sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Primavera: os molambeiros estão voltando


Andando pelo centro do Rio, destruído por crivella e seus asseclas, o cheiro de mijo não só incomodava como irritava. Coisa de molambeiro, bípede que não mora onde mija, não tem educação, qualquer relação afetiva com a cidade onde está e, por isso, cospe no chão, atira lata de cerveja junto ao meio fio, enfim, essa mamífero urbano deveria ser estudado em profundidade porque, diz a minha tosca intuição, que ele pode ser o tal elo perdido entre o homem e o porco.

O molambeiro não tem sexo, cor, classe social, nível de instrução. É uma bola de sebo rolando pelas cidades, saltitando merda para todos os lados e atualmente tem como veículo preferido a motocicleta, em geral equipada com um tal de baú onde alguns carregam cachaça, cheirinho da loló, crack e outros aditivos muito comuns a espécie. Se um dia a polícia fizer seis meses de asfixia (blitz permanente) nas motocicletas, a segurança pública vai melhorar muito porque além de baderneiros, escroques sociais, paladinos da imundície, muitos são bandidolas, trabalham para o tráfico, milícia e afins. Eles difamam os bons motociclistas, que usam moto para o trabalho, lazer civilizado. Em Bogotá (Colômbia) a prefeitura proibiu, poucos meses atrás, a circulação de motos de até 200 cilindradas com garupa. A bandidagem levou um tombo. No Brasil? Nada é feito.

Molambeiros gostam de andar em bandos e contrariando normas internacionais de segurança, andam de motocicleta sem camisa, calçando chinelos de dedo, capacetes idem, cano de descarga cortado (barulho infernal) e em zigue zague entre os carros.

Em Niterói, o point da molambada na primavera/verão é a praia de Itacoatiara, onde os molambeiros encontram molambeiras com quem copulam e perpetuam a espécie. Recentemente Itacoatiara virou moda entre eles e entrou na rota da barbárie desses animais que na primavera e verão, geralmente sem documentos, invadem o bairro fazendo enorme barulho, fazem xixi em qualquer tronco de árvore e enchem de cocô e latas de energético genérico na bizarra restinga da praia que tem mais de dois metros de altura, servindo de refúgio para os meliantes. Eles já invadiram Charitas, Adão e Eva, Itaipu, Flechas, Boa Viagem.

Na praia, fumando maconha malhada, jogam futebol (altinho) na beira d’água (velhos e crianças que se danem), dão saltos mortais as gargalhadas no mar onde mais uma vez aproveitam para fazer xixi e cocô aos gritos de “hahahaha....tá dominado, rapá....hahahahaha”. Na areia, funk, pagode e sertanejo aos berros naqueles equipamentos de som chineses, com porta USB por onde a diarreia musical transita.

Os moradores locais? Se borram de medo. Itacoatiara é bairro de classe média e um dia já foi o must do verão em Niterói, e como toda a classe média, tem pavor dessa molambada com cabelo à Neymar, moto na mão e muita bosta na cabeça. Os locais dizem que “os estrangeiros são perigosos e acham que a praia é deles”. Claro que a praia é deles. A praia, o bairro, a cidade, o país.
Fato é que cada vez mais zonzo com o cheiro de mijo, andando numa cidade que estupra com o IPTU, conta de luz, água, telefone, tenho que aturar esses molambos que em menos de duas horas defecam tudo. Uma eficiência rara.

Com certeza não ia acabar bem se eu pegasse um molambo desses defecando em frente a uma creche (para eles tanto faz). Aliás, é por isso que não tenho ido a praia sábado e domingo, onde a civilidade é minoria absoluta. 


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Absolutamente imperdível! The Fabulous Tropical Acoustic Band dia 30 no Teatro Ipanema


Como não estar lá?
Mas reserve o seu ingresso porque o teatro e pequeno.

A giga assessora de imprensa, Ana Paula Romeiro, me avisa:

Convidados muito especiais, que formam a The Fabulous Tropical Acoustic Band (The Fabulous TAB), vão fazer parte da comemoração dos 50 anos do Teatro Ipanema (viva ele!), no próximo dia 30 de setembro (domingo). O Teatro foi palco de resistência, criatividade, desbunde, quando o Rio era muito mais carioca e achava que a existência de um crivella da vida era conversa de bad trip de ácido.

