domingo, 19 de fevereiro de 2017

Nebraska- Avenida Brasil

A avenida Brasil parece íntima, mas não é. Nos anos 1970, 80, 90, 2000, subi e desci suas pistas literalmente milhares de vezes. Em busca de notícias, de mulheres que me incendiaram, casa de amigos. Conheço cada pista, cada palmo, cada faixa, mureta da avenida Brasil, mas ainda a estranho. Por que? Porque ela sempre me estranhou e vai me estranhar sempre.

A avenida Brasil é existencialista, despreza o amanhã, ignora o ontem. Ali o que vale é o agora, o bangue bangue emcional, o caos que eventualmente se torna Cosmos. Ou não. É pegar ou largar. Quem desiste não volta, quem insiste demais bate de frente.

Se eu fosse Bruce Springsteen teria composto Nebraska, sua obra prima, em algum ponto daquela torta avenida e seu asfalto roto que liga tristeza a esperança, o sorriso ao nó na garganta, o nada ao lugar nenhum, nervos nublados a euforia existencial. Façam os jogos, senhores. A avenida Brasil é o pano verde de cada dia, onde milhares de pessoas jogam todas as suas fichas, dia sim o outro também.

Nebraska, canção que abre o álbum, fala de um degenerado executado na cadeira elétrica. A avenida Brasil também olha, prende, julga, condena e mata. E não é preciso ser o degenerado descrito por Springsteen e muito menos o assassino do árabe de “O Estrangeiro”, de Albert Camus. Basta ser gente. Gente que vai e não volta. Gente que volta e não vai. Os sulcos da avenida, volta e meia salpicados de sangue, jogam na vala. Vala comum. Vala incomum.

Avenida Brasil, Nebraska nosso de cada dia. Sem gaita, sem voz, sem violão. Apenas um som. Ermo, brusco, surdo, como os baques, os beijos, o soco, a bruma, a fumaça. Nebraska, sim.

Sempre.
                                                     
Nebraska

(Bruce Springsteen)

I saw her standin' on her front lawn just twirlin' her baton
Me and her went for a ride sir and ten innocent people died

From the town of Lincoln Nebraska with a sawed-off .410 on my lap
Through to the badlands of Wyoming I killed everything in my path

I can't say that I'm sorry for the things that we done
At least for a little while sir me and her we had us some fun

The jury brought in a guilty verdict and the judge he sentenced me to death
Midnight in a prison storeroom with leather straps across my chest

Sheriff when the man pulls that switch sir and snaps my poor neck back
You make sure my pretty baby is sittin' right there on my lap

They declared me unfit to live said into that great void my soul'd
Be hurled
They wanted to know why I did what I did
Well sir I guess there's just a meanness in this world


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Laura, Beth and Me (Reloaded)

Me chamam de Charles, Anjo 45. Vivo num lugar praticamente inacessível, consequência de uma série de equívocos existenciais fomentados pelos algozes emissários da culpa. Vivo enjaulado em mim mesmo, temendo a rua, temendo a lua, temendo o sol. Escravo da culpa. 

Crime: amei. Amei como nenhum outro aqui neste Ocidente doente de preconceito e perversão. Amei e fui amado por Laura e Beth, por anos, os quase felizes de minha vida.

Há tempos já passei dos 50 e quando Laura e Beth chegaram encerrei meu poema cáustico. Escrevia minha vida como uma peça dramática, dura, desolada, mais para Pete Townsgend e Jim Morrison do que para Olavo Bilac. Quando desci de Chicago para Los Angeles em boleias de caminhão, tentando clonar as vidas de Jack Kerouac e Neal Cassady em “On The Road”, percebi mais uma fraude.  Vivia vidas alheias, emoções terceirizadas.
                                                
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Laura, Beth and Me. Nós nos batizamos assim em homenagem a Neal and Jack and Me. Quem leu Jack Kerouac (“On The Road”) sabe o que digo. Quem ouve “Beat” do King Crimson, entende. E desentende.

