segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O drama do disco de vinil

                                 Disco de vinil surrado. Clec clec clec
                                        Outras utilidades

Ano passado publiquei aqui o artigo "Porque detesto disco de vinil, aquele porco redondo" contando o que me fez romper com esse tipo de mídia. Várias pessoas se manifestaram contra mim, a maioria equivocadamente.

Para começar publicaram mensagens anônimas ali nos Comentários o que me impediu de publicá-las. Muitos fizeram comparações entre a qualidade do som dos discos de vinil em relação ao CD tema que não foi incluído em meu artigo.

As questões que levantei são referentes a arranhões, estalos, complicações operacionais, aqueles incidentes que fazem o braço do toca discos correr sobre o disco e vrrrummmmm. Em emissoras de rádio foi um grande vilão, safado, derrubador de operadores, mas em momento algum comparei o som das chamadas bolachas com o do CD.

Mesmo porque acho que quando os primeiros compac discs saíram em formato AAD e ADD havia, sim, uma enorme diferença de som, principalmente a ausência de graves. Mas quando começaram a lançar em DDD tudo ficou igual. Pelo menos para mim que tenho ouvido de lince mas não absoluto, como, me parece, tem a maioria dos defensores dos discos de vinil. Peraí! Em alguns casos a superioridade do áudio do vinil é impressionante, como ouvi recentemente na casa de um grande amigo que pôs uns vinis de 180 gramas para tocar. Impressionante. Só uma ema surda não notaria a diferença.

Por isso grandes produtores só permitem que obras originalmente lançadas em vinil sejam transformadas em CD através de um processo de remixagem/remasterização extremamente bem feito. Quando a gravadora Atlantic lançou os primeiros CDs do Led Zeppelin, Jimmy Page ficou furioso, foi lá e embargou tudo. Os CDs foram recolhidos e ele mesmo, Page, fez uma nova edição específica que foi (e ainda é) um sucesso.

Quando escrevi que aprecio os colecionadores de vinil e fiz comparações com quem gosta de comprar leques para por na parede não estava debochando. Nos anos 1970 tive uma amiga, profissional de prazeres eróticos para todos os mamíferos, nível A, que adorava e sua casa tinha leques chineses, vietnamitas, paraguaios espalhados pela casa e eu achava o maior barato. Inclusive numa noite, sem que ela visse, retirei um (afegão), abri e cocei as costas com uma das pontas. Adorei.

Coleção de carros? Adoraria ter uma. Se fosse um trilhardário teria uma casa em Santa Mônica, Califórnia, maior terrenão gramado e ao fundo um mega galpão. De manhã ia tomar café lá fora e pedia para minhas assistentes tirarem da garagem um Porsche 917 ano 1971 (fora de série) ou 911, ano 1970, um Mustang 1965, vários Volvos, três ou quatro Karmann Ghias, Ferraris, Land Rovers só para ficar contemplando. No dia seguinte, uma nova leva já que, neste caso, eu teria uns 300 carros. Por que? Porque adoro carros.

Guitarras e contrabaixos? Dezenas. Minha coleção ficaria numa parede imensa, num lugar com equipamentos de museu para preservar as Gibson, Fender, Rickenbacker, Daneletro, num salão próximo a coleção de galos de briga, canários belga e roller, peixes Betta (de luta) e, lógico, cachorros, um oceano de cachorros. Sim, a casa seria a maior de Santa Monica.

Basicamente minha opinião continua a mesma: disco de vinil é uma bosta. Adoro o CD e dos formatos digitais WAV APE, FLAC que uso no computador e as novas gerações de MP3, utilizados pelas melhores webradios do mundo. Tudo, menos vinil.

Afinal, paca é paca. Trauma é trauma.








sábado, 28 de outubro de 2017

Janis: 47 aos sem a rainha do blues rock

No último dia 4 de outubro foi o 47º. Aniversário da morte de Janis Joplin que, sinceramente, dispensa comentários. Em fevereiro do fatídico ano de 1970 ela fugiu para o Rio, onde passou o carnaval.

Fugiu porque queria ficar longe da heroína. Naquela época não havia heroína por aqui e muito menos fuzis, guerra civil e outros ingredientes caóticos que exibem uma nação em ruína para o resto do mundo.

Ela veio, bebeu muito conhaque e cachaça, tomou LSD, anfetaminas, fumou de tudo, mas heroína não havia. Só que oito meses depois, em Hollywood (Califórnia) ela injetou uma overdose num quarto de hotel onde foi encontrada caída no chão. Morta.

O melhor filme sobre ela, de 2015, está na Netflix. Chama-se “Janis: Little Girl Blue" extremamente bem feito por Amy Berg.

Aqui, algumas fotos em homenagem a maior cantora de blues rock da história

                     1970. Carnaval no Rio. Atrás, com a mão no ouvido, Big Boy. Na frente, fumando,         Antonio Duncan.

                                   Janis foi expulsa do Copacabana Palace por nadar nua na piscina
                                                           Na praia da Macumba
                                          1968: na capota de seu Porsche 956 D 1600, ano 1964, pintado para ela.
                                  O começo em San Francisco, antes de conhecer a Big Brother and Holding Company, banda que a lançou.








