sexta-feira, 21 de julho de 2017

O feitiço do sedã japonês

Impressionante. Praticamente todos os amigos e conhecidos que encontram perguntam “Cadê aquele Suzuki Baleno? Era único, o maior charme”. De pergunta em pergunta comecei a achar que me arrependi de tê-lo vendido. Como vendi para um conhecido, que como eu trata o carro a leite de cabra, fui sondá-lo sobre a possibilidade de recomprar. Mas o feitiço do sedã também pegou o novo dono que, vejam só, está procurando um outro Baleno no Mercado Livre. “Fiquei apaixonado pelo carro, quero ter mais um”. De fato, esse carro tem borogodó. Tanto para os donos como para conhecidos, colegas e amigos do dono.

Uma história que nasceu quase sob o manto do acaso. O sedã japonês verde escuro (idêntico ao da foto) estava num canto da vitrine da concessionária. Zero quilômetro. Tinha chegado do Japão há três meses, temporada no porto, depósito, pátio, documentação, lavagem, revisão, transporte, vitrine.

Entrei disposto a comprar um SUV preto, tração 4X4, para viajar pelo Pantanal e fazer uma perna para o deserto de Atacama, Chile ou atravessar o deserto do Jalapão, norte do Brasil. O problema era vencer a preguiça. Eu sabia que carros japoneses e alemães não dão problema, são resistentes, honestos, apreciam a longevidade. Ia fechar negócio com o SUV. O vendedor foi lá atrás pegar o manual e outros detalhes quando meu olhar bateu no sedã japonês. Esse feiticeiro de aço.

Levantei, olhei a frente, traseira, laterais. Abri o capô, motor, 16 válvulas, bloco em alumínio, muitos cavalos de potência, câmbio automático e, o mais importante, carro japonês, que não dá trabalho e, ainda por cima, da mesma marca do SUV. 

Mudei de ideia. Em vez do SUV comprei o sedã japonês. No dia seguinte saí da loja, pus um CD no Kenwood de fábrica e zarpei. Fui até Barra do Sana e desci pela Serramar (na época lama pura) e retornei como se tivesse ido a esquina beber uma água mineral. Na altura de São Gonçalo, violento temporal. Deixei a BR 101 e decidi ir por dentro da cidade. Mau negócio. Ruas transformadas em rios de esgoto, carros boiando enguiçados. E o sedã japonês passou. Com água na porta, muitas vezes boiando, sequer falhou. Dias depois, outro toró no Ingá, bairro de Niterói. Água na porta, o sedã boiou de novo e chegou a virar ao contrário. Mas não pifou.

De dois em dois anos pensava em troca-lo por carro um mais novo, mas me perguntava para que, se o carro até alma de jipe tinha. Num lugar chamado Engenho do Mato as vezes eu matava saudade dos ralis fazendo trilha com o sedã no lamaçal, alta velocidade. Impressionante. O motor do sedã japonês era o mesmo do SUV que eu iria comprar. Enfrentou alagamentos na chuva, lama, neve, areia, como um autêntico SUV, sem dar um espirro. Um único espirro.

E foi assim durante 17 anos. Eu e o sedã japonês já não sabíamos mais quem era quem. Ele é quase único porque só foi importado durante um ano. Era raro. Naquele carro aconteceu de tudo, absolutamente tudo. Histórias que se fossem transformadas em livros lotariam a biblioteca nacional. Fiel, o sedã jamais enguiçou, jamais furou um pneu, jamais...jamais traiu o seu DNA japonês.

Mas um dia...bem um dia surgiu um outro japonês. Novo. Também resistente, também bem falado, também fiel, também. Foi quando vendi o sedã japonês. Quase fiquei arrasado mas graças ao novo dono, cujos olhos saltaram de paixão logo no primeiro contato, tive certeza que meu grande amigo continuaria em boas mãos.

O novo japonês parece ter gostado de mim. Começamos a construir uma história bacana, leve, rápida, precisa, estável. Sem problemas. Como os carros japoneses e alemães. Mas, a saudade do sedã eventualmente me pega. E como o vi com o novo dono, reluzindo estacionando em frente a casa dele, a saudade rasgou. Decidi que, ano que vem, vou tentar recomprá-lo só para tê-lo por perto. Se bem que o cara não vai vender de volta mesmo.

