domingo, 16 de dezembro de 2018

Redentor


                                                        Foto do saudoso e grande fotojornalista Luiz Carlos David


Setecentos e nove metros de altura.

A vida ruge baixo, lá embaixo, abaixo de linha do Equador. Parto, infância, adolescência, vida. Avista-se tudo, olho nu, nas fronteiras aéreas que demarcam a existência.

Traço, montanha, lago, mar. Imenso, profundo, imundo mar. Norte, sul, leste, oeste, quadrantes existenciais em recorte, expostos à nitidez da baixa umidade relativa.

Gargalhadas, gritos, sussurros, de ontem, anteontem, passado, futuro. Detidos naquele amplo espaço. Soberbo e minúsculo ao pé da estátua; pulsar de cidades, fazendas, favelas, praias, até onde a vista alcança. Olho nu. Até onde a vista descansa. Tele objetivamente.

O futuro joga as cartas. Destino a leste, de onde sopra a brisa. Suave e fresca.

Ao pé da estátua em pedra sabão, a mulher chora e implora sob o rosto de pedra imponente, decente, que avista adiante, olho por olho, dente por dente. Futuro. Sol, chuva, orvalho, vendaval, tempestade.

Abaixo, aviões, drones, helicópteros. O som do silêncio e o clamor abafado da angústia. Beijo na boca, bangue bangue, ansiedade máxima, o cochilo do miserável sob a marquise. Sob nós, tudo aberto, tudo certo, como as veias de uma América, condenada, para sempre, Latina.


Nos braços e cabeça, para-raios. Para nós e para Ele. O guardião e a força que ninguém explica, energia que sossega, aquieta, estanca o ir e ver enlouquecido das preocupações trafegando por nossas artérias e becos. O guardião para tudo.

O guardião pode tudo.

Ali perto, ou logo abaixo, ou mais adiante, ou na linha do horizonte, as árvores são devoradas para ceder espaço para o metro quadrado desonestamente caro, especulado. Inversão térmica. Inversão ética. O guardião sabe que tem chovido menos, terra seca, ganância. O guardião sabe que o fim dessa história é o recomeço.

Ação, reação. Motosserra, estiagem, seca, inversão térmica, colapso caos, morte, recomeço. Ele sabe. Calado.

Setecentos e nove metros de altura.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Uma simples homenagem a Arthur Maia - 1963-2018

                                                                                 Arthur
                                                                                Jaco
Arthur, foi um choque saber da sua morte hoje, por volta de meio dia, 56 anos, parada cardíaca. Você era um ídolo para mim, um dos melhores baixistas do mundo. Sorte que tive a chance de te tietar pessoalmente, várias vezes e a sua partida mostrou que não há tempo a perder e eu espero que você tenha vivido quase todos os seus sonhos, já que todos os sonhos só os lunáticos alcançam.
A homenagem simples que te faço, ainda muito tomado de emoção é um texto antigo que publiquei aqui há tempos sobre os momentos inusitados que você passou em Nova Iorque. Você mesmo me ligou dizendo que a história ficou ótima. No mais, vou guardar a emoção de ouvi-lo em vários discos, ao vivo e também falando pra cacete, dando risadas na beira do mar da Praia de Itaipu, onde papeamos várias vezes. Mais uma coisa em comum: mesmo torta e meio largada nós amamos essa cidade chamada Niterói. Meu chapa, Deus te proteja. Valeu por tudo!
 
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É muito bom ser fã de amigos. Um deles é Arthur Maia, um dos melhores baixistas do mundo, que encontrei há tempos no Teatro Municipal de Niterói durante o surpreendente (para mim) show de Mart'nália, dirigido por ele. Show, chamado “Em África”, que com certeza, Paul Simon adoraria assistir o espetáculo do pulso, da percussão, da comoção, de tudo o que a África representa para a Música.

Uma vez, escrevi no Estadão que se não fosse a África a música popular não existira. Lá nasceu o ritmo, a batida, a alma. Alguns leitores reagiram, disseram que não e eu sugeri que assistissem ao documentário “The Rhythmatist” (1985), de J.P. Dutilleux e Jean-Pierre Dutilleux, estrelado pelo 
ex-baterista do Police Stewart Copeland.