                  1969:  Janis e Johnnny Winter, no festival de Woodstock.
                                          Cena do gilme "Little Girl Blue"
                       1967: Festival Monterey Pop





                             Ele de novo.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Blogueiro é o cacete!

                                                                              Pura verdade
Enfurecido, andei recebendo e-mails onde fui xingado de “Caro blogueiro” ou coisa parecida. Um colega que encontrei, também indignado com a ofensa, resumiu: “Estou na trincheira das letras tórridas há mais de 40 anos, ralei nas ostras estudando Comunicação quatro anos e vem esses vagabundos me chamarem de blogueiro. Blogueiro é o cacete! (ele não disse cacete, mas não gosto de escrever palavrões). Sou jornalista, ainda com muito orgulho.”

Estou nas redações da vida desde o início dos anos 1970 (comecei com 15 anos), fiz curso superior, iniciei quatro pós-graduações que tive que abandonar por falta de tempo (trabalhava ou estudava) e, essa não, chegar agora e ouvir que sou um skatista das letras, um arrivista das entrelinhas, também conhecido como blogueiro? Meu chapa, de jeito nenhum. Não tenho nada contra os blogueiros, mas que boa parte deles é picareta, aventureiro, metido a escritor fashion, camelô das letras, isso é.

Tanto que essa cabana não se chama Blog do LAM e sim Coluna do LAM, e passou de 400 mil acessos desde que entrou no ar, no final de 2012. Tudo bem que a extensão blogspot.com pode confundir alguns, mas aí o problema não é meu. 

Pessoalmente nunca me xingaram de blogueiro. Talvez porque já me conheçam de outros woodstocks, sabem que ralo como um lobo na savana e não tolero esses modismos de amadores, gente que adora praticar a “evasão de privacidade” como bem sentenciou, anos atrás, o grande e extinto Tutty Vasquez. 

Especialmente quem escreve de graça para fazer lobby com a sociedade e se lamber diante do espelho. São os moto boys da imbecilidade, estafetas do estrume jornalístico que, algumas vezes, são endeusados pelo recorde de cliques. Não tolero amadores (e arrivistas, molambeiros, barangas) em nenhum setor dessa louca e sempre bela vida.

Concordo com 130% de meus colegas que afirmam que a qualidade do jornalismo despencou nos últimos anos. É verdade. Escrever mal virou regra. A concordância verbal, em muitos casos, parece ter virado artigo de luxo ou ficção não científica. Mas o mais grave, aliás, gravíssimo, são as falhas na apuração das notícias, lei maior da mídia. 

O que leio de erros primários de apuração, notícias com fontes trocadas, informações truncadas e até incoerentes, é de fazer chorar. Meus colegas dizem que as empresas de comunicação optaram por mão de obra muitíssimo barata, logo de baixa qualidade, e que esses erros vão se avolumando alucinadamente. 

Um dia desses li a seguinte chamada: “Trânsito segue parado em Ipanema”. Como assim? Como é que o trânsito segue se está parado? Daí para falhas lamentáveis em cultura, política, economia, ciência é só um salto. E o leitor? O leitor que se dane, ao que parece. O leitor que vá ler blogs e não encha o saco.
Isso na chamada mídia convencional. Imagine nesses blogs que muitos picaretosos salta-pocinhas escrevem, publicam e saem charlando por aí como se o Pluto fosse filho da Pluta e que se dane o avião. Por isso, meu colega tem razão: blogueiro é o cacete! 

Sou jornalista, adestrado para apurar exaustivamente as informações, escrever respeitando normas muito rígidas e publicar com o máximo de firmeza possível. Por que? Porque os bons leitores exigem, merecem e, pelo que aprendi, os bons leitores são nossa razão de existir.

O resto? Problema da Comlurb.


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Adão e Ivo

Brejeiro é médico. Obstetra. Finalmente fora absolvido num processo complicado. Ao fazer um parto natural em um elegantíssimo hospital da Zona Sul do Rio, como de praxe ergueu o bebê e anunciou “é um menino”.

No centro cirúrgico, além da equipe, o pai da criança que, como toda a família, estava gravemente infectado pelo vírus do Politicamente Correto, uma das pestes mais promíscuas da história contemporânea. Indignado, quase rubro de ódio, o pai falou alto no centro cirúrgico.

- Doutor Brejeiro, o senhor não pode condenar meu filho ao sexo masculino. Ele vai decidir o seu gênero ao longo da vida. Ao erguê-lo como troféu e decretar “é um menino” o senhor ignora os mais básicos princípios básicos que norteiam o Politicamente Correto, a nossa sina, a nossa vida.

Brejeiro não se desculpou. Delicadamente entregou o bebê a uma enfermeira e se retirou. Enquanto se preparava para ir para casa, o médico lembrou que fatos estranhos já haviam acontecido dias antes, quando recebeu o casal numa consulta para tratar do parto.

