sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Novo e explosivo álbum de Lobão, com releituras de clássicos dos 80, chega as lojas em CD, vinil e pendrive



Fiquei de avisar os leitores, mas o corre não corre do dia não dia me fez abstrair. Mas, vamos lá.

"Antologia politicamente incorreta dos anos 80 pelo rock” – inspirado pelo quase homônimo último livro do artista carioca, Guia politicamente incorreto dos anos 80 pelo rock chegou a todas as lojas em CD, vinil e pendrive.

É o primeiro álbum não 100% autoral de Lobão, mas como (na minha opinião) ele sempre foi o número um do rock oitentista, noventista e daí em diante, fez a melhor versão de clássicos da época. Ouso (?) afirmar que é o melhor disco de rock brasileiro lançado nos últimos 40 anos. O anterior, “O rigor e a misericórdia (2016)”, álbum gravado de forma solitária pelo cantor, compositor e músico, nos trouxe a certeza de que, também como letrista, o grande Lobo se supera.

"Antologia politicamente incorreta dos anos 80 pelo rock” foi gravada ao longo de meses em estúdio com a banda Os Eremitas da Montanha, formada pelo guitarrista Christian Dias, Armando Cardoso (bateria), Augusto Passos (baixo e voz), Christian Dias (guitarra) e Felipe Faraco (teclados)."

Outra qualidade de Lobão é o destemor ao exagero, é estraçalhar vidraças como peso, volume. Com ele não tem bateria Premier tocada com vassourinha. No álbum, as 24 músicas estão dispostas em ordem cronológica e trazem uma cara mais escancarada e distorcida às canções gravadas originalmente entre 1980 e 1989 por colegas de geração de Lobão. No pop sofisticado de Guilherme Arantes, ou no punk desesperado dos Inocentes.

Do mestre Lobão nunca esperei chumbo fino e no caso deste trabalho quase fui parar no teto quando comecei a ouvir. Há muitos e muitos e muitos e muitos e muitos anos não ouço rock brasileiro tão autêntico, visceral, competente. Não dá para ouvir baixinho, tem que descabelar vizinho, abafar o som enlouquecedor do bando de makitas que, aos berros, serram mármore, saúde e civilidade.

Há tempos, Lobão tacou fogo naquele velho conceito de “guitarras econômicas” e, econômicas é o cacete!, mandou ver. Sozinho e com uma superbanda, ele não economiza nada e chuta longe qualquer sintoma de nostalgia. O álbum é banhado de autenticidade, guitarras lancinantes, baterias cheias de referências como, por exemplo, a de John Bonham do Zeppelin. Impressionante.

Lobão conversou comigo. Leia:

“O projeto desse disco começou logo após finalizar o livro "Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 Pelo Rock" e é evidente ser seu complemento.

E não tem a mínima intenção em seu conceito de ser um disco de nostalgia ou coisa parecida. Muito pelo contrário. Nosso foco é mostrar a pertinência, a criatividade, a contemporaneidade, a excelência das canções e concluir que o Rock prossegue incólume como o gênero mais moderno, audacioso, independente que nós temos aqui no Brasil.

Para isso, a produção desse disco, com seus arranjos, a execução, interpretação, mixagem, tudo está direcionado para mostrar ao ouvinte toda a beleza, a fúria, o amor e a criatividade de um punhado das mais intensas canções que povoam o cancioneiro da música popular brasileira.

Um momento para se refletir como um gênero tão repudiado pela intelligentsia e (por aquilo que optei chamar por totalitarismo cultural) conseguiu se impor, produzir e se firmar como um dos períodos mais profícuos da nossa música.

E como ele está vívido, pulsante, repleto de frescor e rebeldia. Tudo o que o cenário musical brasileiro, há muito, deixou de possuir. Portanto, o disco pretende devolver o Rock ao lugar que ele sempre deveria estar. Na vanguarda da música brasileira.”