Ele viaja pela África em busca da origem do ritmo. Participa de cerimônias em tribos isoladas sempre sob o manto da percussão e fez uma experiência fantástica. Montou uma bateria Tama completa dentro de uma jaula. Copeland entrou e essa jaula foi colocada numa savana infestada de leões, que tentavam devorá-lo enquanto ele tocava. Queria passar (e passou) para a bateria todo aquele sentimento de primitivo terror.

Bom, esse é o poder da percussão. Arthur Maia subiu no palco deu uma canja no final do show de Mart'nália, para um Teatro Municipal de Niterói super-lotado, de pé, em histeria total. Antes, eu disse “Arthur, vou contar em meu blog aquela sua experiência com Jaco Pastorius”. Ele disse que tudo bem, e, por isso, aqui vai.

Jaco foi um dos mais importantes baixistas da chamada música fusion, também conhecida como jazz-rock. Foi do Weather Report, grupo que reluz em minha estante de discos, mas tinha problemas sérios com álcool e drogas. Batizado de John Francis Anthony Pastorius III, nasceu nos Estados Unidos e sua morte é até hoje um lamento, como narra o portal Wikipédia:

O trágico fim de John Francis Anthony Pastorius III inicia-se em 11 de Setembro de 1987. Após um show de Carlos Santana, se dirige ao Midnight Bottle Club, em Wilton Manors, Florida. Provocou e acabaou brigando com o gerente do clube, chamado Luc Havan. Como resultado da briga, sofre traumatismo craniano e entra em coma por dez dias. Depois que os aparelhos foram retirados, seu coração ainda bateu por três horas. A morte do mais ilustre contrabaixista de todos os tempos data de 21 de setembro de 1987, aos 36 anos e dez semanas. Foi enterrado no cemitério Queen of Heaven, em North Lauderdale.

Uma das maiores homenagens prestadas a ele, foi registrada pelo lendário trompetista Miles Davis, que gravou a música Mr. Pastorius, composição do baixista Marcus Miller, lançada no álbum Amandla.”

Jaco era o herói de Arthur Maia, que no começo deste mesmo 1987 foi a Nova Iorque a trabalho. Através de um percussionista amigo, soube que Pastorius costumava jogar basquete numa quadra pública no Bronx. Arthur foi lá.

Um, dois, seis dias, nada de Jaco. Até que, quase desistindo, num fim de tarde viu um baixo Fender Jazz Bass ano 62 largado sem case em cima de um banco. Arthur gelou. Olhou para a quadra e lá estava Jaco Pastorius jogando basquete com um grupo local.

Arthur, aflito diante de seu ídolo maior, não sabia o que fazer. O jogo acabou, o percussionista apresentou os dois e Arthur disse que queria ter uma aula com ele. Jaco disse “tudo bem, é só me pagar 50 dólares adiantado”. Arthur deu o dinheiro e marcaram a aula para o dia seguinte. Jaco sumiu. Nunca mais. Arthur só soube dele quando morreu. Mas ainda assim, sempre comovido, me disse “eu vi o cara, cumprimentei, toquei a mão dele, ouvi sua voz, vi seu baixo todo lanhado...claro que  valeram os 50 dólares”.

Não foi à toa que uma vez escrevi (não lembro onde) que Arthur Maia deu sequência ao estilo de contrabaixo inventado por Jaco Pastorius. E essa história caberia muito bem numa autobiografia que Arthur Maia precisa escrever contando tudo o que viveu e vive entre as maiores estrelas da música mundial. A plateia agradece e aplaude por antecipação.


O voo crítico

Desculpe os garranchos. Você sabe que não escrevo a caneta há mais de 20 anos. Está escuro ainda. Você e nossas crianças dormem.

Ontem, na cama, vi seus olhos muito negros levemente marejados, fitando meu rosto. Destilavam uma dose de tensão, certamente porque hoje, mais uma vez, farei um voo crítico. Eu ia começar a explicar o inexplicável mas você pôs o dedo indicador em meus lábios. Não queria ouvir nada sobre voos críticos. Eu também não queria falar nada sobre voos críticos, mas fique certa de que não existe voo militar em missão que não seja muito crítico. Não minto, não omito.

