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A Lira do Delírio

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  Nesta quarta-feira precisei ir ao miolo do Centro de Niterói onde os ecos de uma parte de minha história reverberam nos rebocos rachados e cheios de limo de casas, ou quase casarões e sobrados que estão preservados por uma razão não muito digna. Estão abandonados. Desde sempre. Comecei a trabalhar naquela região. Naquela região nasceu a Rádio Fluminense FM. Nesta quarta-feira à tarde eu estava de bicicleta, há tempos o meu meio de transporte. O miolo do Centro de Niterói, - vou tentar explicar – são aquelas quadras onde ficam ruas como Visconde de Itaboraí, Visconde do Uruguai, Marques de Caxias, Saldanha Marinho. Podemos dizer que o epicentro do miolo é o Jardim São João. Pedalando por ali, devagar, cruzando as extensas e organizadas filas de barracas de camelôs, a sensação é meio de melancolia, abatimento, desalento. Talvez o que estejam sentindo aquelas casas que um dia, em algum século que já voou, tenham sido alegres como os galos, as noites e os quintais. Ca...

Libertação e expectativas prisioneiras, por Margareth Dalcolmo

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  Impossível não reproduzir este profundo artigo da cientista Margareth Dalcolmo, publicada no Globo de hoje:   É desconcertante no bom e no mau sentido, constatar os excessos do ser humano, após mais de dois anos de pandemia, quando deveríamos com prioridade estar vencendo as desigualdades vacinais para proteger a população, em ver eclodir uma guerra evitável. Ver o planeta, ainda que muito diversamente, se preparar para pensar um amanhã, nas especificidades das culturas. Quando olhamos as imagens de destruição de prédios na Ucrânia, o que vemos é um excesso de realismo, como num perverso jogo de Lego ao avesso; de lares e de vidas, ao vivo em nossas salas, com restos de sapatos ou pedaços de bandeira. Fica muito difícil acreditar na humanidade como cuidadora de seu próprio destino. Um amanhã sobre o qual os filósofos contemporâneos, não apenas Giorgio Agambem com sua controversas assertivas sobre a magnitude da pandemia, desde o início, mas Bruno Latour, Judith Butle...

Eutanásia Cósmica

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  Há uns anos, li num site de quinquilharias semi inúteis que os americanos estavam inscrevendo, na surdina, candidatos a voos de ida sem volta a Marte. O site dizia que várias pessoas tinham feito inscrições. Teriam assinado uma papelada gigantesca com autorizações, consentimentos, termos de isenção de responsabilidade, etc. Receberiam uma dinheirama que ficaria para pessoas, instituições, cachorros e similares indicados pelos viajantes. A espécie humana ainda não consegue ir e voltar a Marte. Morre no caminho. Significa que os supostos inscritos estariam cometendo uma espécie de eutanásia cósmica, suicídio espacial ou coisa parecida. Não vou alimentar a pancadaria, mas quem não pede para nascer no mínimo tem o direito de escolher a hora e como morrer. O mundo está a cara da década de 30, aquele barril de éter, enxofre e pólvora que defenestrou a beleza, a sensualidade, a libertinagem, a democracia dos anos 20. No Brasil, estado novo (com letras minúsculas), nazismo tropical (inte...

Avalanche de lançamentos

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  O selo Maxilar e a Ditto Music lançam uma ação coletiva de marketing, juntamente com quase uma centena de rádios, programas e podcasts de música. Muito se diz que não há nada de novo no mercado brasileiro e se questiona a qualidade do que nos é apresentado nos canais tradicionais de música. O selo Maxilar teve a ideia de, de uma só vez, apresentar novidades inéditas que supram a necessidade de ouvidos realmente interessados no que temos de melhor. São 4 lançamentos totalmente diferentes entre si, que serão tocados por esses programas e rádios, que por sua vez compartilharão o post drirodrigoneste dia 18 de Junho no facebook e instagram, todos ao mesmo tempo. Esse é o link para download dos singles, capas e posts da Avalanche de lançamentos: https://we.tl/t-aqNHlIF3PJ Um pouquinho sobre cada single: - Persie Feat. Luíza e Os Alquimistas - "Baixo Oceano" O novo single é uma balada romântica onde Persie conta com a luxuosa participação de Luísa e os Alquimistas, que...

A Itabira de Cada um – Martha Batalha, O Globo

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         Na última coluna escrevi sobre um beija-flor com a asa machucada que encontrei na rua. Muita gente quis saber o que aconteceu, respondi e-mails e escrevi nas redes que o bichinho se recuperou. O que não disse foi o que aconteceu durante os três dias que passamos juntos. Com o beija-flor, não muito. Dormiu numa caixa de sapatos, tomou água com açúcar, ficou bom e foi embora. Comigo, a experiência foi como um corte na lona de um cenário, cenário a vida que eu tenho agora, corte para uma memória de infância. Início dos anos 1980. Eu com 8 anos, perambulo descalça no condomínio. Ali na frente, caído junto a uma árvore, está um filhote de passarinho. Corro com ele para casa, onde minha mãe alimenta o bicho com mingau de milho. De noite, ele dorme sobre fiapos de jornal dentro de uma cuia de chimarrão. No dia seguinte, escondo a cuia na mochila e vou para a escola. A mochila pia, crianças se aglomeram em torno da minha carteira, a professora aparece e eu ch...

Lua, sol, lua

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A noite é dia, o dia é noite, a noite é dia, o dia é noite, a noite é dia, o dia é noite, a noite é dia, o dia é noite, a noite é dia, o dia é noite, a noite é dia, o dia é noite, a noite é dia, o dia é noite, a noite é dia, o dia é noite, a noite é dia, o dia é noite, a noite é dia, o dia é noite, a noite é dia, o dia é noite, a noite é dia, o dia é noite. Porque vale à pena.

Onanismo ao vento

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    Por motivos não alheios a minha vontade meu fuso horário deu uma virada. Longa madrugada. Não gosto de escrever e publicar no ato, no pós coito imediato. Deixo decantar, como café turco, horas depois passo o pente flamengo e publico. O que mais nos difere dos chamados irracionais é a consciência do afeto, apesar dos cachorros. Sempre converso normalmente com os cachorros que parece entender o que digo. Cachorro e sua vasta (na verdade infinita) paciência de ouvir, ouvir, ouvir. Na faculdade fiz um trabalho sobre isso, mas omiti o exemplo dos cães para que não achassem que é coisa de imbecil. O professor de Psicologia Social não gostou quando, para disfarçar, escrevi que os animais vivem única e exclusivamente de instintos, reflexos. O professor disse que viveu uma experiência num lugar bem perto de uma família de gorilas, o que virou a sua cabeça. Passou a achar que, de alguma maneira, os animais irracionais também tem essa percepção e me deu nota 7. No final do mês ...