sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Médicos Cubanos


Os donos de Cuba abandonaram o programa “Mais Médicos”, do Brasil. Cuba chutou o balde, certamente intuindo que vai acabar a mamata de embolsar 70% do que ganham seus médicos aqui no Brasil. Os médicos recebem salário mensal de R$ 10.570, reajustado neste ano para R$ 11.520, mas ficam só com R$ 3 mil -- o resto fica com o governo de Cuba.

Em setembro de 2017 o jornal New York Times estampou a manchete “Médicos cubanos no Brasil se revoltam com Cuba: "Você se cansa de ser um escravo". A matéria assinada por Ernesto Londoño diz:

“Em um raro ato de desafio coletivo, dezenas de médicos cubanos que trabalham no exterior para ganhar dinheiro para suas famílias e seu país estão movendo processos judiciais para romper fileiras com o governo cubano, exigindo ser libertados do que um juiz chamou de "uma forma de trabalho escravo". Milhares de médicos cubanos trabalham no exterior sob contrato com as autoridades cubanas. Países como o Brasil pagam ao governo comunista da ilha milhões de dólares por mês para fornecer serviços médicos, o que efetivamente torna os médicos de Cuba sua exportação mais valiosa(...)

Mas os médicos recebem uma pequena parte desse dinheiro, e um número cada vez maior dos que estão no Brasil começou a se rebelar. No ano passado, pelo menos 150 médicos cubanos moveram ações em tribunais brasileiros para contestar o acordo, exigindo ser tratados como profissionais independentes, ganhando salários plenos, e não como agentes do Estado cubano.

"Quando você sai de Cuba pela primeira vez, descobre muitas coisas que não sabia", disse Yaili Jiménez Gutierrez, uma das médicas que moveu a ação.”

A medicina cubana estava entre as mais evoluídas e avançadas no mundo até o início dos anos 90, quando a União Soviética acabou e a ilha foi abandonada. Sem a bilionária mesada de Moscou, a economia faliu.

Exatamente no início dos anos 1990, o prefeito Jorge Roberto Silveira realizou, em Niterói, o “Encontro com Cuba”, uma maneira de agradecer a ilha pelo apoio técnico dado durante na epidemia de dengue hemorrágica. Cuba enviou vários médicos para cá.

Graças a experiência cubana, Niterói foi a primeira cidade a implantar o programa “Médico de Família”, módulos avançados que atendem a moradores de uma área. Cuba abriu suas portas para que os técnicos daqui aprendessem sobre o funcionamento do revolucionário programa que hoje não sei como está funcionando.

O grande articulador e produtor do “Encontro com Cuba” foi o saudoso e querido amigo Ney Sroulevich, um dos brasileiros que mais conheciam Cuba. Passava muitos meses por ano lá.

O Encontro foi uma explosão de sucesso. Réplicas de restaurantes famosos de Havana foram feitas, show de músicos de lá, palestra e debates com escritores, poetas, historiadores, apresentações de artistas, mostras com artistas plásticos, enfim o Encontro mobilizou e envolveu toda a cidade e eu, na época presidente da Fundação de Arte de Niterói, fiquei conhecendo dezenas de cubanos que participaram.

Apesar de temerem os agentes de segurança que vieram infiltrados na delegação eles diziam que estava na hora do regime em Cuba abrir responsavelmente a sua economia para que a população não continuasse passando fome, sem trabalho, sem itens básicos. Com o fim da mesada da União Soviética, Cuba ficou a deriva.

“O único setor que continua a funcionar é a medicina, pois o governo suspendeu investimentos em todas as áreas, menos nessa”, me disse uma grande historiadora de lá. Ou seja, mesmo quando a ilha afundou a sua medicina continuou a todo o vapor. Em tempo: muitos me disseram que boa parte da população não aguenta mais viver num regime opressor.

Não sei como estão as coisas hoje, 26 anos depois do “Encontro com Cuba”, mas se os cubanos do programa “Mais Médicos” fossem ruins já haveria escândalos e gritaria.

