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Bonnie

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  Quando o carro entrou na aldeia empoeirada, bela, paradisíaca, a cabeça moída e o corpo cansado agradeceram. De pés juntos. Era verão, provavelmente um dos melhores de minha vida. Pelo menos até o verão seguinte. O acaso me fez encontrar com três amigos, que foram promovidos a grandes amigos, numa rua qualquer naquela semana. Eu já andava cheio dos ególatras, interesseiros, parasitas que só investem em amizade de conveniência achando que somos babacas. Tudo bem, eventualmente sou um babaca mesmo, mas naquela semana eu estava com a faca nos dentes. Eles me convidaram desleixada e afetuosamente, “vamos passar o resto do verão naquela aldeia praiana. Alugamos uma casa lá e um dos caras não vai poder ir.” Comuniquei as férias (vencidas) no trabalho, passei em casa, amontei umas roupas. Partimos em dois carros, saindo por volta das 10 da noite, uma viagem que durou umas seis horas pois paramos em várias biroscas para bater papo. Eu não estava habituado ao saldo pos...

Modo blue

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Ainda há quem ache que o choro é fraqueza, que o lamento é covardia, que o modo blue que tem que ser massacrado, assassinado, deletado, arquivado, atirado no lixo, em nome de uma suposta superioridade existencial. Dizem que os ocidentais, em especial os pequeno-burgueses, preferem ignorar o afeto profundo. É mais fácil? Não. É como um cheque pré-datado, daqueles que batem na conta lá na frente, com juros e correção. Sinto, sim, o nó na garganta quando sinto o cheiro do mar misturado ao de óleo combustível dos navios de guerra e também dos zepelins que um dia surgiram na Boa Viagem. É bom homenagear quem eu quero que seja homenageado, com lembranças, poemas, vento do litoral, o azul petróleo da noite. O meu afeto não se encerra.  Prefere transmutar como as auroras boreais. Nunca as mesmas.  Sempre as mesmas. Assim é. Assim será. Sempre.

Paulo Niemeyer Filho: "Eu acredito que a alma está na cabeça. Quando um doente está com morte cerebral, você tem a impressão de que ele já está sem alma... Isso não dá para explicar, o coração está batendo, mas ele não está mais vivo. Isto comprova que os sentimentos se originam no cérebro e não no coração."

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Numa entrevista cujo trecho está em minha coluna HashTag Cultural na Rádio Bandnews FM (para ouvir é só clicar aqui https://bit.ly/3kxGXvh ) o neurocirurgião Paulo Niemeyer é sincero.  Ele acha que o mundo não vai mudar em nada depois que passar a pandemia. Argumenta que o mundo não mudou depois da Gripe Espanhola (1918-1919), nem na II e II Guerras Mundiais, Guerra do Vietnã, Guerra do Golfo e muito menos no atentado as Torres Gemeas. Por que mudaria acora? Concordo. A maturidade, muitas vezes de maneira dura, ensina que não devemos rascunhar nossas vidas com base em manifestações coletivas. Se conseguirmos melhorar o que somos, para os nossos, para todas as pessoas, já será um grande avanço. Aqui Paulo Niemeyer (brasileiro que muito me orgulha) não dá receita, não inventa a lâmpada. Como sempre se mostra sincero. Foi numa entrevista a revista Poder. O que fazer para melhorar o cérebro? Paulo Niemeyer - Você tem que tratar do espírito. Precisa estar...