Ao preencher uma ficha comum, o médico escreveu Adão como o nome do futuro pai e Darlene o da futura mãe. O casal protestou veementemente e exigiu que Brejeiro corrigisse. Adão era o nome da mãe e Ivo, que apesar de mulher, era nome do pai.

Duas semanas após o parto estava em seu apartamento em Vaz Lobo, Rio de Janeiro, quando chegou a intimação judicial. Preocupado, ligou para um amigo advogado que averiguou, no dia seguinte, que tratava-se de uma ação por danos morais contra ele, Brejeiro e contra a enfermeira. Ele por ter “ofendido” o bebê de menino assim que nasceu e ela por tê-lo vestido com uma roupinha azul.

Na audiência perante o juiz, Adão, a mãe e Ivo, o pai, disseram que o caso configurava danos morais porque “ao afirmar se tratar o recém–nascido de menino, o médico o condenava ao gênero sexual que ele, médico, achava que deveria ser e não o da futura escolha do bebê.” Quanto a enfermeira o argumento era semelhante, acrescentando que “ao vestir o bebê de azul, e não de rosa ou outra cor, a profissional determinava o sexo da criança”.

Na audiência Brejeiro chegou a dizer ao juiz que caso fosse condenado não só abandonaria a medicina, como também o Brasil e iria viver como aborígene na Austrália. O juiz achou que era deboche, mandou Brejeiro calar a boca mas depois, constrangido, entendeu que o assunto era sério quando o advogado do médico mostrou a passagem Rio-Sydney de ida sem volta e o visto de permanência na Austrália concedido pelo consulado.

Ivo, a mãe, estava mais exaltada. Dizia que “na condição de dirigente sindical, de cidadão que luta pelas demandas agudas de uma sociedade atirada aos dogmas, paradigmas e a dialética que dividem o ser do existir, fui até acusada  de ladra, de assaltar o cofre de uma instituição pública por preconceito, racismo, fascismo daqueles que decretam comportamentos, posturas e até gêneros sexuais”. Ivo só não explicou se foi absolvido do processo de corrupção.

Foram ao todo sete audiências. Tensas. Na pequena plateia, sempre umas 13 pessoas ligadas a sindicatos, partidos políticos arrivistas, ONGs, organizações sociais, lideranças e ativistas de causas sexuais alternativas.

Brejeiro temia pelo pior. O juiz conseguiria resistir a pressão? Conseguiria permanecer frio e racional mesmo ouvindo o som dos atabaques que vinha da rua onde dezenas de pessoas gritavam palavras de ordem, empunhando cartazes com os dizeres “Viva Adão e Ivo! Morte aos fascistas!”?

O juiz sentou-se. A seu lado de policiais militares, lado a lado, em posição de sentido. O Juiz leu o veredicto, curto, muito curto.

- Considero o réu, Doutor Brejeiro Homem das Oliveiras, inocente.

Ponto final.

Alarido, gritaria, princípio de quebra-quebra, gás de pimenta e cassetetes. Brejeiro e o advogado aproveitaram a confusão para sair por uma porta do canto. Lá embaixo, estavam os manifestantes que recebiam uma diária-protesto de R$ 50,00 de uma organização sindical.

No táxi, Brejeiro agradeceu ao advogado e disse que tinha pedido transferência temporária para um hospital geral para atender casos de Zika e microencefalia.

- Zika, não. Ziko, você quer dizer, não é Brejeiro?, comentou o advogado.

- Sim, Ziko. Aprendi que o Politicamente Correto é mais importante do que cura e vacina.


terça-feira, 24 de outubro de 2017

Sobra de tecnologia, falta de consideração

Jamais a civilização teve tantos meios de comunicação disponíveis. Até “ontem” (1990) quem quisesse enviar uma mensagem confidencial escrita tinha que pegar papel, caneta, escrever, por no envelope, ir até a agência do correio, postar e esperar dias até que o destinatário recebesse. Uma carta do Rio para a Europa demorava de 10 dias a 15 para chegar. Em 1990 já havia fax, o pager (vulgo teletrim) que, em sua época, foram muito importantes. Em 1983, nos Estados Unidos, quem pagasse 20 mil dólares conseguia um telefone celular.

Hoje reina a fartura tecnológica. No mundo há 6 bilhões de linhas de celular, outros bilhões de usuários da internet. Os preços desabaram, o acesso continua cada vez mais fácil e a quantidade de aplicativos e programas impressiona. E-mail, SMS, Whatsapp, Skype, etc. etc. etc. muitos de graça.

Ótimo. E a contrapartida? Se a civilização nunca viu tanta fatura tecnológica em prol da sua comunicação, por outro lado a falta de consideração/educação parece imperar. Muita gente não responde e-mails, nem whatsapp, muito menos celular. Tenho um amigo que mandou uma mensagem profissional por e-mail e SMS para um sujeito (mensagem de interesse do sujeito, diga-se de passagem) há 20 dias e até agora está sem resposta.