Um relato que o jornalista Cezar Motta postou no Facebook:

As coisas têm que ser chamadas pelo nome que têm e explicadas como são.

1) O programa dos médicos cubanos no Brasil era muito bom para as populações pobres que o Lula mentiu que tinha tirado da miséria. Mentira dele, como sempre. Os miseráveis brasileiros continuaram miseráveis. Mas claro que o Mais Médicos sempre foi bom para um mundo de brasileiros. A única assistência médica que jamais tiveram.

2) Os médicos cubanos são submetidos a um trabalho quase escravo: não podem escolher para onde vão e têm que entregar boa parte dos salários ao governo cubano. O acordo não impede legalmente que esses médicos tragam suas famílias. Mas, alôô, Cuba é uma ditadura! Nem sempre o que vale é a lei. E mais: o que sobra do salário deles aqui é muito pouco pra viver dignamente com uma família;

3) Por que eles, se pudessem, trariam filhos pra regiões brasileiras miseráveis, sem ensino público decente e sem qualidade de vida? Não trariam. Ninguém traria.

4) Eu vi os hipócritas sindicalistas médicos brasileiros indignados. Corporativistas! Nunca se manifestaram sobre os péssimos serviços que seus colegas prestam aos pobres brasileiros nos nossos horríveis hospitais públicos. Tudo cada vez pior.

5) Fui a Cuba em fevereiro último e voltei com dois médicos cubanos que vinham para o Mais Médicos. Iam para o interior da Amazônia, para onde nenhum médico brasiliero jamais iria. Nem com os ótimos salários que alguns governos ofereceram há alguns anos a brasileiros recém-formados. Ambos intimidados, os médicos cubanos companheiros de viagem. Um branco e um negro, com idade entre 35 e 40 anos.

Acabei perguntando: Podem trocar de cidade depois de algum tempo, se quiserem? "Não". Têm mulher e filhos? "Sim". Podem trazê-los? "Não".









quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Submergir


As batalhas navais ensinam que diante do bombardeio os submarinos submergem. Submergir é proteção. Para submarinos e para todos nós.

“Sai, sai do sereno menino”, diz a canção que alerta que “sereno pode fazer mal”. Uma tradução urbana do ato de submergir. Se bem que não sinto o sereno há muitos anos. Nem ele, nem a garoa, nem a neve de Itatiaia.

Itatiaia foi onde passei um dos melhores fins de semana de minha vida e a pior Semana Santa. “A vida é assim”, dizia Zora Yonara, astróloga do rádio e sua voz enigmática com eco alertando: “pisciano, você tem pela frente uma sequência de vitórias esplendorosas. Insista, pisciano!”.

A submersão é vital para a sobrevida. Basta ter ar suficiente e muita humildade. Castrar os ventos tortos da arrogância, deixar nossa nau existencial largada no fundo do mar, ao lado dos polvos e dos peixes abissais.

Os tímidos vivem nos bancos de areia, cercados de corais. Parados, prestando atenção nos praticantes de evasão de privacidade (essa é do Tutty Vasquez) que exibem sua anêmica minúscula burguesia nas redes sociais do gênero “estou tão feliz nessa foto, tão feliz que se me assoprar eu caio no chão e choro”. 
Ahhhh, o blefe das redes sociais. Ahhhh, o blefe das redes. Ahhhh, o blefe das sociedades. Ahhh, o blefe crônico da humanidade.

Submergir faz bem a saúde. Mesmo quando o oponente lança bombas de profundidade que fazem nosso casco mugir como o touro do Apocalipse.

Quem sabe submergir se esconde nas montanhas de pedra submarinas. Pouca luz, nenhum som, motores desligados. Esperar a tormenta passar. Um, 12, 30, 600 dias. Submarinos atômicos. Autonomia. Falo de nós, longa autonomia. Falo da sociedade, aguda dependência.

As batalhas navais ensinam que diante do bombardeio os submarinos submergem e que as galinhas morrem por cacarejarem depois do ovo. Não é o caso do bicho-preguiça mergulhado em seu mutismo, espatifado até por skate. 
Não fala, mas não corre.