Toquei em algumas faixas (“Vida Bandida”, “Planeta Água” e “Quase um Segundo” e gravei todos os instrumentos). Em “Vítima do Amor” gravei guitarras, violões, baixo e órgão, assim como em “Leve Desespero”, “Virgem”, “Esfinge de Estilhaços” e “Certas Coisas”.

Há faixas em que não toco nada: “Eu não matei Joana Darc” (guitarras de Cristian e participação especial de Luiz Carlini), “Dias de Luta”, “O Tempo Não Para” e “Nós Vamos Invadir Sua Praia (com comparticipação especial de Roger Moreira).

Já em outras toquei todas as guitarras como “Núcleo Base” e “Primeiros Erros”. No restante toco parte das guitarras e o Chris a outra. Assino a produção.”
O álbum foi gravado em parte no estúdio caseiro do Lobo em São Paulo (“Vida Bandida” e “Planeta Água” foram gravadas mixadas e masterizadas em sua casa) e também algumas vozes (“O Tempo Não Para” e instrumentos como em “Leve Desespero”, “Vítima do Amor”, “Esfinge de Estilhaços”, “Lanterna dos Afogados”.

O restante foi gravado no estúdio da Trama, também em São Paulo, entre agosto e setembro de 2017. O disco foi remixado e remasterizado uma vez que a mix e a master originais ficaram bem abaixo do razoável. Lobão conta que “foi um grande transtorno, motivo do grande atraso do lançamento e muito dinheiro jogado no lixo com esses dois malfadados empreendimentos. Tivemos que remixar e remasterizar tudo aqui em casa entre janeiro  e fevereiro deste ano junto com Diovainne Moreira, nosso técnico de som e mix desde o disco de 2016, “O Rigor e a Misericórdia”.

Faixas do álbum:

Disco 1

1. Ôrra meu (Rita Lee, 1980)
2. Planeta água (Guilherme Arantes, 1981)
3. Vítima do amor (Evandro Mesquita, 1982)
4. Nosso louco amor (Júlio Barroso e Herman Torres, 1983)
5. Certas coisas (Lulu Santos e Nelson Motta, 1984)
6. Eu não matei Joana D'Arc (Marcelo Nova e Gustavo Mullen, 1984)
7. Geração Coca-Cola (Renato Russo, 1985)
8. Leve desespero (Fê Lemos, Flávio Lemos, Dinho Ouro Preto e Loro Jones, 1985)
9. Louras geladas (Paulo Ricardo e Luiz Schiavon, 1985)
10. Primeiros erros (Chove) (Kiko Zambianchi, 1985)
11. Nós vamos invadir sua praia (Roger Moreira, 1985)
12. Núcleo base (Edgard Scandurra, 1985)

Disco 2

1. Até quando esperar (Philippe Seabra, Gutge e André X, 1986)
2. Dias de luta (Edgard Scandurra, 1986)
3. Toda forma de poder (Humberto Gessinger, 1986)
4. Pânico em SP (Clemente Nascimento, 1986)
5. Eu sei (Renato Russo, 1987)
6. Virgem (Marina Lima e Antonio Cícero, 1987)
7. Esfinge de estilhaços (Lobão, 1988)
8. Quase um segundo (Herbert Vianna, 1988)
9. Somos quem podemos ser (Humberto Gessinger, 1988)
10. O tempo não para (Arnaldo Brandão e Cazuza, 1988)
11. Lanterna dos afogados (Herbert Vianna, 1989)
12. Azul e amarelo (Lobão, Cazuza e Cartola, 1989)




quinta-feira, 18 de outubro de 2018

In my Life

                                                                     
                                               Em Minha Vida
                                           (Lennon & McCartney)

Há lugares que vou lembrar por toda a minha vida
Embora alguns tenham mudado
Alguns para sempre, não para melhor
Alguns já nem existem, e outros permanecem