Se no âmbito profissional a coisa está a bangu, no pessoal não fica muito longe. Mensagens do tipo “quando chegar em casa me avisa, estou preocupado” podem ser respondidas no dia seguinte ou simplesmente ignoradas. A falta de consideração está comprovada até pela própria tecnologia. Uso um programa de envio de e-mails chamado Mail Chimp que depois da remessa informa quem abriu, quando, quem leu, quem não abriu e não leu, etc. Em média, apenas 10% abrem e lê a mensagem. Não recomento para quem sobre de rejeição crônica. 

O que não consigo entender é como gente que não se comunica acabe se envolvendo com programas de comunicação, que, lógico, não são obrigatórios. Tem quem quer. É mera falta desconsideração/educação? Ou é mera boçalidade mesmo?


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Eles adoram inundações e outras tragédias

Assim como existe a temporada dos tufões e furacões, terremotos e nevascas em outros países, o flagelo dos países tropicais é representado pelas tempestades de verão.

Reconhecer essas manifestações naturais é o primeiro passo para amenizar suas consequências. Japão, Estados Unidos e outros países assolados por terremotos desenvolveram tecnologias que tornam as cidades mais resistentes.

No Brasil, o que mais interessa aos políticos é nada fazer porque quando a chuva cai pesado e as encostas desabam, rios canais, vias transbordam, pessoas morrem, eles decretam calamidade pública. Significa que podem embolsar dinheiro a vontade porque não é preciso fazer licitação, vira o maior bundalelê. Quanto mais mortos, mais grana, mais gargalhadas.

Tempos atrás, o Globo informa que 91 dos 92 municípios do Estado do Rio (praticamente 100%) tem pelo menos 20 pontos com risco de desabamentos com as chuvas de verão.

Segundo Nancy Dutra da Folha de S. Paulo (edição de fevereiro de 2011) “O Rio sofre com os efeitos das tempestades desde 1700, de acordo com registros de jornais na época. Há relatos de 1711 sobre inundações e de 1756 de fortes chuvas e ventos, com vítimas.”

Ou seja, desde sempre chove forte nos verões fluminenses e, também desde sempre, rouba-se muito dinheiro público que deveria ser usado em contenção de encostas, limpeza de rios, etc.

Quase sete anos depois da maior tragédia natural registrada na história do Brasil, o temporal que matou 910 pessoas nas cidades serranas do Estado do Rio em janeiro de 2011, pouco ou quase nada foi feito.

Quem vai a Friburgo, Teresópolis e Petrópolis encontra o mesmo quadro: favelas em expansão pelas encostas, rios precisando de dragagem, enfim, é como se nada tivesse acontecido.

Culpa da cafajestagem política, da leniência, corrupção e impunidade. No entanto, o marketing do verão, inventado pelo jeitinho brasileiro, canta que é tempo de chuva, suor e cerveja. A ordem é deixar rolar. Que rolem barracos pelas encostas, que rolem cabeças, que reine a barbárie e a boçalidade nos bairros com praias porque, afinal, é primavera. Uma estação que poderia ser celebrada não fosse o desleixo do poder público.


sábado, 21 de outubro de 2017

"Decepcionistas"

As recepcionistas de salas de espera são espécie em extinção. Nos anos 1980, década de recessão aguda e hiperinflação que culminou com a eleição de Collor, tentaram substituí-las pelas secretárias eletrônicas. Não deu certo. Hoje, segunda década do século 21, assistimos a proliferação das “decepcionistas”, que assombram muitas e muitas salas de espera pelo país.

Aliás, por que muitas salas de espera são insuportavelmente quentes, desconfortáveis, feias, com verdadeiras arquibancadas portáteis onde as vítimas aguardam para ser atendidas? Pior, com aparelhos de TV que parecem ter saído do lixo e canais escolhidos pelas "decepcionistas"? Sala de espera é cartão de visitas, é outdoor.

Em geral, as “decepcionistas” são grossas, carrancudas e amargas, desde o instante em que ligamos para um profissional (de qualquer área) para marcar um encontro/reunião/consulta até o momento em que damos de cara com a medusa em questão. Um dia antes, de má vontade, ela telefona para confirmar o encontro e ai daquele que não confirmar. “Não poderei ir amanhã”, confessa a vítima. A resposta vem como um dardo: “só tenho (assim, na primeira pessoa) daqui a dois meses.”

Além da grosseria, outro ponto em comum entre elas é a temperatura ambiente. Nós, que em geral pagamos o encontro/reunião/consulta com o (a) chefe da “decepcionista”, saímos de um sol de 50 graus e muitas vezes somos obrigados a encarar uma sala de espera estufa ou, quando tem ar condicionado, permanecem mornas porque a “decepcionista” sente muito frio. Tempos atrás pedi “a senhora pode aumentar o ar condicionado?”. O bugre atacou “não, aqui está muito frio. O senhor vem da rua, mas eu fico aqui o dia inteiro”. Para não perder a cabeça e, principalmente, a consulta, fiquei quieto.