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Em Laura e Beth despejei todos os poemas disponíveis em minhas veias trancadas pela incompetência crônica dos vadios. A elas dediquei todas as flores, o sereno que bebi em Lumiar, avenida Paulista, Bairro Peixoto, Largo da Batalha. Largo a batalha?

Me atirei naquele abismo. Morno, confortável. Como homem, marido, amigo, amante, servo e algoz. Laura e Beth abriram minhas janelas. Todas. Emperradas pela “descoragem” afetiva, burocracia do medo de amar.
                                              
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Néctar, gritos, gozos, marcas. Nucas, costas. De Laura, Beth and Me. Nossos fogos não eram de artifício. Quando havia crises de culpa, Laura e Beth se impunham, durante horas, horas, horas. 
                                           

Chute na porta. “Deitado no chão, vagabundo! Eu sou a sua morte!”. Acordei com a cabeça pesada, culpando a garrafa de rum Varadero que bebemos na noite anterior. Impossível. Sempre tomávamos rum Varadero nas noites anteriores. Muito fácil culpar uma garrafa de rum. Presídios não estão cheios porque as garrafas estão vazias. 
                                                
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Seis da manhã. Fui para a cozinha preparar um café forte. Peguei a xícara. Janela. Dei de cara com a culpa presidindo um macabro tribunal armado na praça em frente. O meu Vesúvio explodiu. Críticas, regras, posturas. Me vi réu. Sentado. Mãos frias, cabeça baixa. Réu por ser livre, réu por amar, réu por ser amado, réu, réu, réu. Promotores, promotores, promotores. Não há advogados para quem se auto condena.
                                               
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Sem acordar Laura e Beth fiz as malas e parti. Sem bilhete. Sem as flores que normalmente deixava na mesa da sala quando saia mais cedo. Nada. O Nada saia sem deixar nada. Nem um verso. Nem um beijo. História de amor sangrada em blues de abandono, covardia. Como se Neal and Jack tivessem mesmo optado por Denver, Colorado em “On The Road”. Parti. Zonzo? Sonso? Parti. Sem olhar para trás. Vergonha da coragem, visivelmente desolada, balançando a cabeça.

Hoje, anos depois, acesso a internet e leio sobre a liberdade. Compulsivamente. Laura e Beth. Bocas mornas e úmidas, cheiros, sorrisos fartos, deliciosas e severas intervenções intelectuais, amor, amor, amor.

 

Um vagalhão de desejo me atira contra a parede, 6 da manhã, numa cidade estranha. Cidade encravada num lugar sinistro. Na cidade onde vivo nem rum Varadero existe.

Como decretou o figurino, AI-5 social, casei. “É de bom tom”, sentenciou o Tribunal. Me divorciei. “A vida é assim mesmo”, martelou o Tribunal. Depois, a coragem me visitou. Conversamos três dias, três noites. Woodstock. Foi quando fiz três filhos lindos, que não gostaria que fossem de Laura, Beth and Me. Gosto que sejam de quem são.               

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Janela. Cidade escura. Neve. Carros lutando. Ela acaricia minha nuca, me abraça por trás. Mãe de meus filhos. “Os fantasmas te acordaram, mon cher?”. Ela rastreia meus neurotransmissores como sertralina. E o seu cheiro me faz bem. Serenata. É francesa, do sul. Jamais me deixou dormir só. Mesmo sob a mais dura nevasca emocional. Ela resume Laura, Beth, and Me. Mas, tem mais essência, mais coragem, mais abrigo do que abismo. Pede que eu conte a história. Mais uma vez. Eu conto. Reconto. E ela me beija. Sabe que é assim que eliminamos fantasmas. Beija e diz “não foi desvio, mon cher. Foi vida. E já passou”. Parece que ela chora. Parece que de alegria.

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Não quero rever Laura e Beth, mas desejo que elas leiam esse disparo, emocionado, puro e estéril como são os pedidos de desculpas abandonados na internet. Como o sêmen que inundava a nossa cama e o sopro de óleo diesel que o vento traz da avenida principal.

Laura e Beth, perdão por me sentir feliz. 