Seus dedos estavam frios como na segunda noite que saímos, anos atrás. Você pegou na minha mão para atravessarmos uma tórrida avenida de Manhattan no auge do calor. Senti o seu suor. Depois, meio sem jeito, ensaiou me explicar porque de vez em quando gelava ao atravessar uma avenida movimentada. Eu disse que você não precisa me explicar nada. Só precisa sentir sem receios.

Com o passar do tempo, de voo crítico em voo crítico, você foi me convidando a precisar de você. E cada vez mais pegava em minha mão para atravessar as avenidas sinalizando que também é gostoso precisar de mim. Depois daquela festa engraçada que você fez com as suas amigas aqui em casa você chegou e disse “sabia que eu te amo?”. Eu não sabia, mas foi uma delícia ouvir. Nunca sei se sou amado e você sabe disso. Adoraria ouvir todo dia, toda hora. Mais ainda porque não havia nenhum voo crítico programado.

Pensei em deixar apenas um cartão. Mensagem curta. Mas os seus dedos frios de ontem, a sua incerteza, a sua presença me trouxeram um gigantesco orgulho. Orgulho de pertencer a sua vida, reafirmar a sua importância. Mesmo que seja breve. Relações também são voos críticos.

Quando nossos fios desencapados dão curto circuito e a gente se aborrece um com o outro - e os voos críticos já causaram alguns desses desentendimentos - o amor sempre impera. Não suporto ficar cinza com você, nem por cinco segundos. Parece que deixo de existir até a gente se olhar de novo.

A manhã está escura, neve lá fora e o voo será crítico. Confie nele, no destino, na nossa história e, se der, confie em mim porque amanhã ao meio dia estarei de volta para pegar você e as crianças no colo e, juntos, celebrarmos a chegada do novo ano. Aliás, hoje será o meu último voo crítico como Comandante. Não farei mais.

Presente de ano novo para nós.

Klint.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Para refletir: a política do filho único na China, o melhor para menos em vez de ruim para todos, como é no caso do Brasil; em 25 anos deixaram de nascer 400 milhões de pessoas

                                                            Praia da Zona Sul do Rio, há dois anos

Em vez de mexer na previdência, a China controla o aumento da população. Assim, não é preciso construir mais hospitais e escolas em ritmo acelerado, comprometendo a orçamento do Estado e elevando o risco de corrupção, já que o super faturamento em obras públicas chegou a ser quase comum por lá. Reduziu em 90% por causa da lei que manda fuzilar políticos que roubam.

A política do filho único foi implantada pelo governo Chinês na década de 1970 com a finalidade de melhorar o sistema de saúde e educação. Segundo a lei, ficava extremamente proibido a qualquer casal ter mais de um filho. Quem não cumprisse recebia multas estratosféricas. Com a meta cumprida, a China passou a permitir dois filhos em 2015.


A politica do filho único conseguiu evitar que a população da China crescesse cerca de 400 milhões nos últimos 25 anos. Os críticos da política dizem que quanto mais segue-se a lei, mais abortos são gerados. Além disso, a China tem uma cultura milenar que dá preferência aos filhos homens que são obrigados a manter os pais quando idosos, de possibilitar-lhes um enterro solene. Somente o filho homem pode ser herdeiro dos bens, por isso, havia muitos casos de abandono de crianças recém nascidas.


Segundo Vivian Oswald da BBC Brasil, a manutenção de crianças pesa no orçamento das famílias, que têm preferido continuar investindo mais e melhor em um único filho. Dezenas de milhares de filhos da chamada nova classe média vão estudar no exterior, principalmente nos Estados Unidos, onde vão aprender inglês e se preparar para um mercado de trabalho cada vez mais competitivo.


No ano letivo 2015-2016, 328.547 chineses frequentavam faculdades e universidades americanas (reconhecidamente caras), um recorde histórico, segundo dados do Instituto de Educação Internacional. "Não sei se vou querer ter um segundo filho. Já não está sendo fácil criar a minha filha de quatro anos. Quero dar a ela o que há de melhor. E ter uma segunda criança significaria ter de dividir com que hoje dou a ela", diz Xiao, de 38 anos, que trabalha na administração de um condomínio em Pequim. Nas áreas rurais, é comum os pais terem de deixar as suas cidades natais em busca de melhores empregos nos grandes centros urbanos para proporcionar uma vida melhor aos filhos. Estima-se que o fluxo migratório chegue a 100 milhões de pessoas.