Quando você liga em março querendo agendar uma consulta, por exemplo, a “decepcionista” atende com aquela voz de tédio e azedume e pergunta, secamente, “é plano?”. Você diz que é (plano de saúde para elas é crime) e ela não esconde o êxtase ao informar que “para plano, consulta só em janeiro”. Atônito, você rebate “mas ainda estamos em outubro” e ela encerra: “e daí?”, tipo “quem manda aqui sou eu, meu chapa” e, na verdade, parece que é a pura verdade. Quem manda naquele terreiro é mesmo a “decepcionista”, que acha que plano de saúde é de graça.

Os casos são muitos. O sujeito chega a uma consulta marcada para as 14 horas e a sala de espera está mais cheia do que van Copacabana-Central do Brasil, as 6 da tarde. Um enigma. É a “decepcionista” que enche a sala de propósito ou é a chefia que manda? O sujeito espera uma hora e é atendido. O chefe da “decepcionista” manda ele marcar uma outra consulta na saída, ele marca para o dia tal, do mês tal, as 16 horas. Chega as 16h30m, sala de espera lotada, o cara das 15h30m sequer foi atendido e a “decepcionista”, com TPM mental, coça a virilha e dispara: “o senhor está atrasado, vai ter que marcar nova consulta”. A vítima tenta argumentar “mas a pessoa que está antes de mim nem foi chamada...” e a ema do apocalipse despeja “não interessa, está atrasado, tem que marcar outra consulta”.

Não esqueço, ano passado, numa sala de espera, um sujeito de terno que não aguentou a patada de uma “decepcionista” dessas. Ele disse “a senhora sabe o que é Google? Se não sabe, o Google já inventou carro que anda sozinho, enfermeiro robô, bancário de alumínio e vai chegar o dia que em seu lugar vai estar sentado um androide educado, minha filha”. Levantou e saiu. Sorte, porque ter a coragem de chamar uma “decepcionista” de minha filha é beijar boca de cobra.

Senti vontade de aplaudir, mas e a vingança da bastarda? Não quis arriscar.





quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Brasil, o seu tempo acabou

Brasil, não tenho mais tempo. O meu tempo passa cada vez mais veloz entre os ponteiros de segundos. Meus impostos, taxas, tarifas, contribuições, óbulos, encargos, ônus estão rigorosamente em dia, bem como todas (TODAS) as minhas obrigações morais e cívicas para contigo.
Mame à vontade, Brasil. O sangue é teu.

Brasil, o meu tempo voa e não pode se dar ao luxo de contemplar o seu, lento, redundante, atolado, preguiçoso, corrupto, venal. Meu tempo é para o trabalho, para a saúde, para o amor, já que não tive tempo de pular fora antes. Se fosse antes, estaria longe, em outro lugar, sorvendo outros tempos. Mas você não me deu tempo, Brasil. Tive que ficar.

Brasil, nas ruas há sempre carnavais, micaretas, grevistas vagabundos sustentados por nós. Hoje haverá mais, no interior e nas capitais, mas não irei ver porque não quero. Não quero e não tenho tempo. Tenho muito trabalho a fazer, apesar de você, tenho muita história para contar, apesar de você, tenho muito mar para abraçar e beijar, apesar de você.


Brasil, divirta-se, mas não me convide. Você tentou, mas não roubou o meu tempo. Pelo menos ele, não. E não me chame para apartar briga de ratos. Não me presto a isso.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Pessimismo e otimismo

As redes socais, cada vez mais anti sociais, estão muito mal humoradas e pessimistas. Claro que os tempos estão instáveis, mas se todo mundo, em todos os tempos, fosse pessimista 24 horas por dia ninguém teria nascido. A começar por nós. O pessimismo crônico, assim como o mau humor, em geral são sintomas clássicos (eu diria óbvios) de depressão e ansiedade aguda que, de cara, levam diretamente a inapetência existencial.

Não é normal ser pessimista o tempo todo. Não é normal ser otimista o tempo todo. A leve e harmônica oscilação de humor rege a saúde do nosso sistema nervoso, ensina a boa medicina. Os negativistas, vulgo urubus, tem no pessimismo o início, o fim e o meio. O lema deles é o famigerado “nada será como antes” (cusp! saudosismo) e reclamar de tudo é a base. Reclamam do calor, do frio, da chuva, da falta de chuva, do trabalho, da falta de trabalho, do amor, do desamor, do céu, do inferno sem perceber sua palpável infelicidade. Sem que ninguém diga claramente “meu chapa, vá se tratar!”, porque ninguém está a fim de se aporrinhar. E recomendar um médico para um sujeito nesse estado pode parecer ofensa.

O otimismo comedido é um exercício, dizem os sábios. Viver com esperança (favor não confundir com a agoniante expectativa) é saudável. Enxergar a luz no fim do túnel como porta de saída (e não de entrada) é uma ginástica mental/emocional fundamental. Mesmo que ao nosso lado esteja um Hardy Har Har (personagem do desenho animado lá no alto) dizendo que a luz pode ser de um trem vindo ao contrário.

