quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O Grande Circo Místico, de Cacá Diegues. Magistral!



                                                                           
Pode parecer lugar comum dizer que uma pessoa se superou. Não importa. Cacá Diegues não só se superou como mais uma vez inovou com o seu magistral “O Grande Circo Místico”, em cartaz nos melhores cinemas.

Para mim, valeu a pena esperar. Tentei assistir duas vezes, mas a lotação dos cinemas estava esgotada (que bom!). Nesta terça-feira comprei o ingresso de manhã pela internet e finalmente assisti, por sinal numa sessão que também estava esgotada. Fico muito feliz com esse sucesso mais do que merecido e recomendo a todos que assistam numa sala de cinema.

“O Grande Circo Místico” é cinema de arte de vanguarda, no sentido literal da expressão, brindado com uma plástica impressionantemente bela, trilha sonora, maravilhosa e uma história que é um verdadeiro poema brasileiro de luz, cor, choque, com uma leve camada de absurdo. Amores, dramas, antagonismos de cinco gerações de uma mesma família circense, da inauguração do Grande Circo Místico em 1910 aos dias de hoje. Celaví, o mestre de cerimônias que nunca envelhece, mostra as aventuras e os amores dos Knieps, do apogeu à decadência.

Cacá abriu um cofre de afetos, desafetos, nascimentos, ressurgimentos, severas adversidades existenciais, conflitos, amor, traumas, um oceano de situações que giram incessantemente sob a lona do Grande Circo Místico.

A indicação para o Oscar de 2019, além de justíssima, faz todo sentido porque “O Grande Circo Místico” mostra os poros do jeito brasileiro de sentir, olhar, sofrer, nossa maneira incansável de ver o mundo, as pessoas, as estrelas os cometas. Os cometas...que maravilha. Tudo sob o olhar firme e atento de um diretor que sempre esteve e se mantém muito a frente do nosso tempo e que é mestre em humanizar a farta tecnologia de audiovisual disponível.

O elenco é fabuloso, de extremo talento. Cacá Diegues deu o ritmo certo a história para apreciarmos as vidas exibidas na telona (repito: como faz bem ver este filme de Cinema num cinema) com calma, com direito a reflexão em tempo real, livres da correria.

Lógico que irei assistir “O Grande Circo Místico” outras vezes. E no cinema. Uma obra genial do grande Cacá Diegues, orgulho da nossa cultura que ele transforma em interplanetária.

Produção Executiva – Renata Almeida Magalhaes

Trilha sonora -  Chico Buarque e Edu Lobo

Elenco – Jesuíta Barbosa, Bruna Linzmeyer,  Rafael Lozano, Catherine Mouchet, Antônio Fagundes, Vincent Cassel, Mariana Ximenes, Marina Provenzzan, Juliano Cazarré, Flora Diegues, Luiza Mariani, Dawid Ogrodnik, Amanda Britto, Louise Britto, Albano Jerónimo, Daniela Faria, João Santos Silva, Nuno Lopes.




sábado, 17 de novembro de 2018

Impublicáveis


Faz sentido um sonho que tive, noites atrás. Muitas noites atrás. Muitas e muitas e muitas e muitas noites atrás.

Sonhei com “Beleza Americana”, filme de Sam Mendes lançado em 1998, com Kevin Spacey, Annette Bening e Thora Birch nos papeis principais. O filme mexeu tanto na minha vida (literalmente) que comprei uma cópia em DVD para assistir de novo de tempos em tempos. Não assisto porque muitas vezes é melhor deixar nossos baús trancados, calados, quietos. Além do mais, esse DVD também sumiu da minha estante, onde atua um misterioso exterminador de Cultura.

A guinada do personagem de Kevin me deixou quase lacrimoso dentro do cinema, onde permaneci uns cinco minutos depois que o filme acabou, completamente abobalhado, besteirão, queixo caído, vendo os créditos subirem na tela enquanto as pessoas saiam, com o capacete da minha Suzuki DR 800 no colo; tinha motocicleta naquela época, mas motocicleta deixou de ser um veículo civilizado, segundo o regulamento da guerra civil, também conhecido como “perdeu. Larga a moto pra não tomar tiro na nuca.”

Dias depois comecei a sentir os bons sintomas do filme, que culminaram com uma ida a Igreja do Senhor do Bonfim, na Bahia. Na época escrevi (acho que foi no Estadão) que o cinema tem o poder de meter uma colher de sopa em nossas vísceras. O cinema, em muitos casos, faz o papel do inconsciente gente boa derramado em via pública.