Entenderam?



quinta-feira, 20 de julho de 2017

Eternas Capitanias Hereditárias

Meritocracia. Linda palavra. Presença obrigatória em comícios, entrevistas, aparições na TV de qualquer político. Meritocracia significa vencer na vida pelo mérito pessoal, pelo talento, criatividade, ética. Mais nada.

Nesse início do século 21 podemos observar que nunca (ou quase nunca) o nepotismo, os pistolões, a ação entre amigos esteve tão presente, especialmente em setores como a música, jornalismo e, naturalmente, a política.

Na música, chega a ser engraçado. Entramos na internet, abrimos os jornais ou ligamos a TV e o que mais vemos é a “descoberta de talentos” de filhos, netos, sobrinhos, maridos de medalhões. Cardumes e mais cardumes de piranhas. As Capitanias Hereditárias do velho Império tiveram seu conceito eternizado e transplantado para outros setores.

É comum lermos que “Fulano de Tal, que toca o instrumento X é filho do lendário Beltrano”. Toca bem? Não informam. Toca mal? Não informam. A matéria, em geral escrita por cupinchas  da Capitania, só se interessa em dizer que o filho ou a filha do medalhão está em cena. Ponto. Para ele, é o suficiente e o leitor que se dane.

No jornalismo (como em toda a área de Comunicação) é tão melancólico quanto. A enxurrada de sobrenomes iguais (é muita cara de pau) denuncia o nepotismo. Não haveria problema (ninguém aqui é moralista) se o filho do Pluto, digamos assim, tivesse o mesmo talento do pai. Em geral, não é o que acontece. Filho de barrigada mal dada, ao contrário do pai (ou do avô, tio, primo e similares) apura mal, escreve mal e tem a cara de pau de partir para o abraço assinando a matéria, aplaudida pela horda ignara.

Como a avaliação do talento na arte, cultura e mídia é subjetiva, a coisa fica no zero a zero. Mas no caso, por exemplo, de um neurocirurgião (e de muitas outras profissões que exigem notório saber) a situação é completamente diferente. Exemplo: se Paulo Niemeyer Filho não tivesse tanto ou mais talento do que o pai, muita gente teria morrido na sua mão e ele teria sido rifado do mapa. Mas por ser muito bom e, também, ser filho do grande Paulo Niemeyer, ele atingiu alto grau de reconhecimento de seus colegas médicos e da chamada opinião pública.

Enquanto isso, nas Capitanias Hereditárias da mídia, li semanas atrás uma “reportagem” entre aspas assinada por um venal, falando de músicos medíocres, numa festa realizada num questionável e decadente "ponto da moda", lançando um disco vulgar, com a presença do famoso pai e avô dos músicos, mais mãe e avó e uma montanha de artistas famosos. O venal "jornalista" entre aspas, que também se acha diretor de cinema, faz clipes para a tal banda. Ah, sim, o pai do tal repórter é amiguinho do pai dos músicos. Resumindo: músicos filhos de pai e avós famosos, ganham reportagem escrita por um amiguinho que é também diretor de seus videoclipes e filho de um amigão do pai da banda. Que coisa.

Dizem que é sinal dos tempos. Não sei. Só sei que é fácil acusar a internet pelo fim do disco, dos jornais, das revistas. Até que ponto a tal maioria silenciosa perdeu a paciência com esse lixo produzido e cultuado pelas Capitanias Hereditárias? Ou o nepotismo acha que ninguém está notando, que ele é blindado, à prova de mérito?

É melancólico.




quarta-feira, 19 de julho de 2017

Exigimos imediata intervenção federal no Estado do Rio

É urgente e imediata a intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro, que vive uma situação de genocídio, caos, abandono total. Por falta de governo, cidadãos morrem nas ruas e hospitais, crianças são assassinadas em escolas e nas ruas por causa da guerra civil, enfim, todos os princípios básicos dos Direitos Humanos estão sendo violados à luz do dia. À luz da morte.

Nessa chacina generalizada, causada pela corrupção e luxúria com o dinheiro público, o governo do Estado do Rio decidiu, há tempos, não pagar o funcionalismo ativo, aposentados, inativos e afins, alegando falta de dinheiro. Mentira! Isso é falta de moral, é falta de governo.

O que os parlamentares do Rio* tem feito em prol da única solução para o Estado, a intervenção federal? O que fazem? O que dizem? Que satisfação nos dão já que estão em Brasília por nossa culpa?

Indigno, cruel, nefasto, escroque, o ato de deixar milhares e milhares de idosos à míngua é o mais grave capítulo da trágica e imunda trajetória do governo do Estado.