Correr ou falar?

Opção?

Sem dúvida a terceira.

Submergir.

Ou: em dia de temporal de faca não se senta na janela.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Celacanto Provoca Maremoto

                                                                    Ele começou
                                                                O Rio gostou
                                                                 Celacanto existe

Quarenta anos depois, ano passado descobri o mistério daquele saudoso grafite que tomou conta do Rio, do país, mundo afora. Li, com satisfação, esse artigo de Cris K que revela o autor da proeza. O colega jornalista Carlos Alberto Teixeira, o C@T. Em tempo: celacanto existe. É um peixe que vive nas profundezas abissais. Agora, vamos ao artigo revelador:

Em 1977, um estranho e intrigante grafite começou a aparecer aqui e ali nos muros de Ipanema, no Rio de Janeiro: CELACANTO PROVOCA MAREMOTO. Com o passar do tempo, foi pipocando em outros lugares e, do Rio, chegou à América do Norte e Europa. Mas até hoje seu significado e propósito continuam um mistério.

Entretanto, tal assunto não será mais um mistério para os nossos leitores. O autor do CELACANTO PROVOCA MAREMOTO é o jornalista carioca Carlos Alberto Teixeira(C@T).

A origem de tudo passa pelo seriado chamado National Kid, exibido na década de 60, propaganda dos produtos National, que depois virou Panasonic. Um dos episódios era sobre os seres abissais, e um deles era o peixe chamado celacanto.

Num dado momento, o Dr. Sanada, que era um dos personagens maléficos, dizia: “CELACANTO PROVOCA MAREMOTO”. E não provocava nada, quem provocava era um submarino chamado Guilton, que tinha uma boca com uma lâmina dentro, uma viagem completa.

Este negócio ficou na cabeça de Carlos até 1977, quando ele bolou no caderno um grafismo de "CELACANTO PROVOCA MAREMOTO" circundado por uma moldura com uma seta, que caía em uma gota com dois tracinhos ao lado, mostrando que ela estava "tremendo":

Aquele era apenas o início. O próprio Carlos conta como a brincadeira foi crescendo e como ficou famosa a ponto de aparecer em noticiários da época:

- Um dia, após a aula, peguei giz e enchi a sala com tal representação. Era na parede, era no quadro-negro, era no chão, no teto, enfim, enchi a sala de aula e aquele negócio virou um símbolo. Na época eu tinha 17 anos, e fazia esse grafismo com giz em tapume de obra, o que gerava um contraste legal do giz branco com a madeira de coloração escura. Depois, comecei a comprar Pilot (caneta hidrocor, conhecida como pincel atômico). Ensinei alguns amigos a fazer a pichação CELACANTO PROVOCA MAREMOTO, pois havia um estilo que indicava que era eu quem estava fazendo, e não uma mera cópia (havia gente que copiava e dava para perceber que não eram da minha linhagem).

O grande salto foi usar spray e aí começou a se formar uma equipe que chegou a totalizar 25 pessoas, com gente pichando até em Washington e em Paris. Como era um trabalho que a gente fazia na madrugada, havia muita pichação na zona sul do Rio, em Ipanema, Leblon e Copacabana. Por ser uma região de gente muito cabeça, as pessoas começaram a perguntar: Ah, Celacanto, o que será isso?

Na mesma época, havia uma outra pichação, o Lerfá Mu, uma coisa de maconha. Tanto eu quanto esse Lerfá Mu estudávamos na PUC do Rio, e começamos uma batalha nos banheiros, que ficavam totalmente rabiscados: eu ofendendo o Lerfá Mu, ele respondendo... Até que um dia surgiram outros pichadores na área do Jardim Botânico e Leblon lutando contra o Celacanto e o Lerfá Mu, o que ocasionou uma aliança entre nós dois. Nos banheiros da PUC marcamos um encontro numa esquina de Copacabana. Para nos reconhecermos mutuamente, deveríamos ir com um chapéu ou com uma vassoura um guarda-chuva. Eu fui de chapéu e ele de vassoura guarda-chuva; nos reconhecemos e nos abraçamos e tal. Há alguns anos, soube que o Guilherme - autor do Lerfá Mu - faleceu de cirrose hepática.