A Fabulous TAB tem como integrantes a seguinte alcateia: Evandro Mesquita, Arnaldo Brandão, Dadi e Billy Forghieri. Juntos resgatam músicas dos anos 70, que tinham e têm o poder de mudar vidas, cidades, países. Canções que inspiraram gerações de músicos em todo mundo. The Fabulous TAB é pólvora dessa fogueira que continuará acesa por puro prazer de conexão com uma época mágica. 

A banda interpreta com versões acústicas e arranjos personalizados músicas de Pink Floyd, Bob Dylan, Rolling Stones, Bob Marley, The Who, Led Zeppelin, Hendrix, Ray Charles, JJ Cale, Otis Redding entre outros do mesmo naipe. Sentiram? 

É um reencontro de amigos com a mesma cumplicidade e sintonia musical e existencial.  Um show feito com muito prazer. The Fabulous TAB:

Evandro Mesquita: Ukulele, Harmônica e vocal.
Arnaldo Brandão: contra baixo e vocal
Billy Forghieri: teclados e vocal
Rogério Meanda: violão
Ralph Canetti: violão, Gaita e vocal
Mafram do Maracanã: Percussão
Alexandre Griva: Baterista
Dadi - Eduardo Magalhães: Violão e Guitarra
  
Serviço:
Comemoração dos 50 Anos do Teatro Ipanema.
EVANDRO MESQUITA & THE FABULOUS TAB
Data: domingo, 30 de setembro
Horário: 19h
Valor do Ingresso: R$ 60,00 inteira, R$ 30,00 meia
TEATRO IPANEMA
Telefone da Bilheteria: 2267-3750 e 3518.5220 (aberta 01h antes do espetáculo)
Rua Prudente de Morais, 824 – Ipanema – RJ - CEP: 22.420-040 –
Metrô: Estação Nossa Sra. da Paz – saída Rua Joana Angélica
§ Único: A Bilheteria do Teatro Ipanema é aberta de quinta a terça, sempre uma hora antes do início do espetáculo que estará em cartaz naquele determinado dia da semana.
Contatos do Teatro - José Carlos Della Vedova
Gestor e Diretor Executivo
+ 21 99306-0402                    



quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Bananas ao vento


As notícias golfam do computador como tempestade de bigornas, foices, ferro de passar a carvão. É só pancada, baixo astral, coisa ruim, mas filosoficamente pensando no banheiro, fazendo barba de manhãzinha, lembro que até a anta do juízo final sabe que notícia ruim sempre frequentou o cardápio principal da família brasileira. Explica, mas não justifica. Sabemos disso. Fazer o que?

A primavera começa sábado. É uma estação meio dissimulada, não assume que é escrava do verão apesar das altas temperaturas, do asfalto mole. Mas, compensando, os shortinhos enfiados ganham as ruas mas só os invisíveis podem contemplar para não serem denunciados por assédio. Mais: por do sol deslumbrante, onibus apinhados com gente na capota, arrastões, brisa noturna nas areias desertas, pequenos impérios do coitus ininterruptos, como resumiu o baiano pai da tropicália quando cantou “Um poeta desfolha a bandeira/E eu me sinto melhor colorido/ Pego um jato, viajo, arrebento/Com o roteiro do sexto sentido/ Faz do morro, pilão de concreto/Tropicália, bananas ao vento.”

Em outubro tem eleição e muita gente acha que o fim do mundo será café pequeno perto da efeméride. Oportunista, o mercado financeiro e suas piranhas aumentam o dólar, derrubam a bolsa eufóricos, loucas, doidas, piranhas de terno, gravata e baby doll trancado no armário, ao lado do pote de cocaína de Vaz Lobo e da garrafa de Johnny Walker Blue de Pau Grande, RJ.