Não pagar a quem já não mais consegue trabalhar é estuprar o mais indefeso dos mortais. Os idosos não tem mais tempo, sua força não é como a de antes, mas a maioria absoluta honrava seus compromissos do dia a dia como pagar o mercado, a farmácia (que está um assalto), o condomínio, os impostos. Mas o deslavado governo do Estado decidiu transformar os idosos em inadimplentes - como ele -, governo do Estado. É muita patifaria. Sobra vilania nessa torpe história.

O governo federal está parado, estagnado, anêmico. Como imaginar uma intervenção federal no RJ se o governo federal é incapaz de intervir em si mesmo? Não interessa. O RJ exige a intervenção, mesmo que o Governo Federal tenha que se reinventar.

Os atores desse teatro mórbido que assistimos no Estado do Rio vão entrar para a História. É certo. Pela sarjeta. É mais certo ainda. Qualquer governante com o mínimo de dignidade, antes de atirar idosos na miséria, deferia oferecer o próprio pescoço ao sacrifício e renunciar. 


Pelo bem da humanidade.


Mas seria exigir muita grandeza de parasitas tão mesquinhos.

* Senadores que nós do RJ pusemos em Brasília:

Eduardo Lopes (PRB) Período 2011-2019
Lindbergh Farias (PT) Período 2011-2019
Romário (Pode) Período 2015-2023

* Deputados federais que NÓS colocamos em Brasília em 2014:

Jair Bolsonaro (PP) – 464.572 votos
Clarissa Garotinho (PR) – 335.061 votos
Eduardo Cunha (PMDB) – 232.708 votos
Chico Alencar (PSOL) – 195.964 votos
Leonardo Picciani (PMDB) – 180.741 votos
Pedro Paulo (PMDB) – 162.403 votos
Jean Wyllys (PSOL) – 144.770 votos
Roberto Sales (PRB) – 124.087 votos
Marco Antônio Cabral (PMDB) – 119.584 votos
Otavio Leite (PSDB) – 106.398 votos
Felipe Bornier (PSD) – 105.517 votos
Sóstenes Cavalcante (PSD) – 104.697 votos
Washington Reis (PMDB) – 103.190 votos
Rosangela Gomes (PRB) – 101.686 votos
Júlio Lopes (PP) – 96.796 votos
Índio da Costa (PSD) – 91.523 votos
Alessandro Molon (PT) - 87.003 votos
Hugo Leal (PROS) – 85.449 votos
Glauber (PSB) – 82.236 votos
Cristiane Brasil (PTB) – 81.617 votos
Jandira Feghali (PCdoB) – 68.531 votos
Dr. João (PR) – 65.624 votos
Simão Sessim (PP) – 58.825 votos
Celso Pansera (PMDB) – 58.534 votos
Miro Teixeira (PROS) – 58.409 votos
Aureo (SD) – 58.117 votos
Sergio Zveuter (PSD) – 57.587 votos
Arolde de Oliveira (PSD) – 55.380 votos
Rodrigo Maia (DEM) – 53.167 votos
Chico D’Angelo (PT) – 52.809 votos
Cabo Daciolo (PSOL) – 49.831 votos
Luiz Sergio (PT) – 48.903 votos
Alexandre Serfiotis (PSD) – 48.879 votos
Deley (PTB) – 48.874 votos
Soraya Santos (PMDB) – 48.204 votos
Benedita da Silva (PT) – 48.163 votos
Paulo Feijó (PR) – 48.058 votos
Marcelo Matos (PDT) - 47370 votos
Fernando Jordão (PMDB) – 47.188 votos
Francisco Floriano (PR) – 47.157 votos
Marcos Soares (PR) - 44.440 votos
Altineu Cortes (PR) – 40.593 votos
Fabiano Horta (PT) 37.989 votos
Ezequiel Teixeira (SD) – 35.701 votos
Luiz Carlos Ramos do Chapeu (PSDC) – 33.221 votos
Alexandre Valle (PRP) – 26.526 votos


Apenas metade do número de deputados do Rio foi renovada. Dos 46 candidatos, 23 foram reeleitos em 2014.


terça-feira, 18 de julho de 2017

Submergir

       Marcio Paulo
As batalhas navais ensinam que diante do bombardeio os submarinos submergem. Submergir é proteção. Para submarinos e para seres humanos.