A imprensa começou a investigar as pichações, afirmando que o CELACANTO era um código de encontro entre traficantes, imagina. Outros afirmavam que eram mensagens de extraterrestres, pois naquele tempo, e até hoje, é difícil encontrar uma pichação que seja uma frase, e ali havia um período completo, sujeito, verbo e objeto. Geralmente o cara botava o nome, ou um grafismo só, ou uma sigla, e essa frase, justamente por ser uma oração completa, despertava a curiosidade das pessoas.

Com a intensa especulação dos repórteres sobre "o que será?", "quem será", o então prefeito da cidade, o falecido Marcos Tamoio, instituiu uma multa exorbitante para aqueles que fossem apanhados pichando. Os moradores da Tijuca pegaram um dos pichadores que tinha um dos grafites mais lindos, o Megalodon (com o desenho de um tubarão), encheram o cara de porrada, deixaram-no de cueca e picharam-no todinho, largando o rapaz do meio da rua.

Meu pai trabalhava no Jornal do Brasil e uma das repórteres procurava descobrir que era o Celacanto. Meu pai chegou pra mim e disse: Carlos, não é uma hora boa para você aparecer? Aí você passa a ser domínio público, é visto como uma figura interessante e, quem sabe, escapa dessa multa, caso te peguem numa dessas aí de noite. Os meus pais sempre foram contra essa história de pichação, ficavam preocupados, mas eu fazia mesmo, não tinha jeito. Resultado: Topei, a repórter foi lá em casa, tirou fotos e publicou uma entrevista com meu nome, idade, o que eu fazia (na época eu cursava Física) e tudo o mais. Então eu saía na rua e era reconhecido, olha lá o Celacanto e o meu ego explodia... Pichei mais um tempo e aí fui diminuindo, pois precisava começar a ter que estudar mais para a faculdade (que era uma dureza) até que terminei abandonando o grafite.

Uns dez anos depois, recebi um telefonema:

- É você o Carlos Alberto Teixeira?

- Sim, sou eu mesmo.

- O autor do Celacanto?

- Exatamente.

- Ah, nós precisamos da sua ajuda.

- O que que foi?

- Precisamos que você faça o grafite de um cenário do programa da Angélica, na TV Manchete.

- Olha, eu faço, o preço é tanto...

Eu dei um preço exorbitante, os caras toparam, pedi um monte de material e eles me pegaram em casa numa tarde de sábado, me levando para uma estação de trem em Niterói. Ó, é aqui, você pode pichar à vontade. Fiquei pichando lá até a madrugada, uma beleza, tenho até fotos disso, e acabei ganhando dinheiro como artista plástico. Tenho o recibo lá em casa até hoje, "Carlos Alberto Teixeira, artista plástico", graças ao CELACANTO PROVOCA MAREMOTO.

Aí começaram a surgir pessoas dizendo ah, eu inventei o Celacanto. Eu ficava olhando pra pessoa e dizia "escuta, inventou nada, quem inventou fui eu", e os caras diziam "ah, desculpa, eu não sabia". Encontrei uns três caras afirmando que criaram o Celacanto e eu ia lá para conferir e os desmascarava, já que eles não tinham argumentos: "criou onde?", "desde quando?", "onde surgiu?" e ninguém sabia.

Eu pichava só tapume e parede. Jamais pichei pedra, monumento ou árvore. Eu só pegava lugares escolhidos a dedo, como na "saída" de curvas, por exemplo: quando o cara saía da curva de São Conrado, lá na Barra, dava de cara com uma casa onde tinha a inscrição do Celacanto bem no centro, o que causava uma impressão boa. Agora, qual o motivo disso aí? No meu caso, eu acho que sempre tive uma ânsia por comunicação, por passar uma mensagem, e o Celacanto foi isso, foi algo tão bem feito na época que ficou famoso e não tem ninguém do pessoal da década de 70, da zona sul do Rio, que não se lembre do "CELACANTO PROVOCA MAREMOTO".


