sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Ouvindo estrelas


A Nasa vai lançar neste sábado a sonda espacial Parker Solar Probe, que se aproximará do Sol como nenhuma outra. Ela decolará da plataforma de lançamento de Cabo Canaveral (Flórida, EUA) e viajará através da atmosfera do Sol, a "somente" 6,2 milhões de quilômetros da superfície solar, a uma distância "sete vezes mais próxima" do que qualquer outra nave. Vendo imagens da sonda e da beleza do universo, minha memória voltou lá atrás.

O cheiro do mar misturado ao do óleo dos navios arrancam minha comoção pelos poros. Cheiro de minha infância, vivida entre sabiás, coleiros e muitos navios de guerra. Muitos. Meu pai à bordo deles. Hélices misturando o aroma de maresia com óleo combustível, a prudente lentidão da vida na pequena vila e também no convés cinza chumbo da nau gigantesca.

Há uns anos, fui a praia de Itaipu a noite e, boiando, fiquei olhando para o céu, aproveitando a onda de paz interior que naquela época me invadiu. Saudade, muita saudade. Da onda e da paz interior. Avistei um satélite artificial cumprindo a sua missão, em órbita constante singrando a Via Láctea. A emoção me tomou de novo, reforçada pela trilha sonora suave das ondas pequenas e distantes, desabando na areia.

O céu, em maio, em pleno outono, com cinco anos de idade fui levado por meu pai para a praia da vila onde vivi a infância. Todas as pessoas com binóculos, lunetas e até um telescópio diziam estar avistando o Sputnik 4, satélite artificial russo.

Não entendi porque o Sputnik que vi nas fotos da revista não tinha nada a ver com aquele minúsculo ponto luminoso, menor do que todas as estrelas, do que todos os coleirinhos que cantavam no alto dos ingazeiros e que cortava rápido, bem rápido, o céu. O Sputnik das fotos não era um ponto, mas uma pequena esfera de metal. Eu vi.

Meu pai explicou. Falou da distância, da luz do sol incidindo na esfera, falou do céu, das estrelas, falou de novo dos satélites artificiais, do seu brilho fixo, oposto ao cintilar eterno das estrelas. Falou, falou, falou e recitou um poema. Olavo Bilac:

"Ora direis ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto

A via láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Não entendi nada sobre a incidência da luz, o tamanho do Sputnik, gravidade, força, mas ali, naquela noite de 15 de maio de 1960, meu pai me ensinou a ouvir estrelas e a perceber os aromas do mar.

E nunca mais esqueci.

Meu irmão também não.




sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O livro de Eli


O filme se chama “O livro de Eli”. É de 2010, dirigido por  Allen HughesAlbert Hughes, protagonizado pelo sempre brilhante Denzel Washington. Assisti três vezes, duas no cinema e essa semana na Netflix.

Sou cristão, acredito em Deus e sempre que vejo o filme vislumbro o poder infinito da fé. Leio um resumo: Trinta anos depois da guerra ter dizimado o mundo, um guerreiro solitário chamado Eli caminha por horizontes arruinados dando esperança aos que restaram. Um outro homem compreende o poder de um livro que Eli carrega e está determinado a se apoderar dele. Eli arriscará a vida para proteger a sua carga preciosa e cumprir o seu destino de ajudar a restaurar a humanidade.

A carga emocional do filme é vasta, mergulha nos restos insanos do planeta Terra depois do fim e apesar de estar caminhando há três décadas transportando o livro, enfrentando todas a adversidades e o que há de mais bizarro, Eli não abre mão de um passo sequer. Segue em frente, coberto por sua fé.

Não é um filme carola, ao contrário, há muitas cenas de violência justificada que cada vez mais valorizam a importância do livro de Eli, de sua determinação, sua fé, sua coragem e a certeza de que mesmo depois do fim resta uma esperança.

Vale a pena ser assistir.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Rio, uma cidade proscrita

A choradeira das empresas turísticas do Rio tem razão quando culpam a crise econômica pela baixíssima ocupação dos hotéis. Pelo menos 13 já fecharam e, por exemplo, o Copacabana Palace está com magros 38% de ocupação, de acordo com o Ancelmo Gois em sua coluna de hoje, no Globo.

Só que as imagens que são geradas do Rio hoje para o exterior envolvem matança, fuzis, guerra aberta, descontrole da segurança pública, tudo aliado a uma prefeitura nefasta que largou a cidade a baderna geral. Crivella está acabando com tudo: hospitais, escolas, organização mínima do trânsito, áreas que já foram cultuadas como o Boulevard Olímpico.

Não duvido que o setor turístico tenha sido devorado pela crise econômica, mas vejo que a guerra civil na cidade e no Estado do Rio é a principal vilã na baixa de visitantes. Afinal, quem iria passar férias em Damasco, na Síria, Iraque, Afeganistão, Paquistão, etc? Em se tratando de imagem, o Rio está no mesmo patamar já que todas as notícias de barbárie que são veiculadas em TVs daqui também são exibidas lá fora, como os ataques terroristas no Ceará, a batalha entre traficantes e milicianos no Rio, enfim, boa parte do Brasil está sob o jugo de grupos terroristas.