Mas aí mora uma pergunta: somos todos impublicáveis? “Beleza Americana” disse “larga essa vidinha e caia dentro com vigor, tesão e uma boa dose de irresponsabilidade”. Irresponsabilidade, irresponsabilidade, irresponsabilidade, eco, eco, eco. Aquilo ficou martelando em minha cabeça (e a trilha sonora idem) e, meses depois, quando olhei para trás vi que também tinha dado uma guinada radical, que a tal “vidinha” denunciada em silêncio pelo filme tinha sido substituída pelo vigor da tal dose de irresponsabilidade, que alguns chamam de “elemento transgressor, “ ou “carcará que pega, não mata e come”.

Respeitei a pergunta - todos somos impublicáveis? - e continuei a viver a nova vida calado, mais convicto ainda de que nada podemos fazer para deter a carruagem do tempo, do vento, do destino. Nada podemos fazer. Não tempos tempo, só urgências. Não dá para deixar para hoje o que deveríamos ter feito ontem.

O sonho que tive foi como se um torpedo de um submarino alemão singrasse o fundo do mar em direção a um porta-aviões americano, em 1944.
O que fazer? Acessei o You Tube e fiquei contemplando a beleza que é a instalação que o artista plástico Daniel Wurtzel fez, baseado na trilha sonora do filme. Imersão total. Beleza mais que americana.

Absoluta.

Agora é só ouvir o sibilar do inconsciente e seguir em frente. 

Calado, quieto.


Quem sou eu?

Por Margarida Seco de Oliveira, psicóloga.

O questionamento sobre o sentido da vida surgiu em todas as religiões, em todas as culturas, em todos os continentes. Pensadores, filósofos, artistas sempre buscaram respostas para o que é oculto. Na adolescência essas questões existenciais são comuns, mas parecem diluir-se ao longo da vida adulta para depois, em alguns casos, ressurgir na velhice.

Todos os dias me autoquestiono e as respostas vão sofrendo alterações evolutivas ou involutivas, às vezes nem sei bem. Hoje, cheguei a outra pseudoconclusão: a integração do SER é mais importante e mais fácil do que o FAZER. Mas o sentido de vida altera-se perante cada ciclo.

O psiquiatra Flávio Gikovate diz que a vida não tem sentido nenhum, mas não é proibido dar-lhe algum através de um projeto pessoal e individual. Urge então que este projeto seja a fusão entre a ciência funcionalista que responde ao COMO, e, a filosofia, a arte e a espiritualidade que responde ao PORQUÊ! São polos opostos complementares, ambos necessários, mas de formas diferentes e em tempos intercalados.

Vamos imaginar uma ilha que simboliza o SER conhecimento, mas está rodeada de mar que simboliza o SER desconhecido. Logo o conhecimento é sempre incompleto e a busca é infinita, porque nada nos trás um equilíbrio definitivo, apenas temporário na escalada da evolução.

Quanto mais nos relacionamos mais possibilidades se apresentam. Mas objetivamente é necessário discernir o problema para procurar a solução fundamental. A passividade perante o próprio muro/barreira requer observação consciente, porque, “tudo um dia será nada, e esse nada, será o todo que toda a vida procuramos” (Paulo de Tarso Lima).

Liberdade é tomar consciência e assumir a autoria da sua própria existência, através da matriz criativa, que espalha beleza (= autoconhecimento), faz refletir, confronta, provoca convulsões na vida para que a revelação surja no momento mais fugaz. Ser do mesmo modo e fazer tudo de igual forma não é persistência é tacanhice mental, porque o que nasce acabado são as máquinas, o ser humano evolui e forma-se ao longo da vida através das suas interações com o microcosmos e macrocosmos.

A beleza (= autoconhecimento) existe para lutar contra a tragédia. Assim, a felicidade é a possibilidade de SER e esta é original e única, sendo que a missão é procurar ter uma visão verdadeira e bela de nós próprios. Imaginemos que vamos passear dentro de nós próprios, simbolicamente vamos subir a nossa montanha. O seu vale é verde e florido, com ar puro e pássaros que cantam, mas quanto mais subimos menos vegetação temos e o ar é mais rarefeito, mas o angulo de visão é cada vez maior. Quanto mais evoluímos, mais temos de nos esforçar porque teremos uma visão mais ampla que exige maior responsabilidade.