Foi divulgado um balanço do primeiro ano após a mudança da política de um filho: 17,89 milhões de chineses vieram ao mundo no ano passado, pouco mais do que a população da Holanda. Trata-se de um recorde para a China do século 21. Mas o episódio, que está sendo chamado de "mini-baby boom" por especialistas, ainda não é suficiente para fazer frente ao problema demográfico que o país deverá enfrentar no médio prazo, com o envelhecimento da população e a redução do grupo de trabalhadores na faixa de idade considerada economicamente ativa.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Lançamento em São Paulo e Rio do livro ‘Love is Understanding – A Vida e a Época de Peter Tork e os Monkees’


Peter Tork, Micky Dolenz, Mike Nesmith e Davy Jones não se conheciam até serem contratados para dar vida ao The Monkees, banda protagonista de uma série de TV que estrearia em 1966 nos Estados Unidos.

Um ano depois, com os álbuns “The Monkees” (1966) e “More Of The Monkees”(1967), a banda pré-fabricada vendeu mais discos que The Beatles e Rolling Stones juntos. Havia sido dada a largada para a Monkeemania, que arrebatou não só os estadunidenses como os fãs de rock'n'roll do mundo todo.

No Brasil, a febre chegou com a estreia da série em 1967. Mas foi em 1975 que Sergio Farias, assistindo a uma reprise na televisão, viu sua vida mudar. No entanto, com pouco acesso a material de pesquisa sobre uma banda estrangeira, ainda mais em um momento em que seus integrantes viviam no ostracismo, ficou aquele desejo de compreender porque, após um salto tão alto, os Monkees tiveram uma queda tão brusca.

Já na escola, Sergio ensaiou escrever essa história em uma aula de Literatura. Anos depois, o jovem carioca tomou para si essa missão, escarafunchou tudo que era publicação, assistiu a vídeos, visitou feiras musicais e entrevistou diversos personagens para criar “Love is Understanding – A Vida e a Época de Peter Tork e os Monkees”.

O livro foi lançando em Portugal em outubro e, em novembro, chega ao Brasil através da Chiado Editora. As noites de autógrafo acontecerão no dia 14 de dezembro, às 19h, na livraria Cultura do Conjunto Nacional (São Paulo) e, no dia 18, as 19h, na Blooks de Botafogo (Rio). 

Como fio condutor do livro, Sergio Farias escolheu contar a história do baixista – o único ex-Monkees que nunca havia ganhado uma biografia – entrelaçando-a com a do grupo. Ao vivo, The Monkees colocavam os concertos de rock em um outro patamar.

Como músicos, sua diversidade marcou desde um pioneirismo no uso do sintetizador Moog até a criação do country rock. Essa unidade criativa ganhou admiradores como os músicos dos Beatles, Jimi Hendrix, Frank Zappa e Timothy Leary. Ao exporem o modus operandi da indústria fonográfica, no entanto, a opinião pública os elegeu como bodes expiatórios dos grupos pré-fabricados em plena época da contracultura.

Após o fim da banda, seus membros foram relegados a um ostracismo brutal, e Peter Tork foi o mais afetado. Embora fosse um intelectual e um compositor com formação clássica, capaz de tocar sete instrumentos musicais, para a grande maioria, Peter não passava de “o bobo da série de TV”.

No livro, Sergio Farias apresenta o quarteto como um grupo que brigou pelo direito de tocar em seu próprio disco, buscando ser encarado com seriedade. O biógrafo resgata sua influência também na cena musical brasileira, configurada através de releituras de Wanderléa e da dupla Leno e Lílian e de elogios de Renato Russo.

Ao focar na trajetória de Peter Tork, o autor descortina a derrota e celebra o resgate de um músico e performer de talento, desmistificando a fama de “abobalhado” que ganhou com a série de TV e de “integrante de uma boy band descartável”, como a crítica da época fez questão de catapultá-lo. “Love is Understanding – A Vida e a Época de Peter Tork e os Monkees” procura fazer justiça ao extraordinário legado dos Monkees na cultura pop, revelando também os conturbados bastidores da banda e traçando a trajetória dramática de Peter e sua peregrinação pelos seus princípios de viver, com surpreendentes sinceridade e humor.