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Alguém aí entende de podcast?


Estou pensando em fazer uma série de podcats curtos, com no máximo 10 minutos de duração (incluindo música) contando histórias e estórias de clássicos do rock.

Posso contar a história de um disco, de uma música, de uma turnê, só não garanto narrar a biografia de artistas porque iriam durar um século. Por exemplo, como falar do Zeppelin, ELP e U2 em 10 minutos?

O problema é que ainda não sei divulgar podcasts. Eu uso, por exemplo, o Podomatic. Como divulgar maciçamente, atrair as pessoas que querem ouvir boas e até engraçadas histórias/estórias de clássicos do rock?

Agradeço quem puder me enviar um passo a passo.

domingo, 11 de novembro de 2018

“Quadrophenia”, segunda ópera rock do The Who (a primeira foi “Tommy”), comemora 45 anos



 



Foi há 45 anos que The Who lançou sua segunda ópera rock (a primeira foi “Tommy”), “Quadrophenia”. O álbum inclui clássicos como “The Real Me”, “5:15”, “I'm One”, “The Punk and The Godfather”, “Drowned”, “Sea And Sand” e “Love Reign O”. 'er Me', entre outros. A obra foi composta por |Pete Townshend, guitarrista, cantor, produtor e líder do The Who.

Uma versão para cinema baseada no álbum foi produzida pela banda e lançada em 1979. Em 2019 o filme vai ser refilmado, com um orçamento muito maior. A tão esperada versão para orquestra, intitulada Classic Quadrophenia, estreou em 2015 no Royal Albert Hall de Londres, estrelada por Townshend e Alfie Boe, cantando as partes originais de Roger Daltrey com a Royal Philharmonic Orchestra e o London Oriana Choir dirigido por Robert Ziegler. 
A nova versão sinfônica foi orquestrada pela mulher de Townshend, regente e compositora Rachel Fuller, que gravou uma versão em estúdio também lançada em CD. Várias outras versões da ópera, remasterizadas e especiais são lançadas até hoje.

Pete Townshend criou um ciclo de canções que narra a vida de “Jimmy” - um “mod” de Londres, em meados dos anos 60. O álbum trata das batalhas de Jimmy com seus pais, a modesta vida noturna, seu emprego no escritório, o abandono, a rejeição e a lendária guerra real no balneário de Brighton entre “mods” (em geral filhos de operários) contra o seu inimigo cultural, os "rockers" (de classe média mais alta). “Mods” usavam scooters e “rockers” motocicletas.

O personagem de Jimmy deveria representar as quatro facetas do Who: Keith Moon (insano), John Entwistle (romântico), Roger Daltrey (agressivo) e Townshend (caótico).

Durante uma palestra no festival South By Southwest, Townshend foi questionado sobre o que prefere; o álbum de 1971 da banda, “Who's Next”, que apresenta apenas uma seleção de faixas gravadas para a sua incompreensível peça de ficção científica chamada Lifehouse (que acabou não saindo), ou Quadrophenia: “Eu gosto mais de Quadrophenia porque é mais puro. Eu tinha controle total sobre a obra e acho que isso prejudicou um pouco a banda - particularmente Roger- que tinha a sensação de estar do lado de fora, mesmo sendo um pilar. Se de certo modo o fracasso da “Lifehouse” levou à Quadrophenia, então estou feliz...mas nunca vou superar a perda de “Lifehouse”. Nunca”.

Uma história, por Brian Cady

Eu tinha 16 anos e me tornei fã do Who apenas um ano antes quando o álbum “Quadrophenia” foi lançado. Parecia enorme, cinza e pesado com seus dois discos e livro de fotos em preto-e-branco. Na época o rock colorido, brilhante, glitter. Então essa capa sombria se destacou naquela época e logo que ouvi senti que não era apenas mais um disco de rock.