Todos esses lugares tiveram seus momentos
Com amores e amigos dos quais ainda posso me lembrar
Alguns estão mortos, e outros ainda vivem
Em minha vida, eu amei todos eles

Mas de todos esses amigos e amores
Não há ninguém que se compare a você
E essas memórias perdem o sentido
Quando eu penso em amor como uma coisa nova

Embora eu saiba que nunca vou perder o afeto
Por pessoas e coisas que vieram antes
Eu sei que, com frequência, eu vou parar e pensar nelas
Em minha vida, eu amo mais você

Embora eu saiba que nunca vou perder o afeto
Por pessoas e coisas que vieram antes
Eu sei que, com frequência, eu vou parar e pensar nelas
Em minha vida, eu amo mais você
Em minha vida, eu amo mais você

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Uma praga chamada Makita

     
                                                                                         Ela, a besta
Makita é uma marca. Fábrica japonesa de ferramentas elétricas. Makita produz uma serra que corta mármore, porcelana, superfícies muito duras e dizem que é usada até por casais sadomasos em suas intimidades. Transformada em praga urbana por causa do barulho infernal, ela também serra fora o saco de milhares de pessoas, serra também os tímpanos, a cabeça e conduz humanos a insanidade do mandril.

Houve um tempo em que a praga das cidades eram os pardais piando, fazendo coco em cima da gente, mas como acabaram com as árvores os pobres pardais sumiram. Outra parte foi exterminada pelo fumacê, máquina de soltar fumaça que as lendas diziam que matavam o mosquito da dengue, mas pelo visto acabaram atraindo mais dengue e zika, chicungunha, febre amarela, sarampo, catapora, enfim, o Brasil vive uma era de saúde pública vintage. Tudo o que Oswaldo Cruz fez a partir de 1900 para acabar com as pestes e epidemias tropicais (ele quase foi linchado por isso), os governos recentes trouxeram de volta, graças a criativa dupla corrupção e incompetência.

Sem pardais, raros bentevis, a makita impera, ao lado dos maus motoboys que serram (com makita) os silenciosos de seus jegues de aço aproveitando a ausência de governo em todos os níveis. Aceleram aquela bosta e haja ouvido para pedestres, passageiros de ônibus, ciclistas.

As makitas só rivalizam no quesito barulheira com os pobres dos cachorros, cujos donos saem de manhã, os deixam sozinhos nos apartamentos latindo o dia todo. Em muitos casos, dia e noite, atormentando geral. Aqui perto tem um, recentemente jurado de morte por um homem que, com filhos gêmeos recém nascidos em casa, não conseguia faze-los parar de chorar quando acordavam por causa dos latidos. Do cachorro, não do pai enfurecido. Ninguém dormia.

Um dia ele foi a luta, andou pelas ruas, calçadas procurando onde estava o canino, mas a acústica dos prédios de 20, 25 andares não deixa você localizar nada. Se alguém grita “ô, viado!” o cara fica sem saber de onde veio o berro o resto da vida”. O pai de gêmeos queria achar e obrigar o dono a dar um jeito, “nem que eu tenha que arrebentar ele, o cachorro, a casa toda”. A turma do “deixa pra lá meu chapa” tentou jogar água, “para com isso, você tem dois filhos pra criar”, mas ele parecia decidido. “Sabem há quanto tempo vivo esse inferno? Seis meses! Da manhã a noite porque trabalho em casa. Coloquem-se no meu lugar”. Ninguém quis se colocar.