Os jornais anunciam que os corruptos vão ser os mais votados, como se fosse novidade. Os corruptos se elegem as gargalhadas porque compram os votos, como peruas de meia idade deslizando pelo VillageMall (a grafia é esta, village colado no mall). Esses políticos escolhem uma região, pagam a metade da bolada antes da eleição, e a outra metade quando ganham. Vai depender da contagem de votos. Há ainda os mais tímidos que preferem contratar traficantes de drogas e milicianos que fazem o serviço a maneira deles, sem expor diretamente o político, salve simpatia! não votou, morreu. Mas a primavera vem aí.

Depus as armas, não vou mais brigar mais com a primavera nem com o seu amante de beliche, o verão, já que me senti solitário demais no bloco do eu-amo-o-frio-do-inverno-especialmente-debaixo-do edredon-de-êxtases-da-loba. Parece que gostar de inverno não é de bom tom, especialmente aqui nesses trópicos surubáticos que fizeram Cristóvão Colombo fingir que não viu o Brasil para não ter que descobri-lo, debaixo daquele calor infernal. Deixou a bomba para Pedro Álvares Cabral (primeiro Cabral da dinastia de estupradores de cofres públicos) e foi descobrir a América do Norte, céu claro, 19 graus.

Esses dias, mais uma vez, houve um princípio de pancadaria em torno do velho tema urna-eletrônica-não-é-confiável, como se fosse possível urna confiável, seja eletrônica, de folha de banana, de papel higiênico Tico Tico, numa terra de assaltantes, náufragos e degredados que acabaram cruzando com a escória do Reino da Ibéria inventando o homo brasilis.

Pensei em escrever para Beto Guedes sobre “Sol de Primavera”. Começara essa crônica (???) com a música e depois com uma mistura de show da Xuxa com bacanal no reino encantado de Benfica, uma performance. Ia ficar botininho. Antes de começar o texto, um podcast com a voz tremula do bardo mineiro anunciando “quando entrar seteeeeembro/ e a boa nova andar nos caaaaampos/” que todo mundo ouvia de mãos dadas aplaudindo o por do sol do Arpoador, vulgo Arpex, chorando diante do belíssimo (é sim!”) poema do niteroiense Ronaldo Bastos que Guedes musicou. Abrir com essa música seria uma mensagem de amor, incentivando a coragem a bordo de frases de auto ajuda do tipo “quem tem Winston Churchill não teme vara no lombo”.

Olhar colírico/ Lirios plásticos do campo e do contracampo/ Telástico cinemascope teu sorriso tudo isso/ Tudo ido e lido e lindo e vindo do vivido/ Na minha adolescidade/Idade de pedra e paz (Veloso, Caetano - 1969).


terça-feira, 18 de setembro de 2018

Corações nas trevas


Pense numa praia com o mar transparente, água quase morna, sem ondas. Pense na paz de espírito em sua mais profunda tradução. Pense na sensação de felicidade, realização, brisa de verão, no amor da sua vida a caminho. Pensou? Pois eu vivi nesse lugar durante muito tempo.

Ando escrevendo mal por causa da estafa, exausto, não durmo, como mal, fase totalmente “the dark side of the moon”. Não tem problema. Nenhum problema. Não vou pedir desculpas por estar escrevendo mal porque nunca me justifiquei quando escrevi bem. Longe de querer me comparar (era só o que faltava), no documentário “O Apocalipse de um Cineasta” (original “The Hearts of Darkness”), que mostra como como foi filmado o épico “Apocalypse Now” (vulgo “filme da minha vida”), Francis Ford Coppola diz no final que não gostou do filme.

O documentário revela os múltiplos esforços do diretor para trabalhar em meio a forças da natureza, destruindo cenários e enfrentando cansaço físico e mental, problemas de guerrilha nas Filipinas, orçamentos exacerbados (que já ultrapassavam milhões de dólares), descrença dos produtores, uma parada cardíaca sofrida pelo protagonista Martin Sheen, a personalidade arrogante de Marlon Brando, bebedeiras típicas de Dennis Hopper e demais excessos da Nova Hollywood. O documentário apresenta cenas capturadas secretamente por Eleanor Coppola, mulher de Francis, que observou de perto a entrega quase suicida do marido ao projeto, desacreditado no resultado depois de tantas adversidades no set, mas que ao final triunfou, conquistando crítica e público, além da Palma de Ouro e dos Oscars de Melhor Fotografia e Som. Nunca antes a frase dita pelo cineasta fez tanto sentido: “Meu filme não é sobre o Vietnã, ele é o Vietnã”.