O grande catalisador do Homem são as situações de “crise”, quando tudo cai e fica só a substância pura e realmente essencial. A causa do sofrimento é a ignorância e a solução é a liberdade do autoconhecimento. A tristeza e a solidão, de que todos fogem, ou pelo menos tem dificuldade em conviver, são a ajuda interior tão esperada, que proporciona o luto para depois renascer. E o que interessa é o querer saber e não o saber tudo. Isso não existe.

Afinal, o que estou fazendo da minha vida enquanto a morte não chega?


sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Médicos Cubanos


Os donos de Cuba abandonaram o programa “Mais Médicos”, do Brasil. Cuba chutou o balde, certamente intuindo que vai acabar a mamata de embolsar 70% do que ganham seus médicos aqui no Brasil. Os médicos recebem salário mensal de R$ 10.570, reajustado neste ano para R$ 11.520, mas ficam só com R$ 3 mil -- o resto fica com o governo de Cuba.

Em setembro de 2017 o jornal New York Times estampou a manchete “Médicos cubanos no Brasil se revoltam com Cuba: "Você se cansa de ser um escravo". A matéria assinada por Ernesto Londoño diz:

“Em um raro ato de desafio coletivo, dezenas de médicos cubanos que trabalham no exterior para ganhar dinheiro para suas famílias e seu país estão movendo processos judiciais para romper fileiras com o governo cubano, exigindo ser libertados do que um juiz chamou de "uma forma de trabalho escravo". Milhares de médicos cubanos trabalham no exterior sob contrato com as autoridades cubanas. Países como o Brasil pagam ao governo comunista da ilha milhões de dólares por mês para fornecer serviços médicos, o que efetivamente torna os médicos de Cuba sua exportação mais valiosa(...)

Mas os médicos recebem uma pequena parte desse dinheiro, e um número cada vez maior dos que estão no Brasil começou a se rebelar. No ano passado, pelo menos 150 médicos cubanos moveram ações em tribunais brasileiros para contestar o acordo, exigindo ser tratados como profissionais independentes, ganhando salários plenos, e não como agentes do Estado cubano.

"Quando você sai de Cuba pela primeira vez, descobre muitas coisas que não sabia", disse Yaili Jiménez Gutierrez, uma das médicas que moveu a ação.”

A medicina cubana estava entre as mais evoluídas e avançadas no mundo até o início dos anos 90, quando a União Soviética acabou e a ilha foi abandonada. Sem a bilionária mesada de Moscou, a economia faliu.

Exatamente no início dos anos 1990, o prefeito Jorge Roberto Silveira realizou, em Niterói, o “Encontro com Cuba”, uma maneira de agradecer a ilha pelo apoio técnico dado durante na epidemia de dengue hemorrágica. Cuba enviou vários médicos para cá.

Graças a experiência cubana, Niterói foi a primeira cidade a implantar o programa “Médico de Família”, módulos avançados que atendem a moradores de uma área. Cuba abriu suas portas para que os técnicos daqui aprendessem sobre o funcionamento do revolucionário programa que hoje não sei como está funcionando.

O grande articulador e produtor do “Encontro com Cuba” foi o saudoso e querido amigo Ney Sroulevich, um dos brasileiros que mais conheciam Cuba. Passava muitos meses por ano lá.

O Encontro foi uma explosão de sucesso. Réplicas de restaurantes famosos de Havana foram feitas, show de músicos de lá, palestra e debates com escritores, poetas, historiadores, apresentações de artistas, mostras com artistas plásticos, enfim o Encontro mobilizou e envolveu toda a cidade e eu, na época presidente da Fundação de Arte de Niterói, fiquei conhecendo dezenas de cubanos que participaram.

Apesar de temerem os agentes de segurança que vieram infiltrados na delegação eles diziam que estava na hora do regime em Cuba abrir responsavelmente a sua economia para que a população não continuasse passando fome, sem trabalho, sem itens básicos. Com o fim da mesada da União Soviética, Cuba ficou a deriva.

“O único setor que continua a funcionar é a medicina, pois o governo suspendeu investimentos em todas as áreas, menos nessa”, me disse uma grande historiadora de lá. Ou seja, mesmo quando a ilha afundou a sua medicina continuou a todo o vapor. Em tempo: muitos me disseram que boa parte da população não aguenta mais viver num regime opressor.