Trabalhadores da construção civil começam cedo. As oito da manhã as makitas já estão cantando. Duas no meu prédio (o som vem pelas paredes), duas no prédio de trás, uma mais a direita um pouco longe e uma outra. Quando uma para, a outra dispara. Um dia desses subi e fui conversar com o sujeito. Toquei a campainha 18 vezes (ele não ouvia) e quando abriu a porta parecia uma múmia, envolto em poeira de mármore da cabeça aos pés. Reclamei e ele, educadamente perguntou “o senhor acha que eu gosto? O barulho vem dentro de mim e eu ainda respiro esse pó que gruda no cabelo e no corpo todo”. Avisei, falando a verdade. “Makita mata, meu chapa. Pior que cheirinho da loló misturado com Bardhall, Tylenol, Bozzano e cocaína”. Não sei o que aconteceu, mas ele sumiu. Quer dizer, sumiu do apartamento para trabalhar ali embaixo, se juntou as outras makitas.

O inferno só piora. Os makiteiros viraram um exército enlouquecendo as pessoas. Soube que está rolando um abaixo assinado para proibir essa máquina infernal mas eu não vi nenhum fundamento jurídico, apesar de não entender bicas de direito. Estava até escrevendo uma ficção aqui para coluna chamada “O exterminador de Contadores”, uma doce homenagem, mas as makitas me transtornaram tanto que desviaram os tiros.

O que fazer? Pardal, OK. Bentevi, OK, Cachorros neuróticos, hiperativos, OK. Mas makita, não. Pensei em fazer um adesivo, “#elanão”, mas acho que não é o momento indicado. Caso haja erro neste texto peço que vocês relevem. É o último que escrevi durante o dia. Agora volto a escrever a noite/madrugada porque estou sitiado pelas makitas, motos, auto falantes de kombis vendendo ferro velho, buzinaria de carros....

Como cantou Jards Macalaé, “estou cansado/ e você também/ vou sair sem abrir a porta/ e não voltar nunca mais...”. Se essa música, a bela “Movimento dos Barcos”, não fosse de 1972 eu diria que ele se inspirou numa japonesa sádica dessas.

Só Odara aguenta.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Com supervisão de Amir Haddad, Betina Kopp estreia o solo "Beco" no Teatro da UFF, Niterói

                                  A artista reúne poesia, projeções, dança e música eletrônica no espetáculo  
                               Por Guilherme Scarpa, Dobbs Scarpa Assessoria de Comunicação
                                                       Betina Kopp, foto de Alexandre Grand

"Betina é uma menina bailarina, que vira serpentina e purpurina. É feminina, tem retina e vagina, escorrega como vaselina e incendeia como gasolina". Tal qual a forma como se coloca em sua própria poesia, a atriz e poeta Betina Kopp leva agora para o palco suas feminices e toda a sua pluralidade. O espetáculo "Beco", que gerou há quase dois anos um livro homônimo, estreia agora em outubro no Teatro da UFF, em Niterói, e reúne as obras mais emblemáticas da artista. 

Betina, que há 10 anos interpreta sua própria poesia e também a de autores consagrados pelos quatro cantos do mundo, une a experiência a projeções multimídia como cenário, dramaturgia e música eletrônica, a fim de conectar palavra, movimento e frequências. 

Com supervisão do mestre Amir Haddad e direção de Adressa Koetz, o solo amplifica questões da nossa contemporaneidade, caras não só para a artista, como o público em geral. "Falo do coração, desse percurso que contrai e expande. Falo das minhas inquietações, angústias cotidianas, realizações, a autoanálise, carências, prazeres. É muito feminino", descreve Betina.

Entre os poemas que estão no roteiro, ela destaca um dos mais recentes que escreveu, "Mulher Cavala", transformado em um batidão para o espetáculo. "Ninguém segura mais as mulheres. Não tenho medo do enfrentamento. É dar a cara a tapa. A 'Mulher Cavala' significa o pé na porta, cavalgar mesmo. Ela quer amar, ser livre, leve e compreendida, mas também quer ser pega, é uma troca: dominar e ser dominada", explica. 

A potente performance da artista, que a tornou singular entre os poetas contemporâneos, é descrita pelo escritor Tavinho Paes como "rascante". "Quando ela entra em cena e a atriz dá lugar à poeta, que trata as palavras como uma mãe amamentando e ninando um bebê, uma coisa fica absolutamente transparente: essa garota tem estilo e este estilo, além de suficiente para identificá-la onde quer que esteja se apresentando, seguramente é de uma originalidade à toda prova", avalia ele.