A praia que citei no início foi uma longa pausa em meu apocalipse now, que pensei muitas vezes que fosse crônico. Não é. É cíclico. No momento estou dentro dele e por isso faço questão de lembrar dos dias em que pegava um colete salva vida, vestia, e ficava boiando a beira mar durante um longo tempo. Naquele mar especial, daquela praia especial, que foi destruída anos depois pelo vandalismo e pela falta de governo. Não fui mais lá. Não queria ver as pessoas pisoteando meus sonhos tatuados na areia.

O coração nas trevas deu lugar ao sol de meio dia, com direito a trilha de Egberto Gismonti e Naná Vasconcellos. Que disco! Parodiando Belchior, eu era alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais e sonhava ser o Smooth Operator inventado por Sade, lá em 1984. Para quem? Para uma dama que estava a caminho e, quem sabe, dançaria uma valsa comigo ao som de canções mais do que românticas e malemolentes.

Esse flash back não significa que estou mal, lambendo cachorro suado pelas ruas. É uma espécie de instant karma que como as ondas de Nazaré (Portugal), olham para a cara do surfista e abrem o coração: “surfe-me ou te devoro”. E como não uso jet sky estou remando a prancha para, quem sabe, ultrapassar a arrebentação num swell gigante e descer os 23 metros de massa d’água. E, claro, mandar uma foto para ela.

Se não estivesse escrevendo mal diria que a arrebentação do mar em swell cabe perfeitamente numa metáfora de quatro letras: vida. Em muitos momentos passamos e em outros só há a opção de descer 23 metros de onda e acabar curtindo o que seria uma adversidade.

Não sei para que serve esse arremesso de letras e palavras contra a muralha do papel em branco, representado aqui por um retângulo digital e sua caneta tecnocrata, o cursor. Mas eu gosto. Sempre detestei máquina de escrever porque as vezes a fita de tinta embolava e cortava o impulso do texto, dando aquela parada quase brochante. Horrível. Isso sem falar da barulheira que me obrigava a parar, em casa, a meia noite. Escrever a mão era pior. Como comecei a trabalhar em jornal com 16 anos, em máquina de escrever, minha caligrafia se transformou numa manifestação anarquista de bêbado. Ninguém entendia. Nem eu. O computador me libertou.

Ontem à tarde, calor do cacete. A primavera, como sempre, vai entrar com o pé na porta. Pretendo voltar a ser um praieiro como sempre fui, mas infelizmente longe daquela minha praia que virou muquifo. Penso em frequentar Icaraí, como muitos moradores do bairro estão fazendo e quando consultei as tais “condições de balneabilidade” do Inea, Icaraí estava liberada. O problema que o Inea é do governo do estado, que está falido e não confio nas medições que, sem grana, devem ser totalmente à bangu.

No mais, feliz ano novo!






segunda-feira, 17 de setembro de 2018

São Paulo, 14 de outubro de 2018


Os paulistanos de bom gosto estão mais excitados do que cobra em areia quente. Afinal, no dia 14 de outubro (domingo), o australiano Nick Cave e sua banda The Bad Seeds volta a tocar em Sampa (depois de 30 anos) no Espaço das Américas, que fica na Barra Funda. Será uma apresentação única no Brasil e quem quiser assistir é bom correr porque os ingressos estão voando. Para comprar é só clicar aqui: http://www.ticketload.com/events/popload-gig-com-nick-cave-and-the-bad-seeds-sao-paulo-617

Aos 61 anos, Cave está no melhor momento de sua carreira. Ele é músico (piano, teclados, guitarra, violão), compositor, escritor, argumentista e, ocasionalmente, ator. É reverenciado por seu trabalho no rock,  onde aborda com coragem temas sensíveis e polêmicos como religiãomorteamorAmérica e violência.

Com 16 álbuns lançados desde 1984 ele luta pela qualidade musical, sempre preocupado com a saúde intelectual e emocional das novas gerações. Para ele, a música exerce um poderoso papel na formação das pessoas, principalmente a partir da adolescência.