Mais do que da beleza, o turismo vive da segurança pública. O turista quer fotografar com segurança sem ter seu equipamento roubado, quer sair a noite sem ser depenado ou morto, quer ir e vir. O Rio se tornou inviável turisticamente falando.

A solução seria novos governantes de qualidade, mas parece que não é isso que o eleitor quer. Vide Romário, líder nas pesquisas para governador do RJ.


segunda-feira, 30 de julho de 2018

Otimismo & Pessimismo


As redes socais, cada vez mais anti sociais, andam muito mal humoradas e pessimistas. Claro que os tempos estão instáveis, mas se todo mundo, em todos os tempos, fosse pessimista 24 horas por dia ninguém teria nascido. A começar por nós. O pessimismo crônico, assim como o mau humor, em geral são sintomas clássicos (eu diria óbvios) de depressão e ansiedade aguda que, de cara, levam diretamente a inapetência existencial.

Não é normal ser pessimista o tempo todo. Não é normal ser otimista o tempo todo. A leve e harmônica oscilação de humor rege a saúde do nosso sistema nervoso, ensina a boa medicina. Os negativistas, vulgo urubus, tem no pessimismo o início, o fim e o meio. O lema deles é o famigerado “nada será como antes” (cusp! saudosismo) e reclamar de tudo é a base. Reclamam do calor, do frio, da chuva, da falta de chuva, do trabalho, da falta de trabalho, do amor, do desamor, do céu, do inferno sem perceber sua palpável infelicidade. 
Sem que ninguém diga claramente “meu chapa, vá se tratar!”, porque ninguém está a fim de se aporrinhar. E recomendar um médico para um sujeito nesse estado pode parecer ofensa.

O otimismo comedido é um exercício, dizem os sábios. Viver com esperança (favor não confundir com a agoniante expectativa) é saudável. Enxergar a luz no fim do túnel como porta de saída (e não de entrada) é uma ginástica mental/emocional fundamental. Mesmo que ao nosso lado esteja um Hardy Har Har (personagem do desenho animado lá no alto) dizendo que a luz pode ser de um trem vindo ao contrário.

Aí ferrou.


sábado, 28 de julho de 2018

Mente caótica


Nossos predadores emocionais vivem nas savanas do inconsciente e mantém no topo da cadeia alimentar a ansiedade antecipatória, figurinha fácil no corredor da morte das penitenciárias onde a pena de morte é formal. No Brasil é informal. Há muitos relatos de condenados que ficaram ensandecidamente ansiosos para chegar o dia da execução, quando a ansiedade, parece, cessa.

Dormir mal, comer mal, falar mal, cansaço instalado no cotidiano, ansiedade antecipatória é capaz de levar o ser humano a milhares de abismos por minuto, numa tortura inominável que devora dias e noites, semanas, meses, anos, décadas.

Certa vez, lá na casa do cacete dos anos 70, fui me meter a fazer meditação transcendental na torpe tentativa de tentar reduzir a velocidade dos pensamentos caóticos. Baixei numa espécie de consultório em Copacabana, num prédio que se chama Edifício das Boutiques, na Santa Clara.

Apesar do tsunami de mulheres maravilhosas na fila do elevador, minha cabeça parecia uma Kombi capotando e pegando fogo na avenida Brasil. Não deu nem para apreciar a bundolaria feminina. Olhei, mas não apreciei.

O cara começou a sessão de meditação querendo que eu ficasse de pernas cruzadas, similar a posição de lótus, mas eu nunca consegui e não consigo até hoje. Acabei deitando de barriga para cima. Com a voz mansa ele fez uma contagem, disse um monte de coisas e na minha cabeça surgiam piranhas (peixes) comendo a minha mão num caixa de banco, incêndio no meu próprio corpo, afogamentos, enforcamento numa floresta devastada, em suma, a tal meditação conseguiu reunir o pior do pior e eu disse “para, meu amigo! Não aguento mais! Quanto é?, vou embora”. E fui.

No corredor do elevador fumei dois cigarros acendendo um no outro (na época eu fumava e todo mundo podia fumar em qualquer lugar, até dentro de aviões e berçários), andando de um lado para o outro como limpador de para brisas aflito até golfar na lixeira e, meio trôpego, deixar o edifício das Boutiques.

Eu tinha uma Brasília, carro de sucesso que a Volkswagen fabricou de 1974 até 1982 e a bordo, em alto volume, enchi a cara de Led Zeppelin como se fosse fogo paulista auditivo e as erupções de pensamentos hediondos deram uma serenada.