Não sei como estão as coisas hoje, 26 anos depois do “Encontro com Cuba”, mas se os cubanos do programa “Mais Médicos” fossem ruins já haveria escândalos e gritaria.

Um relato que o jornalista Cezar Motta postou no Facebook:

As coisas têm que ser chamadas pelo nome que têm e explicadas como são.

1) O programa dos médicos cubanos no Brasil era muito bom para as populações pobres que o Lula mentiu que tinha tirado da miséria. Mentira dele, como sempre. Os miseráveis brasileiros continuaram miseráveis. Mas claro que o Mais Médicos sempre foi bom para um mundo de brasileiros. A única assistência médica que jamais tiveram.

2) Os médicos cubanos são submetidos a um trabalho quase escravo: não podem escolher para onde vão e têm que entregar boa parte dos salários ao governo cubano. O acordo não impede legalmente que esses médicos tragam suas famílias. Mas, alôô, Cuba é uma ditadura! Nem sempre o que vale é a lei. E mais: o que sobra do salário deles aqui é muito pouco pra viver dignamente com uma família;

3) Por que eles, se pudessem, trariam filhos pra regiões brasileiras miseráveis, sem ensino público decente e sem qualidade de vida? Não trariam. Ninguém traria.

4) Eu vi os hipócritas sindicalistas médicos brasileiros indignados. Corporativistas! Nunca se manifestaram sobre os péssimos serviços que seus colegas prestam aos pobres brasileiros nos nossos horríveis hospitais públicos. Tudo cada vez pior.

5) Fui a Cuba em fevereiro último e voltei com dois médicos cubanos que vinham para o Mais Médicos. Iam para o interior da Amazônia, para onde nenhum médico brasiliero jamais iria. Nem com os ótimos salários que alguns governos ofereceram há alguns anos a brasileiros recém-formados. Ambos intimidados, os médicos cubanos companheiros de viagem. Um branco e um negro, com idade entre 35 e 40 anos.

Acabei perguntando: Podem trocar de cidade depois de algum tempo, se quiserem? "Não". Têm mulher e filhos? "Sim". Podem trazê-los? "Não".









quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Submergir


As batalhas navais ensinam que diante do bombardeio os submarinos submergem. Submergir é proteção. Para submarinos e para todos nós.

“Sai, sai do sereno menino”, diz a canção que alerta que “sereno pode fazer mal”. Uma tradução urbana do ato de submergir. Se bem que não sinto o sereno há muitos anos. Nem ele, nem a garoa, nem a neve de Itatiaia.

Itatiaia foi onde passei um dos melhores fins de semana de minha vida e a pior Semana Santa. “A vida é assim”, dizia Zora Yonara, astróloga do rádio e sua voz enigmática com eco alertando: “pisciano, você tem pela frente uma sequência de vitórias esplendorosas. Insista, pisciano!”.

A submersão é vital para a sobrevida. Basta ter ar suficiente e muita humildade. Castrar os ventos tortos da arrogância, deixar nossa nau existencial largada no fundo do mar, ao lado dos polvos e dos peixes abissais.

Os tímidos vivem nos bancos de areia, cercados de corais. Parados, prestando atenção nos praticantes de evasão de privacidade (essa é do Tutty Vasquez) que exibem sua anêmica minúscula burguesia nas redes sociais do gênero “estou tão feliz nessa foto, tão feliz que se me assoprar eu caio no chão e choro”. 
Ahhhh, o blefe das redes sociais. Ahhhh, o blefe das redes. Ahhhh, o blefe das sociedades. Ahhh, o blefe crônico da humanidade.

Submergir faz bem a saúde. Mesmo quando o oponente lança bombas de profundidade que fazem nosso casco mugir como o touro do Apocalipse.

Quem sabe submergir se esconde nas montanhas de pedra submarinas. Pouca luz, nenhum som, motores desligados. Esperar a tormenta passar. Um, 12, 30, 600 dias. Submarinos atômicos. Autonomia. Falo de nós, longa autonomia. Falo da sociedade, aguda dependência.

As batalhas navais ensinam que diante do bombardeio os submarinos submergem e que as galinhas morrem por cacarejarem depois do ovo. Não é o caso do bicho-preguiça mergulhado em seu mutismo, espatifado até por skate. 
Não fala, mas não corre.

Correr ou falar?

Opção?

Sem dúvida a terceira.