A lenda do brasileiro bonzinho

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O Brasil atingiu hoje a triste (para mim) marca de 100 mil mortos por Covid-19. Há quem lamente o desprezo da seita RenanEduardoCarlosFlavioJair Bolsonaro, que sequer emitiu um sinal de pesar. Ontem houve cerimônia em Hiroshima pelos 75 anos da bomba que matou em torno de 150 mil pessoas. São apenas 50 mil a mais do que a Covid-19 enterrou aqui, até agora. No Japão, todos os anos, há cerimônias pelas vítimas. A nação faz luto, ora, flores são depositadas. Com exceção de uma meia dúzia, não percebo comoção geral nos brasileiros em relação as 100 mil mortes por Covid-19. Mortes de outros brasileiros que deixaram amigos, família, colegas. Mais um motivo que rasga aquela lenda do brasileiro bonzinho, motivo até de um debochado programa humorístico muito antigo, conduzido pela americana naturalizada brasileira Kate Lyra. Ingênua, depois de levar cantadas disfarçadas de solidariedade, ela soltava o bordão “brasileiro é tão bonzinho”. O brasileiro bonzinho nunc...

Skylab, Rogério, bom dia

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Lembrei de você porque escrevia sobre Nero, vulgo Nero Cláudio César Augusto Germânico e o fetiche da lira siririqueira do monte Qurinal, onde ficava o surubal dele. E como gosto de pesquisar como um louv-a-deus em busca da piscina encantada e seivada por morcegas famintas, acabei parando na mão de um historiador romano chamado Suetônio e acho que você conhece. Suetônio fez a conexão contigo e eu programei duas músicas suas em minha Rádio Devaneio, 100% brasileira e alternativa (mershandising) que para ouvir é só clicar aqui https://radiodevaneio.wixsite.com/radiodevaneio Esse Suotônio deve ser aquele que fazia meia com Dião Cássio, lembra? Estavam juntos na noite de 18 de junho de 64 D.C. (não confundir com 1964) quando Roma lambeu. Maior fogaréu. Pior que no nosso lupanar Quatro por Quatro, centro do Rio, ano passado. Em Roma morreu gente pra cacete, Skylab, e esses dois plantaram a fofoca de que Nero tinha mandado tacar fogo na cidade para depois construir um pr...

Holismo, ou, a galinha que cacareja mais é a primeira a ir pra panela

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Ladeira da memória, homenagem ao grupo Rumo O calabouço gosta dos faladores e de seus arroubos juvenis, como as revelações que só as alcovas da alma tinham conhecimento até então. Mas aí, o sol bate na banca de revistas, o incauto entra em êxtase, se distrai e fala. Calabouço, meu chapa. Calabouço. Parece que é assim que funciona a dinâmica energética da vida, uma espécie de London Eye ( https://bit.ly/2EFpAoh ) girando no próprio eixo. Enquanto houver eixo. “Por que ela é linda e eu não?”; “Por que ele tem esse carro zero e o meu é podre?”; “por que ele mora tão bem e eu não?”; “por que ele está sempre saudável e eu vivo doente?”; “por que ele é sempre promovido e a empresa me ignora?”; “por que com ele as coisas sempre dão certo e comigo não?”; “por que o casamento dele é feliz e o meu não existe?”; “por que eles podem viajar sempre e eu sento no meio fio?”; “por que a inveja é uma merda?”... Nefasta, a inveja está da essência humana, garante o holismo. A princípio...

Coisa mais linda

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                    Quando olho o meu R.G. e vejo lá “nascido no Rio de Janeiro” logo me vem o dia que o amigo e então vereador Sergio Marcolini me entregou o título de cidadão niteroiense. Foi em 1983 na Câmara Municipal. Minha família, amigos, colegas, todo mundo lá no fuzuê. Marcolini não tem ideia do bem que me fez ao formalizar um sentimento muito profundo. Nasci no Rio, mas escolhi Niterói para viver. Uma opção. Mas é claro que a condição de carioca também me emociona, ainda mais nascido no meio dos anos 1950, a década mais feliz do Brasil, como mostra Joaquim Ferreira dos Santos no livraço Feliz 1958 — o ano que não devia terminar”, lançado há anos mas que não paro de reler. Para completar, a Netflix nos presenteia com a segunda temporada série brasileira “Coisa mais Linda” que é um sobrevoo maravilhoso naquele Rio bossa nova da virada dos 50 para os 60. Importante assistir a primeira. A série foi criada...