Cada página do livreto parecia uma afronta ao carisma pop. Quem gasta todo esse dinheiro para fazer um livreto de fotos de uma criança que transporta lixo e um prato de ovos meio comidos? E o livreto era duro e a música era algo completamente diferente, ao contrário da magreza de Tommy. Quadrophenia era uma rocha rica em camadas, tanto em som quanto em palavras. Canções de dramalhão sumiram quando The Who mergulhou de cabeça na cabeça desse adolescente raivoso, machucado, multi traumatizado que era Jimmy.

Na época, The Who estava preocupado se os americanos entenderiam o subtexto. Eu soube do significado de “mod” pelo livro Gary Herman chamado “The Who”. E os livros tem o poder de revelar tudo.

Duvido que muitos adolescentes em qualquer parte do mundo tenham dificuldade em entender Jimmy. Sua obsessão por ternos tipo sereia pode parecer um pouco estranha, mas dessa maneira ele não era o garoto solitário trancado em seu quarto ("I'm One"), irritado com a injustiça do mundo ("Dancer Helpless"), deixado para trás na multidão ("Cut My Hair"), procurando uma maneira de sair da dor de crescer ("Love Reign O'er Me").

A geração que havia crescido com o The Who estava desconfortável com Quadrophenia. Era ousado demais, complexo demais, profundo demais. Não havia nenhum “Happy Jack” (canção do álbum “A Quick One”) apenas o solitário e louco Jimmy. Mas Quadrophenia pegou os novos fãs do The Who, aqueles que tinham idade suficiente para ir a shows de rock. Foi um álbum feito para eles. Não há bobagens para passar o tempo, nem acordes alienados para ficar bêbado. Músicas como "The Real Me" e "Dr. Jimmy" entendiam o quão profunda a dor era e quão perigoso você poderia ficar se a pressão não diminuísse logo. E no final havia uma saída. Uma esperança para o seu futuro. Talvez você possa crescer e ser uma pessoa mais sábia.

Levou tempo para que todos percebessem o que esse trabalho significava, até mesmo o The Who. Projetado para substituir “Tommy” no palco, acabou sendo tecnicamente muito desafiador para o The Who se apresentar ao vivo. Mesmo que as fitas de apoio funcionassem, elas eram obrigadas a tocar as músicas da mesma maneira todas as noites, matando qualquer chance de deixar as canções crescerem em novos significados como o de “Tommy”.

Pete e Roger estavam tão preocupados que o público poderia não entender cada pequena nuance da cultura “mod” que Quadrophenia transformou em meio show de rock / meia palestra. Bootlegs desses shows ao vivo disfarçam o fato de que as explicações de Pete e Roger raramente eram compreensíveis além das primeiras linhas. Nas regiões cavernosas das arenas que agora tinham que tocar, as crianças passavam juntas enquanto alguém da banda cantava de forma ininteligível.

Depois desse desastre, The Who abandonou a “Quadrophenia” por anos. Vista como um fracasso e detestado pelos antigos fãs do Who que bombardearam Pete com suas opiniões, “Quadrophenia” parecia melhor esquecida. Mas, aquela familiar capa cinza apareceu no quarto de muitos adolescentes, tocada repetidamente no volume máximo, fazendo uma parede sônica entre o ouvinte e o mundo que não entendia. “Quadrophenia” parecia incompreensível porque falar da adolescência é um desafio. Foi quando o álbum “estourou” e só no ano 2000 The Who fez a primeira tour mundial. Por isso acho que é a obra prima de Pete Townshend/The Who.

sábado, 10 de novembro de 2018

3 Minutos


 Uma cena de “Bohemian Rhapsody” mostra um diretor de gravadora impedindo o Queen de gravar a música título do filme. AlegaVA que as rádios de sucessos só tocavam músicas de três minutos, e que “Bohemian Rhapsodia” tem seis.