Sai, sai do sereno menino”, diz a canção que alerta que “sereno pode fazer mal”. Uma tradução urbana do ato de submergir. Se bem que não sinto o sereno há muitos anos. Nem ele, nem a garôa, nem a neve de Itatiaia, prometida pelos meteorologistas para esta semana. Itatiaia foi onde passei um dos melhores fins de semana de minha vida e a pior Semana Santa. “A vida é assim”, dizia Zora Yonara, astróloga do rádio e sua voz enigmá com eco alertando: “pisciano, você tem pela frente uma sequência de vitórias esplendorosa. Insista, pisciano!”.

A submersão é vital para a sobrevida. Basta ter ar suficiente e muita humildade. Castrar os ventos tortos da arrogância, deixar nossa nau existencial largada no fundo do mar, ao lado dos polvos e dos peixes abissais.

Os tímidos vivem nos bancos de areia, cercados de corais. Parados, prestando atenção nos praticantes de evasão de privacidade (essa é do Tutty Vasquez) que exibem sua anêmica pequena burguesia nas redes sociais do tipo “estou tão feliz nessa foto, tão feliz que se me assoprar eu caio no chão e choro”. Ahhhh, o blefe das redes sociais. Ahhhh, o blefe das redes. Ahhhh, o blefe das sociedades. Ahhh, o blefe da humanidade.

Submergir faz bem a saúde. Mesmo quando o oponente lança bombas de profundidade que fazem nosso casco mugir como o touro do Apocalipse. Quem sabe submergir se esconde embaixo das montanhas de pedra submarinas. Pouca luz, nenhum som, motores desligados. Esperar a tormenta passar. Um, 12, 30, 600 dias. Submarinos atômicos, longa autonomia. Falo de nós, longa autonomia. Falo da sociedade, aguda dependência.

As batalhas navais ensinam que diante do bombardeio os submarinos submergem e que as galinhas morrem por cacarejarem depois do ovo. Não é o caso do bicho-preguiça mergulhado em seu mutismo, espatifado até por skate. Não fala, mas não corre.

Correr ou falar?

Qual a melhor opção?

Sem dúvida a terceira.

Submergir.


Ou: em dia de temporal de faca não se bota a bunda na janela.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Let it Be, o filme



Assisti de novo ao filme “Let it Be”, dirigido por Michael Lindsay-Hoog. Foi feito ao longo de janeiro de 1969 e lançado em maio de 1970, quando a banda já havia acabado. Paul McCartney foi o único que lutou para que o filme fosse feito (aliás, era o único que ainda parecia acreditar que os Beatles ainda existiam), e o que era para ser o registro histórico dos ensaios, momentos de composições, interiores do maior grupo de rock de todos os tempos acabou se transformando num testemunho vivo sobre o fim dos Beatles.

Não há iluminação de cinema. Não há cenários, o roteiro é mínimo, a falta de luz gera a sensação de má qualidade das imagens, mas e daí? As câmeras circularam à vontade entre os músicos no estúdio, registrando conversas, gargalhadas e mal estar. George Harrison, por exemplo, não esconde que  já está de saco cheio e em determinado momento, conversando com McCartney, diz, desanimado e irritado “tudo bem. Diz o que devo fazer e eu faço”, uma maneira nada sutil de falar “dane-se”. Rindo Starr está apagado, desanimado e só raramente (mas raramente mesmo) se diverte dividindo um piano com Harrison numa brincadeira ou se divertindo com a então pequena Stella McCartney, de três anos.

Yoko Ono é onipresente. Aparece em várias cenas, quieta, sorriso de Monalisa, observando, sempre ao lado de Lennon, com quem chega a dançar uma valsa no estúdio. O constrangimento no ambiente é óbvio mas o som rolou assim mesmo. E que som. Que som! Com Billy Preston no órgão, os Beatles, mesmo sabendo que era o fim, arrebentaram.

Curiosamente, o clima entre McCartney e Lennon não parecia ruim. Os dois se divertem, riem quando dividem microfones, mas fica claro o comedimento, a cerimônia. Em determinado momento Macca comenta que se George Harrison não embarreirasse os Beatles deveriam voltar a tocar ao vivo, quem sabe começando pelo Royal Albert Hall, em Londres.

Há quem diga que naquela época Lennon teria sugerido a Macca que Harrison fosse substituído por Eric Clapton, o que foi negado. Paul achava que The Beatles só deveria existir com os quatro. Há muito mistério na atitude dos dois ao longo dos quase 90 minutos do documentário, onde tocam de tudo, inclusive canções que, creio, permaneceram inéditas. O final apoteótico foi aquele lendário show no telhado da gravadora Apple que acabou com a chegada da polícia.

