilude com as ilusões começa a surfar a onda do real. E a onda do real é, foi e sempre será a mais concreta, sensacional e segura porque é REAL. REAL, meu chapa!

Quando você disse naquela roda de amigos, meses atrás, que não briga mais com ninguém, parecia eu falando. Quem briga é amador. E não existe nada mais melancólico do que amador existencial. Existe? Ah, sim, os amadores da vida tem promotores e juízes sentados em seus tribunaizinhos julgando e condenando em vez de estarem tocando a vida.

Eu ainda tenho muito que falar com você, especialmente quando você disse que o rei da música brasileira pareceu tolo ao cantar que quer ter um milhão de amigos. Doce ilusão. Doce não, amarga, ruim, péssima, porque ilusão é o que há de pior.

Já vou indo, mas volto. Não recuse o que surge porque não é do seu agrado pueril. Continue avaliando o que vai ganhar, crescer, evoluir e depois, quem sabe, abrir um jardim de infância para educar as suas neuroses de menino.

Boa ideia, não?