“Seu sorriso me faz cambalear/ Seu beijo me torna bandido / Seu amor é como heroína/ Vicia e amadurece /Um pouco é o bastante”. (Pete Townshend, em “A Little is Enough”).


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Somos todos impublicáveis

Faz sentido um sonho que tive, noites atrás. Muitas noites atrás. Muitas e muitas e muitas e muitas noites atrás. Provavelmente nem era nascido.
Sonhei com o filme “Beleza Americana” (está na Netflix), obra genial de Sam Mendes lançado em 1998, com Kevin Spacey, Annette Bening e Thora Birch nos papeis principais. Bem, o filme mexeu tanto na minha vida (literalmente) que comprei uma cópia em DVD para assistir de novo de tempos em tempos. Mas não assisto porque muitas vezes é melhor deixar nossos baús trancados, calados, quietos.

A guinada existencial do personagem de Kevin me deixou boquiaberto dentro do cinema, onde permaneci uns cinco minutos depois que o filme acabou, completamente abobalhado, besteirão, queixo caído, vendo os créditos subirem na tela enquanto as pessoas saiam, com o capacete da minha Suzuki DR 800 no colo; tinha moto naquela época, mas motocicleta deixou de ser um veículo civilizado, segundo o regulamento.

Pou! No dia seguinte comecei a sentir os bons sintomas do filme e, mais uma vez, escrevi não sei onde (acho que foi no Estadão) que o cinema tem o poder de meter uma colher de sopa em nossas vísceras. O cinema, em muitos casos, faz o papel do inconsciente gente boa despejado em via pública.

Mas aí mora um problema: somos todos impublicáveis, diz o regulamento.
“Beleza Americana” me disse “larga essa vidinha e caia dentro com vigor, tesão e uma boa dose de irresponsabilidade”. Aquilo ficou martelando em minha cabeça (e a trilha sonora idem) e, meses depois, quando olhei para trás vi que também tinha dado uma guinada. E que a tal “vidinha” denunciada em silêncio pelo filme tinha sido substituída pelo vigor da tal dose de irresponsabilidade.
Respeitei a máxima de que todos somos impublicáveis e continuei a viver a nova vida calado. Que beleza.

O sonho que tive (concordo com C.G. Jung sobre os poderes dos sonhos e suas mensagens cifradas) não foi nada demais, mas para mim foi como se um torpedo de um submarino alemão singrasse o fundo do mar em direção a um porta-aviões americano, em 1944.

O que fazer? Acessei o You Tube e fiquei contemplando a beleza que é a instalação que o artista plástico Daniel Wurtzel fez, baseado na trilha sonora do filme. Imersão total. Beleza mais que americana.

Absoluta.

Agora é só ouvir os berros do inconsciente e seguir em frente. 

Calado, quieto.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Fogo no país

Singrando o asfalto tórrido desse verão, outras pessoas com rostos de cera, olhar perdido em algum lugar do futuro, fingem ignorar o nó na garganta. O verão é honesto. Torra. Torra, esfola. Pega, mata e come como um carcará indomado, ave extinta do nordeste, também extinto.

O calor espelha o sequestro da liberdade presumida. Ou virtual. Ou prometida. Liberdade que poderia serrar as correntes que submetem a satisfações, explicações, justificativas, proíbem de não ir, não vir, nada fazer. O verão que encharca nossas roupas diz que “liberdade, ainda que à tardinha” é frase tola, fútil, vazia. A liberdade mora na senzala social, onde nada é permitido sem autorização. Liberdade condicionada pelo “bom tom”.

O verão não entende o desmatamento. O sol das bancas de revistas vomita chamas pelo país, tomado por cachoeiras secas, mares banhados de latas de cerveja, florestas de pé de couve, vacas, cavalos, carneiros. E as pessoas vagam pelas ruas reclamando, reclamando, reclamando. Reclamando do dia em que nasceram, reclamando da infância, reclamando da adolescência, reclamando da maturidade, reclamando da meia idade, reclamando da velhice, reclamando da morte. Reclamam. Nada fazem.