Para a diretora Adressa Koetz, o espetáculo Beco vai emocionar e também divertir. "O Amir (Haddad) está bem satisfeito com a nossa condução, que é uma grande parceria. Este trabalho é muito autoral, então me vejo como uma facilitadora. É mais lapidar, provocar, conduzir para chegarmos no melhor da Betina, que quem já conhece curte muito. É envolvente", conta Adressa. 

Sobre Betina

A atriz e poeta nasceu em Niterói, é formada na Casa da Artes de Laranjeiras (CAL), apresentou o programa Sensacionalista no canal Multishow. Atuou em novelas e programas da Rede Globo, Canal Brasil e TV Futura. No teatro, destacam-se “Diálogos com Lorca” dirigida por Lu Grimaldi, “Vão Paraíso” e “Escola de Molières” dirigida por Amir Haddad. Criou as performances Corpinturadas, Poesia Que Para (PQP), Poesia Para Degustar e Poiesis. Integra o coletivo Voluntários da Pátria, que já levou música e poesia para jovens de treze estados do país. 

Serviço:

17 e 18, 24 e 25 de outubro de 2018

Quartas e quintas – 20h

Teatro da UFF

Rua Miguel de Frias, 9, Icaraí – Niterói/RJ

Ingressos: R$ 20 | R$ 10 (meia)

Classificação etária: 14 anos



O show de Nick Cave em São Paulo; relato do monumental Mauricio Valladares

Mauricio Valladares, produtor e apresentador de rádio, fotógrafo e DJ
criador do conceituado site www.roncaronca.com.br. Produz e apresenta
a edição de terças-feiras de "Em Cartaz", as 23 horas na Rádio
Globo FM.

clique avassalador de professor vidigas, THE butcher em candangolândia!

mas a situation é a seguinte, imagina você numa partida de futiba onde um dos times em campo terá como linha atacante: garrincha, puskas, van basten, maradona e edmundo… isso, massive attack com CINCO monstros para enfeitiçar seus olhos, arrancar sua língua pela orelha, para te levar ao prazer incomum. captou?

pois bem, transporte tudinho para um local abarrotado por uns sete mil espíritos em sintonia total com um palco habitado por jim, nick, george, warren, martyn, david e larry… percebeu?

foi isso que aconteceu, ontem, no espaço das américas (SP) na volta de nick cave & the bad seeds ao brasa, quase trinta anos depois… grosseria em dose industrial apoiada por repertório barra pesada e performance como poucas vezes temos a chance de testemunhar.

tendo as gavetas do roNca como referência, acho que a entrega de nick ao seu ofício no palco pode ser comparada ao desejo incontrolável de bruce springsteen em fazer amor com sua (dele) platéia… PQP, fueda!

já comentamos como o recente percurso de nick cave na música é algo sem muitos precedentes… de como ele superou tudo, de como conseguiu enfiar uma criação sônica foreta da massificação nas mentes de zilhões de novos ouvintes.

a audiência de ontem estava 1000% inserida na música das sementes… para mim, foi surpreendente a quantidade de gente cantando todas as músicas, palavra por palavra. o show levou por volta de duas horas e quarenta minutos, na maioria do tempo, eu tive pertinho (à esquerda) uma menina muito jovem (com a namorada) que chorou em várias canções, se requebrou, urrou, pulou e se despediu com o rosto de felicidade plena… à direita, um pouco mais distante, tinha uma outra, sozinha… cacilds, ela cantou TODAS as músicas, quietinha, paradinha, mergulhada na mais profunda parte da piscina… D+

no que entrei, hoje, no asa dura, de volta pro rio, quem passa por mim no corredor?

– hey, foi você que cantou todas as músicas de nick cave?