Mais: no dia 30 de setembro (domingo) vão ser exibidos no Caixa Belas Artes Cultural, também de São Paulo, os filmes “Do You Love Me? - Especial Nick Cave", "20.000 Dias na Terra" e "One More Time with Feeling"!. Cave fez uma aparição em “Os Belos Dias de Aranjuez” do consagrado diretor alemão Win Wenders.

Apesar de ser o nome mais destacado do Bad Seeds, foi a banda que, tanto em estúdio como ao vivo, e com suas diferentes formações, transformou o cantor no artista que ele é hoje. Essa fusão de talentos e colaborações entre os músicos fez do Bad Seeds um dos grupos mais importantes de todos os tempos, lotando arenas pelo mundo. A discografia da banda é composta de diversos clássicos, como Push the Sky Away (2013), o confessional e doloroso The Boatman's Call (1997), Let Love In (1994) e o complexo Murder Ballads, de 1996, o de maior sucesso comercial e que contém suas composições mais famosas, como "Lovely Creature", "Henry Lee" e "Where the Wild Roses Grow", as duas últimas em duetos bem sucedidos com PJ Harvey e Kylie Minogue, respectivamente.

Já lançaram 16 álbuns, sendo o último o excelente Skeleton Tree, de 2016, carregado de letras que discutem perdas e luto e que serve de base para os shows intensos desta turnê. Dividindo-se atualmente entre relançamentos, trilhas e a turnê mundial, Nick Cave protagonizou ainda um filme que mostra na íntegra um dos seus shows mais emocionantes do ano passado, na Dinamarca. “Distant Sky” teve uma sessão única transmitida em vários cinemas do mundo, incluindo o Brasil. No ano passado, lançou a coletânea Lovely Creatures - The Best of Nick Cave & the Bad Seeds 1984 - 2014

Ver Nick Cave & The Bad Seeds ao vivo, pelo menos uma vez na vida, é uma experiência fundamental. 

domingo, 16 de setembro de 2018

Cena de Cinema


Lembro tão bem que sinto um nó na garganta. Depois de dois dias esperando uma ligação telefônica que não veio, fui ao cinema assistir “O Resgate do Soldado Ryan”, de Steven Spielberg.

História real. Ao desembarcar na Normandia, no dia 6 de junho de 1944, o capitão Miller (Tom Hanks) recebeu a missão de comandar um grupo para o resgate do soldado James Ryan, o caçula de quatro irmãos; três haviam morrido em combate. Ryan estava dentro das linhas inimigas.

A medida em que o filme foi desfilando na telona comecei a me identificar muito com o capitão Miller e lá pelas tantas, no auge da história, o nó na garganta se tornou choro compulsivo, que consegui disfarçar bem. Eu acho. Quando o capitão Miller, já em agonia, disse para Ryan “faça por merecer!” (quem assistiu o filme sabe o peso dessa frase) meus olhos estavam desfocados de tantas lágrimas. Era 1999. Vi o capitão Miller em mim e me vi no capitão Miller. 

O Cinema, a Literatura, a arte em geral tem esse poder, essa magia, essa força que nos joga nas telas (e nas páginas) para onde transportamos nossos momentos e os vemos incorporados em outros. No dia do “Soldado Ryan” percebi que muita gente chorava diante da carga que o monumental Spielberg despejou na tela. Provavelmente muitos se sentiam o Ryan, ou a mãe dele, ou os irmãos.

Um dia desses criei uma micro coluna chamada Cena de Cinema, no Instagram e quem quiser conhecer é só entrar, acesso liberado. Nela, cito filmes que gostei, com data e diretor. Em alguns senti necessidade de publicar poucos detalhes e para a minha orgásmica surpresa notei que tem muita gente curtindo. O que era para durar um dia, acabou ganhando asas e publico até hoje.