A banda brigou, dizia que é uma música conceitual, mas o diretor se negava categoricamente. O Queen acabou abandonando a reunião e saída Freddie Mercury disse “você vai entrar para história por ter perdido o Queen”.

Empresários e advogados negociaram e o tal diretor concordou que “Bohemian Rhapsody” fosse o lado B de com single (compacto) e uma faixa do meio do álbum “A Night at the Opera”, lançado em 1975, tendo a bordo “Love of my Life”, música que Freddie fez para o amor de sua vida, Mary Austin.

Importante esclarecer que o esquema era esse mesmo. Em todo o mundo as rádios que tocavam sucessos só admitiam músicas com até três minutos de duração porque o mercado achava que o ouvinte só aturava esse tempo. O mercado achava que o ouvinte escutava, mas não ouvia músicas, tratadas como meras ferramentas de negócio.

As rádios de sucesso aqui no Brasil eram macacas de imitação das americanas e, claro, só tocavam músicas assim, de três minutos. Quando a música era importante financeiramente e passava desse tempo era mutiladas pelas rádios, que cortavam a introdução, o final e muitas vezes partes do meio.

Mais: as FMs brasileiras de sucesso, além de determinarem o limite de tempo só tocavam 50 músicas por dia, repetindo, repetindo, repetindo. Era nessa hora que entrava o jabá, quando algumas gravadoras metiam dinheiro por foram para algumas emissoras tocarem exaustivamente seus artistas.

O curioso é que as gravadoras reclamavam desse sistema, os artistas idem, os anunciantes e o público também, mas ninguém mudava nada.
Contrariando essa fórmula a Fluminense FM entrou no ar em 1982 com músicas inteiras e a programação era feita com tantos artistas que uma música só era repetida uma vez por semana. O mercado adorou, os ouvintes mais ainda e a rádio acabou entre as líderes em audiência, fenômeno e mito até hoje.

Mais tarde, o grande e lendário executivo de rádio Eduardo Andrews assumiu a direção da Transamérica FM e tacou “Faroeste Cabloco” da Legião (8 minutos e cacetada), além de “Eduardo e Monica” e outras. Andrews também não mutilava as músicas internacionais.

Conclusão, o mercado caiu de joelhos, ouvintes e publicitários enterraram a fórmula de três minutos nas rádios (uma emissora insistiu e caiu de segundo para décimo oitavo). Mas todas não abriram mão de tocar apenas 50 músicas por dia.

O jabá prevaleceu.

Impávido

                             Óleo de Oliver O. Oliver, Paris 1932
Esquecem que a verdade está longe, muito longe de ser absoluta. Atribuição divina, o absolutismo é incorporado pela patética e patológica onipotência dos lunáticos sociais e sua logorreia torpe, vulgo brain damage

Perdeu, baby.

Lunáticos sociais não acreditam que aqui se faz, aqui se paga. Acham que é gritaria de adesivos de nona categoria. Mas o pior, o fatal, é o desprezo a máxima que sentencia: aqui não se faz, mas aqui se paga, sim.

Perdeu, baby.

Esquecem que o limite do egocentrismo é uma muralha de chumbo, conhecida na vala incomum como perda total. Essa malta, a dos lunáticos sociais, vulgo brain damage, cruza a existência jogando gente no esgoto, arrotando as tais verdades absolutas inexistentes, como se o E.T. de Varginha fosse guarda de trânsito do Juízo Final.

Perdeu, baby.

Ignoram que o Juízo Final é quem anota, aponta, processa cada coração, cada grito, cada lágrima desprezada pelos lunáticos sociais, vulgo brain damage, à bordo de sua mixaria existencial que chuta a compaixão, cospe na condolência, ri da piedade.

É quando o Juízo Final age. A seu modo. E derrama de seu seio iniludível as chamas do justiçamento, tatua a ferro e fogo que aqui não se faz, mas aqui se paga sim.

A verdade segue relativa, a vida segue relativa, o vento sopra relativo, mas o Juízo Final, impávido colosso, anota, anota, anota anota, anota, anota.....