Submergir.

Ou: em dia de temporal de faca não se senta na janela.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Celacanto Provoca Maremoto

                                                                    Ele começou
                                                                O Rio gostou
                                                                 Celacanto existe

Quarenta anos depois, ano passado descobri o mistério daquele saudoso grafite que tomou conta do Rio, do país, mundo afora. Li, com satisfação, esse artigo de Cris K que revela o autor da proeza. O colega jornalista Carlos Alberto Teixeira, o C@T. Em tempo: celacanto existe. É um peixe que vive nas profundezas abissais. Agora, vamos ao artigo revelador:

Em 1977, um estranho e intrigante grafite começou a aparecer aqui e ali nos muros de Ipanema, no Rio de Janeiro: CELACANTO PROVOCA MAREMOTO. Com o passar do tempo, foi pipocando em outros lugares e, do Rio, chegou à América do Norte e Europa. Mas até hoje seu significado e propósito continuam um mistério.

Entretanto, tal assunto não será mais um mistério para os nossos leitores. O autor do CELACANTO PROVOCA MAREMOTO é o jornalista carioca Carlos Alberto Teixeira(C@T).

A origem de tudo passa pelo seriado chamado National Kid, exibido na década de 60, propaganda dos produtos National, que depois virou Panasonic. Um dos episódios era sobre os seres abissais, e um deles era o peixe chamado celacanto.

Num dado momento, o Dr. Sanada, que era um dos personagens maléficos, dizia: “CELACANTO PROVOCA MAREMOTO”. E não provocava nada, quem provocava era um submarino chamado Guilton, que tinha uma boca com uma lâmina dentro, uma viagem completa.

Este negócio ficou na cabeça de Carlos até 1977, quando ele bolou no caderno um grafismo de "CELACANTO PROVOCA MAREMOTO" circundado por uma moldura com uma seta, que caía em uma gota com dois tracinhos ao lado, mostrando que ela estava "tremendo":

Aquele era apenas o início. O próprio Carlos conta como a brincadeira foi crescendo e como ficou famosa a ponto de aparecer em noticiários da época:

- Um dia, após a aula, peguei giz e enchi a sala com tal representação. Era na parede, era no quadro-negro, era no chão, no teto, enfim, enchi a sala de aula e aquele negócio virou um símbolo. Na época eu tinha 17 anos, e fazia esse grafismo com giz em tapume de obra, o que gerava um contraste legal do giz branco com a madeira de coloração escura. Depois, comecei a comprar Pilot (caneta hidrocor, conhecida como pincel atômico). Ensinei alguns amigos a fazer a pichação CELACANTO PROVOCA MAREMOTO, pois havia um estilo que indicava que era eu quem estava fazendo, e não uma mera cópia (havia gente que copiava e dava para perceber que não eram da minha linhagem).

O grande salto foi usar spray e aí começou a se formar uma equipe que chegou a totalizar 25 pessoas, com gente pichando até em Washington e em Paris. Como era um trabalho que a gente fazia na madrugada, havia muita pichação na zona sul do Rio, em Ipanema, Leblon e Copacabana. Por ser uma região de gente muito cabeça, as pessoas começaram a perguntar: Ah, Celacanto, o que será isso?

Na mesma época, havia uma outra pichação, o Lerfá Mu, uma coisa de maconha. Tanto eu quanto esse Lerfá Mu estudávamos na PUC do Rio, e começamos uma batalha nos banheiros, que ficavam totalmente rabiscados: eu ofendendo o Lerfá Mu, ele respondendo... Até que um dia surgiram outros pichadores na área do Jardim Botânico e Leblon lutando contra o Celacanto e o Lerfá Mu, o que ocasionou uma aliança entre nós dois. Nos banheiros da PUC marcamos um encontro numa esquina de Copacabana. Para nos reconhecermos mutuamente, deveríamos ir com um chapéu ou com uma vassoura um guarda-chuva. Eu fui de chapéu e ele de vassoura guarda-chuva; nos reconhecemos e nos abraçamos e tal. Há alguns anos, soube que o Guilherme - autor do Lerfá Mu - faleceu de cirrose hepática.

A imprensa começou a investigar as pichações, afirmando que o CELACANTO era um código de encontro entre traficantes, imagina. Outros afirmavam que eram mensagens de extraterrestres, pois naquele tempo, e até hoje, é difícil encontrar uma pichação que seja uma frase, e ali havia um período completo, sujeito, verbo e objeto. Geralmente o cara botava o nome, ou um grafismo só, ou uma sigla, e essa frase, justamente por ser uma oração completa, despertava a curiosidade das pessoas.