Aí ferrou.

domingo, 15 de outubro de 2017

Stanley Clarke, o homem que transforma contrabaixo em guitarra



Stanley Clarke é um monstro sagrado, o melhor baixista em atividade no planeta. Assisti duas vezes, primeira fila e saí desnorteado. Toca jazz tradicional com o chamado “baixo de pau” (baixo acústico), rock, música fusion, R&B e sua impressionante agilidade e precisão transformam o contrabaixo principal em guitarra solo.

Ouça nessas duas músicas. Ele toca o baixo agudo que sola e outros três que fazem médios, graves, base etc.  É inacreditável mas o instrumento que sola é um baixo Alembic modelo Stanley Clarke (é mole?) de quatro cordas. Com saudade, há uma semana ouço as duas, emendadas (no álbum são emendadas), direto:




Clarke nasceu em 1951 na Filadélfia. Aprendeu a tocar baixo por acidente no colégio, quando chegou atrasado no dia em que seriam distribuídos instrumentos musicais para o aprendizado dos alunos, e o único que sobrou foi o baixo acústico.

Em 1971, mudou-se para Nova York onde começou a trabalhar com muitos músicos famosos como Horace Silver, Art Blakey, Dexter Gordon, Gato Barbieri, Joe Henderson, Chick Corea, Pharoah Sanders, Gil Evans e Stan Getz.

Durante os anos 70, Clarke tocou na banda Return to Forever, liderada pelo pianista e tecladista Chick Corea. O Return tornou-se uma das mais importantes bandas de fusion jazz e seus vários álbuns aplaudidos de pé pelo público e crítica. Nessa época começou sua carreira solo, como fez o colega Jaco Pastorius. Os álbuns mais populares do baixista são Stanley Clarke (1974), Journey to Love (1975), e School Days (1976).

Ele formou o Animal Logic com o baterista Stewart Copeland,(mais tarde integrante do The Police), e a compositora e vocalista Deborah Holland. Outros projetos importantes com outros músicos: Jeff Beck, (1979) Ron Wood's New Barbarians, (1981, 1983, 1990) Clarke/Duke Project with George Duke, (1984) Miroslav Vitouš,[2] (1989) Animal Logic Stewart Copeland, (1993–94), um grupo Larry Carlton, Billy Cobham, Najee & Deron Johnson, (1995) The Rite of Strings with Jean-Luc Ponty and Al Di Meola and (1999) e Vertu’ com Lenny White and Richie Kotzen.

Mesmo em turnê com sua banda Clarke está sempre tocando nas turnês de seus colegas: em 2005, com Béla Fleck e Jean-Luc Ponty, ganhou o Jammy Award de "Turnê do Ano"; em 2006, pela primeira vez em quinze anos, Stanley e seu amigo George Duke saíram em turnês por mais de 40 cidades, alcançando o Top 20 com a música "Sweet Baby"; em 2007, fez vários shows nos EUA, Europa e América do Sul com Al DiMeola e Jean-Luc Ponty. Gravou a faixa "Hey Hey" no álbum Pipes of Peace (1983) de Paul McCartney.






sábado, 14 de outubro de 2017

"O Formidável", um grande filme, desnuda o genial Jean - Luc Godard em sua guinada de 1967

O diretor Michel Hazanavicius

Fui a Sessão de Gala do filme “O Formidável”, com a presença do diretor Michel Hazanavicius, no Reserva Cultural de Niterói que participa do Festival do Rio. Depois da sessão ele conversou com a plateia que super lotou a sala de exibição.

“O Formidável” é um filme brilhante, instigante, extremamente bem produzido (destaque para a direção de arte e fotografia) e dirigido. Para quem gosta de cinema é absolutamente imperdível. Ganhador do Oscar de melhor diretor por “O Artista”, em 2012, Hazanacicius mais uma vez fez um grande filme. É protagonizado por Louis Garrel e mostra um recorte da biografia do grande diretor Jean-Luc Godard em 1967, baseada no livro de sua ex-mulher e musa Anne Wiazemsky (vivida por Stacy Martin), que, por sinal, morreu no último dia 5, aos 70 anos.

“O Formidável” recria o período entre 1967 e 1970 no qual Godard lança seu tratado político mais feroz nas telas, o longa “A Chinesa”, e na sequência, junta esforços ao grupo militante Dziga Vertov. Sua meta é criar um cinema militante. Ao mesmo tempo, ele vive uma tórrida e neurótica paixão por uma atriz, Anne e no auge do romance, Godard se envolve nos protestos de maio de 1968 e tem sua obra questionada pela ala de esquerda mais combativa. Sua resposta é o radicalismo, em seus filmes e em sua vida. Numa entrevista ao site Omelete, o diretor diz que "a recriação dos protestos de 1968 é o que de mais documental eu filmei. Ali, o que nós temos é um documento da História".

Aqui, outros trechos da entrevista:

"Demorei a estabelecer conexões entre meus filmes, mas a história de Godard me fez notar que estou sempre correndo atrás de personagens desconectados, sem lugar estabelecido na lógica do mundo. A diferença é que O Artista falava de um deslocado sem grandes virtudes. Como seu cãozinho era fofo, torcíamos por ele. Com Godard é diferente: é um criador transgressor.