Vontade, há, de sair quebrando tudo, incendiando prédios estatais, celebrando a orgia corrupta como atores de uma guerra civil libertadora. Mas o medo impede. O medo e a educação moral e cívica, que adestraram capachos, bovinos castrados submissos e obesos que caminham para o abate como se nada estivesse acontecendo.

O calor é honesto. Implacável e honesto. Quem reclama não tem coragem de incendiar o governo, responsável pelo estupro na conta de luz que limita o uso de ventilador. Resta o abano com um jornal velho, cheio de notícias velhas sobre roubalheiras que se repetem hoje, amanhã, sempre. É incorreto tacar fogo em tudo e trazer o país de volta.

Singrando ruas, avenidas, praças imundas, nem urubus há mais. Até os urubus parecem ter desistido, mas eu não. Olho minha imagem na vitrine de uma loja fechada pela recessão. Olho minha imagem e pergunto “um homem ou um rato?”. A coragem responde um homem, o arrego diz um rato.

O verão é pegar ou largar.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Keith Jarrett, The Koln Concert

O disco instrumental que me deixou de joelhos na primeira vez que ouvi chama-se “The Köln Concert”, de Keith Jarrett, gravado no Opera House em Colônia, Alemanha, em 24 de janeiro de 1975. Ou seja, o concerto que virou disco (lançado em setembro de 1975) acachapante fez 40 anos.

Não conhecia bem Keith Jarrett. Só em 1981 ouvi “The Köln Concert”. Foi como se um tufão rompesse os meus rochedos emocionais. Todos eles. Era um LP duplo, importado (gravadora ECM, da Alemanha) que ouvi um dia inteiro em casa e numa cópia em fitinha K7 que fiz, a bordo de meu Fiat 147. O álbum vendeu quase quatro milhões de cópias e é o disco de piano-solo mais comercializado na história da música.

Até hoje esse disco me devasta. No melhor dos sentidos. A solidão do piano de Jarrett, totalmente entregue a música a ponto de gritar várias vezes ao longo do concerto é algo que não vai acontecer de novo. Por mais que seja desejado, planejado, ensaiado, “The Köln Concert” é um raio que não vai cair de novo no mesmo lugar. Aliás, em lugar nenhum. Nem que Keith Jarrett queira.  

A música arrasta os gênios. Jarrett se deixou arrastar naquela noite de 24 de janeiro de 1975 em Colônia, sem medir consequências. Li que a gravação do disco foi marcada por algumas confusões, pianos trocados, mas virou virou uma obra, tão profunda, visceral, fundamental que ganhou o reconhecimento mundial. Um disco que está muito à frente de 1975, de 2017, do ano 3000, porque flagra a essência da liberdade, um momento muito raro em todos nós.

Anos depois, eu iria participar de entrevista coletiva de Keith Jarrett no Rio que acabou sendo cancelada. Tinha (e tenho) muita vontade de falar de “The Köln Concert”, mas, como todo mundo sabe, o músico é encrenqueiro, daqueles que interrompem o concerto por causa do zumbido de uma abelha. Mesmo que a entrevista acontecesse, não daria para conversar sobre aquela distante noite de Colônia.

Amigos e colegas meus, que já estiveram com ele, dizem que Jarrett é arrogante, antipático e tal, mas é a tal história, o cara é gênio e gênio pode tudo. Pode? Pode sim, eu acho, ou como diria Caetano Veloso, “pode sim, ou não.” Fato é que se aquela entrevista tivesse acontecido eu tentaria não para falar da agenda de Jarrett naquele dia/semana/mês, e sim de Colônia, Alemanha, 24 de janeiro de 1975 por uma única razão: eu queria estar lá. Muito. 

Mas o poder do músico fez Colônia vir até mim (e a milhares de outros brasileiros) dentro deste álbum duplo de vinil, que guardei até 80 e tal. Depois comprei em CD que ouço nesse exato momento, com os olhos ardendo, a garganta levemente seca, porque é assim que a música determina que eu deva me emocionar. E a música pode tudo. Inclusive parir a abstração profunda e genial, para sempre genial de “The Koln Concert”, de Keith Jarrett.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

É verdade. Sim.