Com a intensa especulação dos repórteres sobre "o que será?", "quem será", o então prefeito da cidade, o falecido Marcos Tamoio, instituiu uma multa exorbitante para aqueles que fossem apanhados pichando. Os moradores da Tijuca pegaram um dos pichadores que tinha um dos grafites mais lindos, o Megalodon (com o desenho de um tubarão), encheram o cara de porrada, deixaram-no de cueca e picharam-no todinho, largando o rapaz do meio da rua.

Meu pai trabalhava no Jornal do Brasil e uma das repórteres procurava descobrir que era o Celacanto. Meu pai chegou pra mim e disse: Carlos, não é uma hora boa para você aparecer? Aí você passa a ser domínio público, é visto como uma figura interessante e, quem sabe, escapa dessa multa, caso te peguem numa dessas aí de noite. Os meus pais sempre foram contra essa história de pichação, ficavam preocupados, mas eu fazia mesmo, não tinha jeito. Resultado: Topei, a repórter foi lá em casa, tirou fotos e publicou uma entrevista com meu nome, idade, o que eu fazia (na época eu cursava Física) e tudo o mais. Então eu saía na rua e era reconhecido, olha lá o Celacanto e o meu ego explodia... Pichei mais um tempo e aí fui diminuindo, pois precisava começar a ter que estudar mais para a faculdade (que era uma dureza) até que terminei abandonando o grafite.

Uns dez anos depois, recebi um telefonema:

- É você o Carlos Alberto Teixeira?

- Sim, sou eu mesmo.

- O autor do Celacanto?

- Exatamente.

- Ah, nós precisamos da sua ajuda.

- O que que foi?

- Precisamos que você faça o grafite de um cenário do programa da Angélica, na TV Manchete.

- Olha, eu faço, o preço é tanto...

Eu dei um preço exorbitante, os caras toparam, pedi um monte de material e eles me pegaram em casa numa tarde de sábado, me levando para uma estação de trem em Niterói. Ó, é aqui, você pode pichar à vontade. Fiquei pichando lá até a madrugada, uma beleza, tenho até fotos disso, e acabei ganhando dinheiro como artista plástico. Tenho o recibo lá em casa até hoje, "Carlos Alberto Teixeira, artista plástico", graças ao CELACANTO PROVOCA MAREMOTO.

Aí começaram a surgir pessoas dizendo ah, eu inventei o Celacanto. Eu ficava olhando pra pessoa e dizia "escuta, inventou nada, quem inventou fui eu", e os caras diziam "ah, desculpa, eu não sabia". Encontrei uns três caras afirmando que criaram o Celacanto e eu ia lá para conferir e os desmascarava, já que eles não tinham argumentos: "criou onde?", "desde quando?", "onde surgiu?" e ninguém sabia.

Eu pichava só tapume e parede. Jamais pichei pedra, monumento ou árvore. Eu só pegava lugares escolhidos a dedo, como na "saída" de curvas, por exemplo: quando o cara saía da curva de São Conrado, lá na Barra, dava de cara com uma casa onde tinha a inscrição do Celacanto bem no centro, o que causava uma impressão boa. Agora, qual o motivo disso aí? No meu caso, eu acho que sempre tive uma ânsia por comunicação, por passar uma mensagem, e o Celacanto foi isso, foi algo tão bem feito na época que ficou famoso e não tem ninguém do pessoal da década de 70, da zona sul do Rio, que não se lembre do "CELACANTO PROVOCA MAREMOTO".


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Alguém aí entende de podcast?


Estou pensando em fazer uma série de podcats curtos, com no máximo 10 minutos de duração (incluindo música) contando histórias e estórias de clássicos do rock.

Posso contar a história de um disco, de uma música, de uma turnê, só não garanto narrar a biografia de artistas porque iriam durar um século. Por exemplo, como falar do Zeppelin, ELP e U2 em 10 minutos?

O problema é que ainda não sei divulgar podcasts. Eu uso, por exemplo, o Podomatic. Como divulgar maciçamente, atrair as pessoas que querem ouvir boas e até engraçadas histórias/estórias de clássicos do rock?

Agradeço quem puder me enviar um passo a passo.