– hahaha… eu mesmo. adoro muito. sei tudo

“from her to eternity”, “jubilee street”, “tupelo”, “the mercy seat”, “red right hand”, “stagger lee” e a surpresa, na marra, de “jack the ripper” ficarão séculos e séculos ecoando pela minha existência… D+D+D+D+D+D+D+D+D+D+D+D+

sabe a sensação das coisas serem positivas? do mundo andar pra frente?

mas nem tudo foram flores no espaço das américas… pela primeira vez em sua vidinha, a coitada da xeretinha foi confiscada pela produção de um show (produção nick cave). até agora não entendi direito como aconteceu o fato e, na boa, prefiro não compreender o que levou a coitadinha da xerê a passar quase três horas isolada do mundo… parece piada mas é pura realidade… pelo andar da carrocinha rolou um mal entendido fuderoso envolvendo o credenciamento de fotógrafos com a produça do show (nick cave) que determinou que os retratistas teriam suas MEGA máquinas confiscadas após a única música autorizada a ser clicada e que, depois do árduo trabalho (!), seriam enxotados para as laterais do palco (na platéia) e ali ficariam, isolados (acredite!) até recuperarem suas ferramentas… hahahahahaha, que comédia.

ao saber desse mal estar, simplemente, comentei: “muito obrigado pela credencial mas eu não estou aqui apenas para fotografar. paguei o ingresso para me divertir vendo o show onde bem quiser e com quem quiser. portanto, não me interessa registrar uma música apenas (a primeira do show)… e se vocês estão proibindo a documentação profissional do show, fiquem sabendo que a pobrezinha da xerê está mil furos abaixo de 99% dos celulares aqui dentro”

nesse momento, brotou uma eficiente e simpática funcionária do espaço das américas super disposta a atenuar a nhaca… e conseguiu.

enfim, fui obrigado a me separar da chorosa xerê que soluçava: “nunca aconteceu isso com a gente”… e respondi: “meu amor, ja que estamos em são paulo, pense no ensinamento do grande boça – puta mundo injusto, meu”.

mas já está tudo certo… disse pra ela que nada irá substituir os cliques que deixamos de fazer mas que, entre mortos e feridos, esse 14 de outubro mostrou como não podemos viver separados

                                                  L O V E

                                                       ( :

                                           segura a viagem…

  1. Jesus Alone
  2. Magneto
  3. Higgs Boson Blues
  4. Do You Love Me?
  5. From Her to Eternity
  6. Loverman
  7. Red Right Hand
  8. The Ship Song
  9. Into My Arms
(Introduced as “a prayer to Brazil”)

  1. Shoot Me Down
  2. Girl in Amber
  3. Tupelo
  4. Jubilee Street
  5. The Weeping Song
(Nick walked in the crowd)
  1. Stagger Lee
(Audience members invited to the stage)
  1. Push the Sky Away
(Audience members on stage)
  1. Encore:

  2. City of Refuge
  3. The Mercy Seat
  4. Jack the Ripper
(First time played in 2018)

  1. Rings of Saturn
Note: Original setlist included Skeleton Key, Mermaids and Distant Sky as optional songs, as well as Jack the Ripper, which was played. Foi Na Cruz was attempted, but Nick Cave couldn’t remember the lyrics.


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Obscuro objeto do desejo


Minha paixão por motocicletas não tem explicação, mas ela brotou como peiote nos desertos do México, logo que fui proibido de andar num ciclomotor de um amigo. A marca era Velosolex.

A preocupação dos meus pais fazia sentido por causa da minha irresponsabilidade em insanas acrobacias de bicicleta - com direito a visitas hospitalares com relativa frequência - aliada a uma suspeita de déficit de atenção. Soma-se a isso a fama de maluco que alguns vizinhos tentaram me jogar nas costas pelo conjunto da obra, especialmente o volume e o tipo de música que ouvia.