Dias depois encontrei um saudoso amigo, médico psiquiatra, numa fila de orelhão (telefones públicos que existiam até os anos 2000 quando começaram a ser extintos e hoje viraram raridades) e falei que estava completamente descacetado “a ponto de recorrer a meditação transcendental.” “Pior opção”, ele disse, “porque quando estamos sob violento estresse – que é o seu caso - a meditação piora tudo, amplifica. Gasolina em lareira. Não adianta tentar conter pensamentos através de mudanças de pensamentos.” Perguntei o que poderia resolver e ele, muito objetivo aconselhou “tomar ansiolítico e fazer psicanálise”. “Mas eu parei”, disse, “pois então retome já”, ele respondeu, “mas faça em grupo para ver que todo mundo sofre disso”, encerrou, antes me passando uma receita do hoje vintage Lexotan.

Foi quando ingressei na psicanálise e em várias outras terapias ortodoxas e heterodoxas (florais, unha de corvo ao suco, etc) que uso até hoje para conter a mente caótica. Não dá para conter 100% mas adquiri know how para negociar com ela.

Há uns cinco ou 30 anos atrás (não lembro) eu estava nadando a noite numa paradisíaca praia de Angra dos Reis quando o motor da mente caótica girou e comecei a pensar na música do filme “Tubarão” (“tan tan tan tan”), convencido que ia ser devorado por um ali mesmo. Apesar de pensar “não existe tubarão aqui, não existe tubarão aqui, não existe tubarão aqui” desesperado nadei até a praia e, quando cheguei, me joguei na areia. Acho que até suei no mar.
Um amigo disse, “caramba, você nada rápido pra cacete”, comentou, “e até parecia eu, ano passado, quando mergulhei a noite, fui até lá no fundo e lembrei daquela música do filme Tubarão, entrei em desespero e quase andei sobre a água. Nunca mais pisei na água a noite”.
“Pois é”, respondi.


domingo, 22 de julho de 2018

Isolado há 22 anos, índio tenta sobreviver

 
                                                                                 
Na mata no interior do estado de Rondônia, na Terra Indígena Tanaru, uma área florestal de uso restrito com 80 km² encravada entre cinco fazendas de pasto e agricultura mecanizada, o último sobrevivente de uma tribo indígena resiste ao contato com a civilização há 23 anos.

Após ver a família ser assassinada e os últimos membros da tribo dizimados por fazendeiros em 1995, o “índio solitário” trava uma batalha para sobreviver, longe dos fazendeiros e traficantes de madeira que mandam na região. Felizmente a Funai teve uma luz e, em 2015, demarcou a área de 8.070 hectares por mais dez anos.

Funcionários da Funai relatam que tentaram se aproximar do índio, mas foram afastados a flechadas. Desistiram e passaram a monitorá-lo a distância para preservar a sua vida.

Os interesses dos madeireiros, que dizimam a população indígena e devastam as florestas, são defendidos com déspota paixão por muitos parlamentares e por gente do governo. Afinal, jamais em tempo algum, os índios tiveram uma demarcação territorial decente, assunto que surge de quatro em quatro anos em período eleitoral.

Muitos oportunistas prometem essa demarcação, mas quando passa a eleição engavetam o assunto. Acham que tem mais o que fazer. Enquanto isso, índios acabam engolidos pela civilização e se tornam miseráveis nas periferias de várias cidades.

Até quando?

sábado, 21 de julho de 2018

Neste domingo, as 11 horas, Elaine Guedes na Sala Paschoal Carlos Magno, em Icaraí, Niterói


A cantora, compositora e musicista Elaine Guedes se apresenta neste domingo, dia 22, na Sala Paschoal Carlos Magno no Campo de São Bento, Icaraí, Niterói. O show é as 11 da manhã e faz parte do Projeto Arte na Rua, da Fundação e Arte de Niterói – FAN. Ela será acompanhada de Rubinho Jacob (violão) e Flávio Santos (percussão).

Se em Chico Buarque ouvimos “silêncios eloquentes e palavras cirúrgicas para momentos bons e horas más que a memória côa”, ingrediente da MPB dos anos 60, nesse show ele se reúne com a música afro-brasileira de Baden Powell, sem barreiras entre erudito e popular.

Elaine Guedes tem formação erudita e experiência na música popular brasileira, como backing vocal de Tim Maia, Benjor e Cassiano, e em seu trabalho autoral. Rubinho Jacob nasceu na percussão e a exerce no violão, elogiado por Ivan Lins como autor, cantor e violonista. A percussão de Flávio Santos também e muito conceituada.

Numa entrevista esta Coluna, Elaine comenta que “no início eu busquei a união desses dois autores e todos me disseram "não tem". O primeiro traço de união foi em Vinícius, parceiro dos dois. Então parti para as diferenças. Um, filho de intelectual e uma musicista, com excelente poder aquisitivo, o outro filho de sapateiro e violinista. Os dois tiveram influência do samba e muitos músicos importantes na própria casa, em rodas de música. Baden, com João da Baiana, Donga, Pixinguinha. Chico, morando na Europa, Vinícius, ainda diplomata, e sabe lá Deus quem mais. A sofisticação é marca registrada dos dois.”

No repertório  “Retrato em Branco e Preto”, “Samba do Perdão”, “Berimbau”, “Canto de Ossanha”, “A Rita”, “O Meu Amor”, “Com Açúcar e com Afeto”, Samba e Amor ente outras