 Não foi a toa que chorei como uma ema no cinema assistindo "O Resgate do Soldado Ryan", de Steven Spielberg, em 1999. Vi no capitão John Miller, interpretado por Tom Hanks, um clone meu. Teria feito tudo o que ele fez, inicio, meio e fim, sem alterar nada. Nem um milímetro. O filme pode ser visto no You Tube, mas o ideal seria assisti-lo na telona do cinema, com um ótimo áudio.
Assisti "Até o Último Homem" dias atrás. Provavelmente foi o melhor filme que passou por mim desde janeiro de 2016. Apesar da história ser completamente diferente de "Soldado Ryan", há algumas conexões: a) são reais; 2) tratam da solidariedade.
"Até o Último Homem" foi dirigido por Mel Gibson e foi indicado ao Oscar em seis categorias, inclusive a de melhor filme.
Impressionante o ilimitado poder da fé de um homem, que ultrapassa a barreira do absurdo. Cercado de sangue, vísceras, pernas amputadas por bombas (não recomendo o filme as pessoas mais sensíveis), um homem que não encosta a mão em armas decide ir para a II Guerra Mundial disposto, somente, a ajudar. E, impressionante, acaba indo parar na sangrenta e histórica Okinawa (Japão), a maior batalha marítimo-terrestre-aérea da história, entre abril e junho de 1945.
O vendaval de absurdos ao longo do filme nos deixa abismados. Como aquilo tudo pode ter sido real? Como existem pessoas assim num planeta incendiado por nefastos? Como? Como? Como? Banhados pela comovente e caótica história, deslumbrante fotografia e efeitos especiais, e pelo som, até os mais descrentes acabam sucumbindo e se entregam a esperança.
O que mais me chocou positivamente no filme "Até o Último Homem" foi o fato daquela imensidão humana ter sido uma história real.
História real que precisa ser vista por todos.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O espelho é o espelho

Olhar para o espelho, mesmo invertido, e perguntar “e então, meu chapa, como fui, como está sendo, como será?”. Que mal há nisso? Pensei em fazer umas experiências com poesia aqui nesta Coluna mas não gostei do que andei escrevendo. Não sou poeta. Um dos rascunhos falava do presente, passado e futuro como uma bola uniforme de energia rumo...rumo... rumo ao desconhecido que é a proposta de vida básica de quem cisma em pensar demais.

Pensar demais dói, por isso as poesias muitas vezes fluem melhor do que um conto, uma crônica e, logicamente uma reportagem, mas eu não vejo nada que preste nos meus poemas que muitas vezes parecem conversas falsamente reservadas em lugares falsamente protegidos por paredes de compensado vagabundo, sem sabermos que lá fora todo mundo ouve, ri, rola de rir. Mesmo que a razão nos estapeie.

Peço desculpas ao espelho pelos mal entendidos que por acaso posso ter gerado nos últimas 18 milênios. Sei que não aconteceu nada de grave, apenas algum “confusionismo”, digamos assim, que pode ter gerado mal estar, constrangimento, coisa de quem espera pato cacarejar na alvorada. O espelho nada diz. O espelho não diz se desculpa ou não. O espelho é o espelho.

Placidamente aceito os pedidos de desculpas que, arrivistas, chegam, invadem a cozinha, servem café, deitam no sofá da sala, ligam a TV em programas mundo cão e ficam por ali morcegando. Ficam porque apesar do fastio, do cheiro de mofo, eventualmente eles me emocionam, sinalizam humanidade, afeto, sinceridade e generosidade. Mas, querem saber (?), eu tenho a convicção de que tudo o que faço, certo e errado, foi na intenção de acertar. Mas o espelho continua calado.

Estive com um amigo e falamos dessa história do tempo, passado, futuro, presente. Ele disse que em algumas épocas fica tudo embolado e que é melhor deixar assim mesmo; é um erro grave interferir no que é natural, espontâneo, nato. Para que? Por que? Deixa rolar. É difícil? É.


E daí?