Sergio Farias é carioca e Mestre em Administração Empresarial. Autor da peça teatral “Quem Te Viu, Quem Te Vê” e dos livros “John Lennon Vida e Obra” e “Love Is Understanding - A Vida e a Época de Peter Tork e os Monkees”, foi assistente de direção do dramaturgo e cineasta Domingos Oliveira e colaborador do jornal International Magazine e dos sites beatles.com.br, letsrock, senhorf e jovemguarda. 

Serviço:

Lançamento do livro ‘Love is Understanding – A Vida e a Época de Peter Tork e os Monkees’ e noite de autógrafos com Sergio Farias

São Paulo:

14/12/2018, às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista 2073, Bela Vista).

Rio:

18/12/2018, às 19h, na Blooks Livraria Botafogo (Praia de Botafogo 316 / lojas D e E).


terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Os três tenores


Mais do que a mais nefasta oposição, o presidente Jair Bolsonaro tem como sabotadores inconscientes seus três filhos. Extasiados com o sucesso instantâneo, os três falam asneiras compulsivamente e, toda hora, colocam o pai contra a parede.

Flavio Bolsonaro (37) que explicar ao país sobre R$ 1,2 milhão que foram pousar na conta de um assessor que mora, com todo o respeito, em um muquifo na Taquara, Zona Oeste. Nesse rolo está a primeira dama, Michelle Bolsonaro. Flávio e dona Michelle terão que provar inocência nesse episódio, mas parece que a arrogância meio psicopata do rapaz ignorara opinião pública. Gentalha? Lembra Lula no começo, que desprezava críticas e começou a falar de si mesmo na terceira pessoa. O resultado foi mais do que previsto: está em cana. Ah, sim, tem os filhos de Lula, mas deixa pra lá.

Não adianta justificar, dizer que não entende o que está acontecendo, empurrar com a barriga. Flávio Bolsonaro tem que provar inocência nesse episódio estranho, muito estranho.

Eduardo Bolsonaro (34), também movido pela onda do sucesso descartável, decidiu virar ministro pirata das relações exteriores gerando mal estar e fúria. Foi aos Estados Unidos, falou o que não devia, o pai Jair desmentiu e nesse jogo de amador que se acha rola das galáxias, acabou encurralando o Brasil. Os EUA romperam com a China, Eduardo deu palpite contra a China, os EUA reataram com a China. E agora? China importa R$ 300 bi por ano do Brasil e os EUA, de vez em quando, compram uma caixa de pirulito Zorro..

O governo de Jair Bolsonaro tem apenas 30 dias para mostrar a que veio por uma ração óbvia: o povo está de saco cheio, perdeu toda a paciência depois de ter sido jogado no lixo, desrespeitado assaltado, desempregado. Por sorte montaram uma boa equipe econômica capaz de manter a inflação baixa; chegou a 0,28% mês passado, o menor índice desde 1999. Indústria e comércio estão se arrastando, tentando andar, mas a equipe do novo governo tem vivência comprovada para ajudar o trem sair do lugar. Isso se os três tenores, filhos do presidente Jair, deixarem. Vai que começam a se meter, indicar amiguinhos de clubes de tiro para cargos importantes. Afinal, o maior desafio do novo governo é diminuir o desemprego criado por Dilma e seu vice Temer.

Carlos Bolsonaro (36) arrumou uma confusão até hoje não explicada em Brasília, quando largou o governo do pai e assumiu o mandato de vereador no Rio. O que terá acontecido?

Algumas previsões são obvias: Onyx não passa de 31 de janeiro. Não tem temperamento para a função que exige sabedoria, jogo de cintura. É afetado, louco. Já o sinistro ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, frio, calado, deve durar uns seis meses. Ele está enrolado numa história envolvendo R$ 16 milhões quando foi secretário de saúde do Mato Grosso do Sul. Jair disse que como ele não é réu, tudo bem, pode ser ministro e ele vai sentar em cima de um orçamento de R$ 128 bilhões por ano. Se Mandetta andar na linha o trem não mata.

