Se eu fosse consultado - Carlos Drummond de Andrade
Crônica publicada no Jornal do Brasil
em 15 de abril de 1977
Fotos de Rogério Reis, feitas na casa de Drummond


Se me dessem a honra de ouvir-me sobre as reformas
políticas, eu recomendaria uma ideia bem mais revolucionária do que as da
própria Revolução. E muito mais salutar: a eleição integral, em que todos os
brasileiros, mas todos, sem exceção das crianças, hoje tão sabidas, escolhessem
seus representantes e dirigente, sob a forma de voto mental absoluto, sem
papagaiadas formalísticas.
Os mandatos teriam a duração exemplar de 24 horas, o que
eliminaria angústias e infartos, e poderiam ser, não digo cassados, pois julgo
a expressão extremamente antipática, mas revogados, caso no fluir dos minutos o
eleitor achasse que fizera má escolha. Em compensação, poderiam ser renovados
na manhã seguinte e nas outras manhãs, sempre que o eleitor se mantivesse
contente com os mandatários e não quisesse experimentar outros. Desta maneira
teríamos a cada sol, ou a cada dia de chuva, governo e representação popular
novos, que, se fossem ótimos, poderiam ser confirmados quando o galo cantasse
outra vez (o galo ou a serraria do bairro), e, caso não dessem no couro, teriam
feito o menor mal possível à mente do seu eleitor.
Já sei que impugnariam o meu projeto, apontando-lhe mil
inconvenientes, entre os quais o de provocar a anarquia governamental e
legislativa, pois não haveria um só presidente, e sim talvez milhões,
dada a tendência de muito eleitor a votar em si mesmo, o que se repetiria
para a eleição para governadores, senadores, deputados, prefeitos e vereadores.
Podendo até dar-se o caso de um mesmo indivíduo eleger-se simultaneamente
para todas essas funções. Como governar, como elaborar leis desta maneira?
Bem, eu já previa esta objeção principal, como tantas
outras, e afirmo que a explanação da ideia fará com que ela rutile em seu justo
e convincente esplendor. Os órgãos políticos assim constituídos não trariam a
menor perturbação à vida do país. Pelo contrário, só poderiam ofertar-lhe
benefícios, pela soma de boas influências de cada eleito, no ânimo de seu
respectivo eleitor.
A democracia funcionando dentro de nós, com eficácia, e não
supostamente do lado de fora, sujeita a esbarrões e desvios. Nisso consiste a
beleza do meu sistema.
Eu, por exemplo, me daria o prazer, ou o privilégio, de
ser governado em 1° de janeiro por mestre Alceu Amoroso Lima. Para renovação da
alegria, meu presidente no dia 2 seria Maria Clara Machado (Que diabo, então
mulher inteligente não pode assumir o posto?) Depois seria a vez de César
Lates, Vinícius de Moraes, Paulo Duarte, Prudente de Morais, neto, essa
folha-de-malva que se chama Henriqueta Lisboa, Aliomar Baleeiro, Luis da Camara
Cascudo, Fayga Ostrower, Pedro Nava, Francisco Mignone, Enrico Bianco, Eliseth
Cardoso, Orígenes Lessa, Fernanda Montenegro ... Tudo gente boa, de respeito. E
de imaginação. Estes, e outros assim, os meus presidentes ao longo do ano. Meus
vizinhos escolheriam os deles.
Ninguém brigando por motivo de ambição. Em santa paz,
cada qual seria governado, orientado, instigado pela figura de sua dileção. Por
serem de jurisdição limitada ao âmbito das pessoas que os elegessem, não
colidiriam entre si tantos presidentes, situados na extensão infinita ( e
mínima) de nossas preferências pessoais. Todos nós, eleitores, nos sentiríamos
impelidos, na esfera individual, a fazer o melhor possível, sob esse comando
abstrato. E vivendo e trabalhando cada um de nós ao influxo de tal regência
moral, este seria um país que não precisaria criar calos nos pé e na alma para
ir pra frente.
Bem, insistirão ainda os opositores: E quem governaria de
fato o Brasil, quem faria leis para serem realmente executadas? Ora, pergunta
vã. Se na prática tais poderes podem ser concentrados numa só pessoa, minha
proposta consiste apenas em estender esta faculdade, no plano ideal, que também
conta, a todos os integrantes da comunidade. Sem bulha nem ameaça à segurança
nacional, e com plena consciência de todo mundo.
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