Proibida para mim como muitos filmes, músicas, livros, peças de teatro para todo mundo (era ditadura, etc) pouco a pouco a motocicleta foi se transformando em meu obscuro objeto do desejo, aqui uma homenagem inconsciente a Buñuel. A motocicleta tornou-se desejo tórrido, curiosidade vã pelo proibido como buraco da fechadura, casas de ópio, Carlos Zéfiro, mescalina de Dom Juan, personagem de Carlos Castaneda.

A medida em que fui voando mais e mais nos ciclomotores emprestados, um amigo de outro bairro ganhou uma Yamaha 125 zero KM, azul, na época importada do Japão (estamos em 70 e tal). Poucos anos depois ele bateu com a moto e partiu. Foi horrível.

Quando vi aquela Yamaha, o desejo me deu um solavanco. Queria voar naquela obra de arte da época, a qualquer preço. Tanto que propus um aluguel. Eu andaria duas horas em troca de um tanque de gasolina (uns 10 litros) e ó óleo da mistura do nervoso motor de dois tempos. O cara topou. Eu já colaborava para um jornal local que me rendia uma graninha razoável, que botei toda no estranho aluguel.

Sem lenço, documentos, capacete, de bermudas, menor de idade, senti coisas inconfessáveis montado naquela 125 (na época, o must) que voava baixo e, defeito maior, tinha um péssimo freio. Já havia lido que aquele modelo não era confiável, “meio vadia”, me disse um mecânico, mas eu relevei. Relevei até um mês depois, num fim de tarde quando saltava com ela sobre um pequeno morrote lá em Ponta Negra. Sem mais nem menos, a moto resolveu não freiar, rodou, embicou para um matagal e desabou num canal. Rolei para um matagal ao lado, sensação de pânico, sentindo que estava sendo esfolado.

Permaneci alguns segundos deitado, olhos abertos, pensando nas coisas de sempre: será que morri? Será que me arrebentei todo? E a moto, como estará?Levantei e manquei forte. A perna direita estava com um lanho de sangue, o braço direito também, raspão na testa, o que vulgarmente é conhecido como “escoriações generalizadas”. Mancando, fui ver a moto, emborcada no canal. Tanque arranhado, um amassado forte no paralama dianteiro e outros detalhes que só percebi depois.

Parou um carro na estrada. Polícia. Pediram os documentos da moto (zero), minha carteira de habilitação (zero), identidade (mostrei a carteira do colégio), eles gentilmente (não é deboche) me levaram até um pronto socorro (hoje rebatizado de pronto atendimento) onde fiz os curativos (um outro policial levava a moto) e depois me convidaram para ir a delegacia. Pediram o telefone de casa, para avisar a meus pais ou responsáveis. Descolori. Dei o telefone mas o policial não ligou, só me dava esporros em sequência.

Confesso que meu maior temor não era ir em cana e nem de causar aquela enorme decepção caso meus pais realmente fossem convocados para ir lá. O meu maior temor era a possibilidade de levar uma multa porque desde a tenra idade tenho horror de dar qualquer grana para o governo, da forma que for, uma pregação constante de meu avô, sócio do clube “se é governo, sou contra”, que me impregnou. Hoje piorou.

Depois da lição de moral e cívica, o policial resolveu me liberar e o mesmo sujeito que havia levado a moto para a delegacia a conduziria até a estrada, RJ – 106. Lá eu deveria subir na Yamaha e sumir.

Continua outro dia porque está grande demais.

domingo, 14 de outubro de 2018

Se eu fosse consultado - Carlos Drummond de Andrade

Crônica publicada no Jornal do Brasil
em 15 de abril de 1977
Fotos de Rogério Reis, feitas na casa de Drummond
                                    
       

Se me dessem a honra de ouvir-me sobre as reformas políticas, eu recomendaria uma ideia bem mais revolucionária do que as da própria Revolução. E muito mais salutar: a eleição integral, em que todos os brasileiros, mas todos, sem exceção das crianças, hoje tão sabidas, escolhessem seus representantes e dirigente, sob a forma de voto mental absoluto, sem papagaiadas formalísticas.