Assistir Let it Be faz muito bem porque: 1 – comprova que The Beatles foram (e são) muito mais gigantescos e monumentais do que supomos; 2 – o grupo acabou na hora certa. Melhor do que seguir definhando publicamente.

Músicas do filme

.“Two of Us"
"Dig a Pony"
  • "Across the Universe"
  • "I Me Mine"
  • "Dig It"
  • "Let It Be"
  • "I've Got a Feeling"
  • "One After 909"
  • "The Long and Winding Road"
  • "For You Blue"
  • "Get Back"
  • "Octopus's Garden"
  • "Maxwell's Silver Hammer"
  • "Besame Mucho"
  • "Don't Let Me Down"
  • "You've Really Got a Hold on Me"
  • Medley: "Kansas City/Hey, Hey, Hey, Hey"




domingo, 16 de julho de 2017

Minha validade vencida

Fico aflito em não saber quem lê esta Coluna. Aflito e ansioso. Chegando aos 380 mil acessos, receio que a Coluna não atinja o chamado “público jovem”. Na boa, receio não. Tenho absoluta certeza que não. Muitos representantes das chamadas novas gerações, por razões objetivas, estão desconectadas da chamada mídia formal, da qual faço parte. Alguns garotas e garotos tem sua mídia própria e, pelo que vejo, ouço, converso, frequentam-se mutuamente numa rica troca de ignorâncias. Ignorância no sentido literal, de ignorar. Neste caso, propositalmente, e daí?

A ignorância é um direito e se esses representantes das novas gerações gostam de ler quinquilharias, preferem assistir you tubers, ouvir safadões, estão em seu pleno direito de surfar a liberdade a sua maneira. Quem sou eu para obrigar a ler Machado de Assis, ou sorver o texto genial de uma Clarice Lispector ou do Lobão. Sim, eu acho o texto do Lobão genial. E daí?

Quem sou eu para vociferar “vocês tem que assistir CNN, Al Jazeera, Globonews e não essa cisterna de purpurina tola e fútil dos you tubers”? Quem sou eu para clamar “ouçam a remixagem de Sgt Pepper dos Beatles, o melhor do Radiohead, ouçam Jimi Hendrix e não essas bostas que vocês espetam nos ouvidos com seus celulares. Quem sou eu? Não sou ninguém.

Tenho consciência plácida de que a minha validade intelectual está quase vencida. A validade existencial dura um pouco mais, 23 anos para ser preciso. Penso nisso numa boa porque a chamada evolução da espécie, atira a validade vencida no lixo. Logo, no auge de minha quase falência intelectual determinar que a evolução da espécie virou involução, retrocesso, anemia é de uma boçalidade e arrogância atrozes.

Se segmentos das novas gerações não leem bem, escrevem mal, são ególatras ao extremo, são alienados e vazios isso é um conceito meu. Ponto. E não deles. Ponto. Tenho tanta convicção da minha validade existencial que ultimamente tenho frequentado sites de suicídio assistido nos Estados Unidos pois quero dar a meu fim de linha, minhas últimas cenas, um contorno suave e honroso.

Parte da minha geração foi cercada de brilhantes livros, jornais, revistas, filmes etc mas vestiu o pijama, passeia com o canário na gaiola pelas ruas de manhã, para numa padaria qualquer para beber coalhada e jogar conversa fora (literalmente) e, adestrada, volta para casa. Abre o computador cheirando a naftalina e começa a lamuriar nas redes sociais, achando que as novas gerações tinham que estar participando deste momento histórico do Brasil, detonando Temer, Lula, etc etc etc. Reclamam que filhos e netos não conversam em casa. As vezes entro nas redes e digo “as novas gerações só querem uma coisa do Brasil: pular fora daqui”.

Alguns filhos e netos que entram porta a dentro com a cabeça enterrada no celular teclando com sua rede, trancam-se no quarto fazendo sabe-se lá o que on line e só saem para banho, comida e tosa, como um pet. Não querem saber quem governa o país, que país é este (eles tem mais o que não fazer para pensar nisso), quem é quem na TV, não assistem a noticiários, não ouvem rádios. É só eu, eu, eu, e a rede de contatos. E quando eu digo para os meus contemporâneos que isso não é problema nosso, eles gemem de horror.