A frase é de Lúcio Flávio Vilar Lírio, mega bandido dos anos 60 que iniciou na profissão como ladrão de carros, passou a assaltante de bancos, joalherias e matou muita gente. Morreu aos 31 anos no presídio Hélio Gomes, no Rio, com 19 facadas enquanto dormia. O autor foi um colega de cela. Vivo, Lúcio Flávio poderia ser parlamentar nos tempos de hoje.

E os três tenores continuam desafinando a vida do país e do pai.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Hóspede II



Falta de ar pelo amor partido, sem bilhete, 29 anos atrás. Leve asfixia, leve melancolia, leve arrependimento sob a garoa fina e quase fria. Ele mandara o amor partir. Partir reto, sem olhar para trás, sem derramar lágrima, sem se deixar levar pelas nuvens obscuras da falsa esperança. Cretina.

Chega ao topo da serra bela e fria, quase no final da estreita estrada, a subida contornada por cerca viva que se transformava em um diário, onde letras, vírgulas, parágrafos pareciam incorporar os fios de metal entre os moirões. Piso de pedras. No final da subida um pátio, não muito grande, com antigas, muito antigas, marcas de pneus. Bem em frente, uma pequena casa de hóspede, em madeira e telha colonial.

O motor V8 silencioso do carro corta o silêncio opaco daquele lugar que já fora mágico, 29 anos atrás. Havia ecos, de vozes relembradas, remexidas, requentadas. Havia ecos de longos e apaixonados beijos entre os pinheiros que naquela manhã sem vento pareciam estafados, parados, quietos. Como ele.
Escadaria rústica bem à frente. Canil, horta, um pequeno curral, lembrança da canção do vento. A escadaria próxima ao pico do morro onde havia vida. Gado, cães, galos, noites, quintais. Havia vida, galochas, lama, tombos, gargalhadas, amor. Quatro letras que não choram, ele costumava dizer, 29 anos atrás.

Na descida, mais árvores, vento, curral, horta, canil, pátio, som do motor V8 se confunde com o som ensurdecedor do silêncio. A esquerda, a casa. Grande, gentil, hospitaleira. A porta, a copa, a cozinha. Vazias. Nas paredes, manchas de armários que há tempos eram abertos e fechados frenética e alegremente.  Depois da cozinha um pequeno banheiro e a sala de estar. Vazios.

Ecos do leve falatório. Que dia lindo; também acho; vou comprar os jornais; vai chover forte hoje, que bom; eu te amo; também te amo; para sempre; claro; bom dia, senhora; bom dia, senhor; bom dia, bom rapaz.

Colada a sala de estar o salão de jantar. Colonial como toda a casa. Também vazio. Mais ecos, muitos. Vozes, risos, planos, angústias, camaradagem, afeto, um choro de criança, o trote do cavalo manso, a brisa do amor perfeito, os sonhos, as memórias, as reflexões. O motor V8 em marcha lenta empurra o carro devagar em direção ao passado que o homem clama se fazer presente, mesmo que não existam ampulhetas invertidas nessa vida. Tosca, linda. Vida.
Janelões. Vista da mata, cheiro de eucalipto, chuva em terra molhada, alguma neblina, estrelas radiantes, luar, o som incessante do riacho que lembrava uma clave de sol.

Andar de cima. Mais quartos. Vazios. Sossego, canto da cigarra no fim de tarde. Brisa fria, fome, sono, sonhos, mais sonhos. O que será de mim?, pergunta o homem com o carro parado, motor V8 em marcha lenta, obediente.
Deixa o carro, porta aberta, sobe e desce os degraus, as duas salas desertas, a copa, a cozinha, o pátio, as antigas marcas de pneus. A subida se faz descida, contornada de cerca viva, que leva ao quase final da estreita estrada.

Entra no carro, manobra, desce o caminho. Asfalto. O motor V8 ruge, o carro parte em alta velocidade. Alívio, angústia, terror, êxtase, o pé mais fundo no acelerador na grande reta, 230, 270 quilômetros por hora como se quisesse acelerar as partículas e voltar no tempo.

Tempo, aliado que faz esquecer, vilão que despeja lembranças. Tempo, vida, saudade do ferro velho existencial deixado lá, 29 anos atrás, fingindo que nada aconteceu. Mas tudo aconteceu. Só ele não percebeu.