"Venho de uma geração que rachou opiniões em relação a Godard: parte tem respeito e reverência por ele, parte encara mal sua obra, por se opor à lógica da Nouvelle Vague, que ele representa. Meu cuidado no filme era não me deixar julgar seus atos. Ele pode parecer um babaca às vezes, mas isso todos nós podemos parecer. Mas não se pode negar que estamos diante de um homem que desafiou tabus".

"De uma certa forma, há uma dimensão heroica na atitude militante de Godard em seu opor, de maneira solitária, à máquina do cinema como indústria. Uso storyboard pra poder desenhar todas as cenas que pretendo rodar deixando pro set descoberta do que há de específico em cada ator. Neste filme, tinha um diferencial: levei pro cenário objetos com as cores mais usadas nos filmes de Godard, que são o amarelo, o azul e o vermelho pra trazer algo de godardiano à cena".






sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Pimenta no lombo dos outros é Fanta Uva

Quando chega outubro a inclemência acende o maçarico anunciando o apogeu da primavera que traz no bojo o bafo quente na nuca, cupins de lâmpada, tanajuras, o canto deprimente das cigarras, arrastões nas praias.

Para alegria do governo e seus comparsas (empresas de energia elétrica) é hora de bandeira vermelha na conta de luz, mais uma realização do governo Dilma. É nessa soleira que boa parte dos brasileiros em sua crônica bovinização contemplativa liga ventilador e ar condicionado para conseguir dormir, viver e morrer numa grana quando a conta de luz chegar. Estou escrevendo num ônibus com ar condicionado que cruza boa parte de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde o trânsito começa a se transformar na lenta lacraia do final do dia.

O motorista mantém a temperatura em 20 graus (que delicia) apesar de alguns passageiros (masoquistas) pedirem mais calor. “Não posso, são ordens da empresa” e como hoje acordei meio enviesado me meti na conversa e acrescentei “a temperatura está ótima; o senhor deveria ter escolhido um ônibus sem ar ou então trazer um casaco”. O cara olhou para mim, ia falar qualquer coisa, mas desistiu.

Lá fora de cada 10 carros que vejo, nove tem ar condicionado. Lembro do amigo Reginaldo que ano passado trocou um carro sem ar com zaralhadas de cavalos de potência por um 1.0 com ar. Ele me disse que “cansei de padecer, fingir que esse flagelo do calor é oba-oba, chuva suor e cerveja”.

Com o desmatamento generalizado a temperatura subiu ainda mais e tornou-se insuportável para muitos. Exceção para a indústria da cerveja, filtro solar, e de babaquices em geral. Lembro que quando fui fazer vestibular (que por si só já era uma merda), acordei as 6 e meia da manhã e encarei um calor demolidor para chegar ao local da prova, que não tinha ar condicionado. Acordar cedo já é um suplício, com calor vira humilhação e com vestibular é fim do mundo.

Leio que no Rio somente 30% da frota de ônibus tem ar condicionado. Como assim? Imagine ônibus sem calefação em Moscou, Londres, Paris, em pleno inverno? Morreria todo mundo. Aí vão dizer, “mas aqui não morre”. Não morre é o cacete. O calor traz dengue, zika, giárdia, febre maculosa, malária, conjuntivite, febre amarela, dengue, chikungunya, etc. Ou seja, morre gente pra cacete. Especialmente nos últimos anos, quando o país foi atirado no esgoto.

Essa transição chamada primavera (na verdade um verão travestido de floricultura) gera aporrinhações extras. Por exemplo, os comerciantes espertos ligam o ar condicionado no mínimo. Os modelos split indicam a temperatura desejada e não a temperatura ambiente.   

Chegamos num restaurante e o ar marca 23 graus, mas o calor é forte, suamos em bicas, reclamamos com o garçom que logo aponta para os 23 graus. Não chega a rolar bate boca, mas ele sabe que está errado e quando insistimos ele baixa a temperatura.

Já decepcionistas e atendentes de consultórios e escritórios, quase todas, sei lá porque são friorentas. Passam o dia sentadas ali, segundo elas “na ponta do iceberg” e quando chegamos está um forno. Pedimos para baixar a temperatura e elas, sempre de má vontade, resistem com o mesmo argumento: “poxa, mas está marcando 24 graus”. Fazer o que?

Pimenta no lombo dos outros é chica bom.


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Santa infância

                                                                           Nove anos                                                                           
                                               Com Catherine, praia de Itaipu, 2005
Muita gente postando fotos dos tempos de criança no Facebook em homenagem a 12 de outubro. Não sei explicar (será que não sei?), mas não conseguia me mobilizar, correr atrás de fotos minhas quando era pequeno para colocar lá também. Mas hoje decidi postar. Uma foto minha e outra de 2005 com minha sobrinha Catherine (então com cinco anos) na abençoada praia de Itaipu.