Nos fins e de semana alguns integrantes das novas gerações vão a festas de sua rede. Um ou outro bebe, um ou outro fuma, um ou outro toma MDMA (droga da moda, conhecida como Michael Douglas) ou similares, um ou outro morre e na pré alvorada da onda da madrugada voltam para o seu minifúndio (casa dos pais), alguns com namoradas ou namorados e se embolam trancafiados em seu bunker/quarto, depósito de enigmas e tabus para uso pessoal e intransferível.

Segue o jogo.







sábado, 15 de julho de 2017

40 anos sem Big Boy

Big Boy morreu há 40 anos. Foi em 7 de março de 1977. Ele era asmático crônico e sempre andava com uma bombinha no bolso. Todo mundo o chamava de hipocondríaco e ele respondia, irônico, “quem é vivo sempre aparece”. Não bebia, não fumava e nem cheirava nada. Foi a São Paulo a trabalho e começou a passar mal no quarto do hotel. Quis o destino que, naquele dia, Big Boy não estivesse com bombinha nenhuma. Morreu.

Os 40 anos da morte do maior DJ do rádio brasileiro só não passou totalmente em branco porque o mega radialista Mauricio Valladares dedicou a Big Boy um farto e merecido espaço no programa "Baú da Globo" nos últimos domingos. Produzido por ele e pelo Centro de Documentação e Pesquisa do Sistema Globo de Rádio, "Baú da Globo" vai ao ar domingos, as 23 horas. 

Fora essa águia solitária, Big Boy foi desprezado. Razões compreensíveis. Nunca a mídia esteve tão imbecil, fútil e vazia como hoje, e a culpa não é da internet. Ninguém falou dos 40 anos de Big Boy porque 0,000000000000001% das redações sabem quem foi ele. Vivemos tempos de heróis fabricados pelos interesses pessoais de alguns profissionais de comunicação com C minúsculo. Até recentemente, jornalista que ganhava cachê de fonte era demitido. Hoje, jornalista entre aspas apresenta festinhas, seminários, congressos, organiza debates, dá palestras, pago por empresas e governos. Lógico que, em troca, além do cachê que recebe escreve agrados.

Além de ter revolucionado a extinta Rádio Mundial, AM oito-meia-zero, com aquele som horrível de caixa de sapado mas tão lúcida e inteligente como uma FM inexistente hoje, o extinto Big Boy inventou a extinta Eldo Pop em 1971. Uma rádio cuja programação era calcada no melhor do rock progressivo, mas rolava outras bandas também. Não tinha locução. A Eldo Pop era um computador do tamanho de uma geladeira que ficava cuspindo boa música 24 horas por dia no morro do Sumaré. Quando pifava (e era comum), Mario Henrique Peixinho pegava um carro e subia até lá para por no ar de novo. A Eldo Pop foi líder em audiência em FM e durou até Big Boy morrer. Saiu do ar em 78 e em seu lugar entrou a famigerada 98 FM.

Eu, meu irmão Fernando Mello e o amigo/irmão Marcio Paulo Maia Tavares ouvíamos a Eldo Pop o dia todo. Tínhamos praticamente decorado a programação baseada nas centenas de álbuns que Big Boy trazia dos Estados Unidos. Como não gavia locução as bandas não eram anunciadas. Acabaram virando um enigma, mito. Desvendar cada uma delas virou uma mania para os ouvintes.

Tenho certeza de que se não tivesse morrido Big Boy não deixaria a Eldo Pop acabar. Ele vivia as turras com o comando das rádios onde trabalhava, mas acho que tinha algum cacife lá dentro. Ele sempre dizia ao pessoal da rádio (não cheguei a ter contato com ele) que a Eldo era um diamante que estava sendo lapidado devagar e que iria revolucionar os anos 80. Não deu tempo.

Quando fui montar a Globo FM, em 1985, Peixinho me mostrou a discoteca da Eldo Pop. Intacta, toda em vinil. Claro que, manuseando aqueles discos, bateu um nó na garganta. Há 15 dias soube que a discoteca foi para o espaço. Ninguém sabe, ninguém viu. Em tempo: todo o arquivo precioso da Rádio Jornal do Brasil, ícone do radiojornalismo brasileiro, também foi jogado fora. O imbecilato goza vomitando ignorância digital por aí. O imbecilado produz áudio com som perfeito, cristalino, 5.1, mas burro, anêmico, boçal. A comunicação virou um asneirol vago.

Aqui, vinhetas da Eld Pop.