Foi fazendo essa micro coluna digital que reafirmei o quanto o Cinema foi, é, e será importante nas nossas minha vidas. O Cinema transforma em imagem, áudio, movimento, muita coisa que sentimos (ontem e hoje) e vamos sentir, individual e coletivamente, passando a impressão de que a maioria dos temas mundiais, de novo individuais e coletivos, já foram colocados na telona. Foram ou vão ser. O Cinema é um gigantesco documentário sobre nós. Seja comédia, ação, drama, suspense, terror. Seja brasileiro, americano, europeu, asiático, mexicanos, do Oriente Médio.

Tempos atrás fui escalado para participar de uma entrevista coletiva com Catherine Deneuve no Copacabana Palace. Foi em 90 e tal. Ela era mais do que diva. Quando assisti “A Bela da Tarde” (de Luis Buñuel), um gigantesco ícone da minha adolescência, Catherine foi promovida a condição de concubina inconsciente e quando o carro de reportagem se aproximou do Copacabana Palace pensei “vai ser bom conhecê-la porque a verei de dia, normal, sem maquiagem de set de cinema, sem falas ensaiadas, não verei o mito e sim a pessoa.”

Errei.

Quando ela apareceu no salão, com aquele charmoso atraso de 20 minutos, eu vi a bela da tarde. Baixinho sussurrei “caramba”. Um colega do Estadão disse, não muito baixo, “eu não acredito”, todos estávamos aturdidos. Se não me engano ela veio ao Brasil divulgar “Genealogias de um Crime”, de Raúl Ruiz.
Éramos uns 15 jornalistas, a maiora mulheres e até ela sentar ostentando um belo e discreto (na medida) sorriso, ficamos mudos.Todos. Até que a entrevista começou, trivial, simples, “do que trata o filme?; onde foi feito?”, etc etc etc. Através de uma intérprete ela respondia calmamente, e como a entrevista era modelo americano (o jornalista fica de pé para fazer a pergunta) chegou a minha vez. “Como foi trabalhar com Buñuel?”, perguntei e sentei rápido. Ela deu um sorriso do tipo “não adianta, não me livro da bela da tarde), ela respondeu na maior elegância.

A entrevista acabou e eu, louco por um autógrafo, fiquei no dilema. Afinal, diziam que jornalista não aplaude nem pede autógrafos, mas o colega do Estadão foi lá e ela assinou. Outros tomaram coragem e, no bolo, também fui. Peguei o autógrafo que, boçalmente, perdi.

Concordo quando dizem que as pessoas não escrevem para que, e sim para quem. É uma delícia ter musa. Acho que em todas as artes é assim, Cinema inclusive. Pergunto: para quem Buñuel fez “A Bela da Tarde”. Para Silvia Pinal? Picasso, sabemos, pintou para Jacqueline Roque, Françoise Gilot e Dora Maar. John Lennon compôs e cantou para Yoko Ono.

Enfim, Cinema não é quase tudo. É tudo.


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Liberdade: calça de veludo ou lorto de fora

                                                      Em novembro de 1937 os militares de Getúlio
                                                      Vargas incendiaram 1.694 livros de Jorge Amado numa                                                                                    praça proxima ao elevador Lacerda, em Salvador.

Mais cedo caminhava pela Gávea, olhei para o céu, para o sul e nem sinal de chuva. Foi quando lembrei que o famigerado Estado Novo do ditador Getúlio Vargas proibia a divulgação de temperaturas acima de 40 graus. Rádios e TVs que noticiassem que a máxima tinha atingido 40 graus e um décimo, em qualquer ponto do território nacional (inclusive na adorável Bangu), corriam o risco de serem multadas, ou cassadas. Por que? Porque naquela época a legislação trabalhista obrigava que todos os empregados fossem liberados quando a temperatura ambiente passasse dos 40 graus. Por isso, sempre fazendo meia com o poder, empresários foram a Brasília conversar e, em 1969, no bojo do AI-5, mantiveram a proibição getulista que, cínica, era “informal”. Informal é o cacete.

O site “Plenário MT” publicou um artigo, que comenta: “(...) Em 1955, com o clima político fervendo por causa da eleição de JK e de um movimento golpista para impedir sua posse, o filme “Rio 40 graus”, de Nelson Pereira dos Santos, foi censurado pelo então chefe de Polícia, um coronel, que proibiu a exibição da obra em todo o território nacional.