Os mandatos teriam a duração exemplar de 24 horas, o que eliminaria angústias e infartos, e poderiam ser, não digo cassados, pois julgo a expressão extremamente antipática, mas revogados, caso no fluir dos minutos o eleitor achasse que fizera má escolha. Em compensação, poderiam ser renovados na manhã seguinte e nas outras manhãs, sempre que o eleitor se mantivesse contente com os mandatários e não quisesse experimentar outros. Desta maneira teríamos a cada sol, ou a cada dia de chuva, governo e representação popular novos, que, se fossem ótimos, poderiam ser confirmados quando o galo cantasse outra vez (o galo ou a serraria do bairro), e, caso não dessem no couro, teriam feito o menor mal possível à mente do seu eleitor.

Já sei que impugnariam o meu projeto, apontando-lhe mil inconvenientes, entre os quais o de provocar a anarquia governamental e legislativa, pois não haveria um só presidente, e sim talvez milhões,  dada a tendência de muito eleitor a votar em si mesmo, o que se repetiria para a eleição para governadores, senadores, deputados, prefeitos e vereadores. Podendo até dar-se o caso de um mesmo indivíduo eleger-se simultaneamente para todas essas funções. Como governar, como elaborar leis desta maneira?

Bem, eu já previa esta objeção principal, como tantas outras, e afirmo que a explanação da ideia fará com que ela rutile em seu justo e convincente esplendor. Os órgãos políticos assim constituídos não trariam a menor perturbação à vida do país. Pelo contrário, só poderiam ofertar-lhe benefícios, pela soma de boas influências de cada eleito, no ânimo de seu respectivo eleitor. 
A democracia funcionando dentro de nós, com eficácia, e não supostamente do lado de fora, sujeita a esbarrões e desvios. Nisso consiste a beleza do meu sistema. 

Eu, por exemplo, me daria o prazer, ou o privilégio, de ser governado em 1° de janeiro por mestre Alceu Amoroso Lima. Para renovação da alegria, meu presidente no dia 2 seria Maria Clara Machado (Que diabo, então mulher inteligente não pode assumir o posto?) Depois seria a vez de César Lates, Vinícius de Moraes, Paulo Duarte, Prudente de Morais, neto, essa folha-de-malva que se chama Henriqueta Lisboa, Aliomar Baleeiro, Luis da Camara Cascudo, Fayga Ostrower, Pedro Nava, Francisco Mignone, Enrico Bianco, Eliseth Cardoso, Orígenes Lessa, Fernanda Montenegro ... Tudo gente boa, de respeito. E de imaginação. Estes, e outros assim, os meus presidentes ao longo do ano. Meus vizinhos escolheriam os deles.

Ninguém brigando por motivo de ambição. Em santa paz, cada qual seria governado, orientado, instigado pela figura de sua dileção. Por serem de jurisdição limitada ao âmbito das pessoas que os elegessem, não colidiriam entre si tantos presidentes, situados na extensão infinita ( e mínima) de nossas preferências pessoais. Todos nós, eleitores, nos sentiríamos impelidos, na esfera individual, a fazer o melhor possível, sob esse comando abstrato. E vivendo e trabalhando cada um de nós ao influxo de tal regência moral, este seria um país que não precisaria criar calos nos pé e na alma para ir pra frente.

Bem, insistirão ainda os opositores: E quem governaria de fato o Brasil, quem faria leis para serem realmente executadas? Ora, pergunta vã. Se na prática tais poderes podem ser concentrados numa só pessoa, minha proposta consiste apenas em estender esta faculdade, no plano ideal, que também conta, a todos os integrantes da comunidade. Sem bulha nem ameaça à segurança nacional, e com plena consciência de todo mundo.