Além de acusado de promover “a desagregação do país”, por ser comunista e apresentar apenas os “aspectos negativos da capital brasileira”, “Rio 40 graus”, marco precursor do Cinema Novo, era chamado de “mentiroso” pelo militar, alegando que aqui a temperatura nunca ultrapassara 39 graus. O ato truculento e ridículo provocou uma das maiores ondas de protesto de artistas e intelectuais, liderados por Jorge Amado, enquadrado também por causa do seu clássico "Dona Flor e seus Dois Maridos", principalmente pelo triângulo amoroso formado por antagonistas: Vadinho, porrista, vagabundo, mulherengo e Teodoro, médico, sisudo, corretíssimo, recatado, do lar. A polícia achava que o trio era um atentado a moral e aos bons costumes.

A censura mudou de mãos mas continua aí. Nas redes sociais um censura o outro. Antes, décadas atrás, um brigava com o outro mas graças a um acordo “popular” as brigas diminuíram. Criaram o slogan meio machista (mas não sexista, senhores censores!!!!!!) “não se deve discutir política, religião e mulher. Acaba em pancadaria”. A “democracia” que vemos nas redes sociais é do tipo “você pode falar o que quiser desde que seja o que exijo ouvir.” Sim, o tom é autoritário. Da esquerda e da direita. Quando a censura atinge o topo da montanha de insanidades as pessoas se bloqueiam mutuamente, e fim de papo. Não sei que democracismo é esse.

São esses exemplos que me tornam cada vez mais radical na defesa do amplo, geral e irrestrito exercício da liberdade de expressão, de ação, de tudo. Liberdade não tem meio termo, água morna, acarajé sem pimenta, cerveja sem álcool. É calça de veludo ou lorto de fora. Por enquanto, o jornalismo brasileiro (livre das mordaças em 1985), vive em regime, em tese, de auto regulação já que não existe meia liberdade, 90% de liberdade, meia virgindade nem meia canalhice.

Poderosos tem a obsessão de nos empurrar a tal “regulação da mídia” que eles afirmam não ter nada a ver com censura. Como assim nada a ver? A imprensa livre dispensa regulação externa. Qualquer tipo de tentativa de controle, manipulação, freio, é censura. Até segunda desordem.

A liberdade voltou a pauta depois do atentado ao jornal francês Charlie Hebdo, lá em 2015, que tinha como um dos slogans “um jornal irresponsável”. Houve muita gritaria. Até o Papa Francisco se meteu no bate-boca, como mostra essa nota publicada pela BBC:

O papa Francisco defendeu o direito de expressão, mas disse ser errado provocar os outros ao insultar a religião alheia (...)
Para ilustrar seu ponto de vista, Francisco disse a jornalistas no avião papal que seu assistente poderia esperar um soco se ele xingar sua mãe.
"É normal. Você não pode provocar, não pode insultar a religião dos outros", disse ele.”

Santidade, discordo totalmente. A imprensa pode publicar o que quiser, inclusive xingar a mãe, desde que assuma as consequências judiciais, que fazem parte do chamado jogo democrático. Um jornalista mau caráter, safado, achacador, moleque, venal pode acusar alguém de corrupto, de pedófilo, de assassino, mas para isso terá que provar. Com relação a vítima, a legislação é farta. Um processo por calúnia, difamação e similares, rende gordas indenizações, prisão, desmentidos e uma série de outros efeitos punitivos que fazem os jornalistas pensarem duas vezes antes de apurarem mal uma informação. Mais: existem também penas gravíssimas para o caso de ofensa religiosa, racial e afins.

Se um muçulmano se sentiu ofendido pelo Charlie Hebdo em 2015, por exemplo, poderia ter entrado na Justiça alegando ofensa, discriminação, etc e não explodir o jornal matando gente. Em outras palavras, a tal regulação da mídia já existe e está em vigor no Judiciário de todos os países democráticos, entre eles o Brasil.

Logo, que as coisas continuem como estão. Que os meios de comunicação possam seguir livres para informar e, no caso de lambança, levarem um ferro da Justiça. Essa é a regra básica do jogo e assim deve prevalecer.