Cuidei e cuido mal de minha história pessoal, que está espalhada por aí e, sinceramente, nessas horas gostaria de ser mais cartesiano, mais “marcha soldado”, mais organizado, ter livros, cadernos com toda a minha história, meus milhares de textos publicados, mas não. O que vejo é uma zona, uma baderna, um emaranhado de coisas espalhadas, perdidas, sumidas.

Minha infância. Lembro muito bem dela porque é na infância que a felicidade plena, absoluta, deixa suas pegadas tatuadas em nossa alma, já que a infância é uma fantasia concreta. Acho que só na infância temos acesso temporário a felicidade plena porque vivíamos nadando no lúdico, nos sonhos, na ingenuidade, na alienação natural e sem o adestramento que vem mais tarde.

Minha infância foi em Angra dos Reis. Meu pai era oficial de Marinha e saímos daqui para morar na vila do Colégio Naval quando eu tinha uns três ou quatro anos. E lá vivi até quase nove.

Meu primeiro colégio ficava no centro de Angra e se chamava “Santa Infância”. Até recentemente tinha o diploma emoldurado em minha mesa de trabalho, mas ele também sumiu. Minha infância está guardada em minhas memórias e envolvem muitos passarinhos, em especial coleirinhos, tiês-sangue, sabiás, muito mar, pedras, siris, caranguejos e ele, o céu.

Ficava horas e mais horas deitado numa pedra de barriga para cima olhando o céu, vendo os jatos passarem muito alto riscando linhas retas e brancas naquele azul profundo. A noite, os jatos davam lugar aos satélites, que como estrelas minúsculas cruzavam o céu. Numa dessas sessões de contemplação lembro bem do meu primeiro, digamos, questionamento filosófico. Em pensamento perguntei para mim mesmo “será que sou feliz?”. Muitos anos depois, entregue a psicanálise (viva ela!), essa frase foi trabalhada exaustivamente. Trabalhada, trabalhada, trabalhada. Em resumo, minha infância foi tão feliz que custei a me desapegar.

Um dia, no final de uma sessão, disse para a minha querida analista “minha infância ficou em Angra. Mora lá, perambula por lá.” Foi no dia de um amanhecer de verão quando minha família deixou o Colégio Naval rumo a chamada civilização. Mudamos para Niterói. Lembro que quando saíamos de carro o “meu” coleirinho predileto cantava forte no alto de um ingazeiro enquanto o sol dava sinais de sua presença. Foi a última imagem de minha infância: o sol nascendo, o ingazeiro e o coleirinho. Minha santa infância acabava ali.

O lado B do disco da vida começou a tocar quando entrei em Niterói e tive que entender o que era um apartamento, sem mar, sem cipós, sem árvores, coleirinhos, ônibus, caminhões. Tive que engolir a insegurança pública, ir a colégio sendo levado por alguém, enfim, fui do Cosmos ao caos em poucos dias e fui apresentado a neurose.

Sofri muito, mas com o passar do tempo, dos ventos, dos amigos, grandes analistas e terapeutas e almas gêmeas como o meu pai (fiel e paciente depositário de minhas angústias), segui em frente e consegui guardar minha infância num precioso cofre sem chave, onde todos tem acesso porque não gosto de levar a vida cercado de senhas. O problema é que na sintomática balbúrdia da minha casa não sei onde o cofre foi parar.


Mas isso é outro assunto, para outras infâncias, para outros dias da criança de todos os tempos, céus, praias, serras e cantos de coleiros e sabiás.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O avanço da máfia do fundamentalismo religioso no Brasil

12 de outubro de 1995
12 de outubro de 1995
A máfia do fundamentalismo religioso, que se diz evangélico, tomou conta de todas as mídias. Incontáveis emissoras de rádios e TVs alugadas para igrejas que vendem milagres e arrastam a massa para o beija mão de seus políticos. Máfia tão poderosa que passa por cima da lei.

Concessões de canais de rádios e TVs não podem ser alugadas, mas a farra tomou conta. O aluguel de uma FM custa, para o dono da concessão (Rio e São Paulo) algo em torno de 500 mil reais por mês. O proprietário não gasta nada, não contrata ninguém, ele apenas aluga uma concessão pública e ouve o tilintar da grana caindo em sua conta bancária todo mês. Algo como se alguém alugasse praças, túneis, viadutos para terceiros.

Daria para acabar com a baderna, mas o Congresso Nacional também come na mão dos bispos com b minúsculo e similares, e a chamada “bancada evangélica” não para de crescer e avançar com uma absurda e desmedida fome de poder. Não há ética, não há fé genuína, não há honestidade. Há negociata, jogatina, tráfico de influência. As igrejas sérias (claro que elas existem e são muitas) acabam pagando uma conta que não é delas.

Uma amostra do poder dessa máfia foi a eleição de vários prefeitos em dezenas de cidades brasileiras, culminando com o escárnio que foi a vitória do bispo licenciado da igreja universal, Marcelo Crivella, que assumiu a Prefeitura do Rio. Um fenômeno que mostra o poder da universal, que reúne milhões de fies que são comandados pela bisparada como manada de descerebrados.

É impressionante a capacidade de organização da máfia do fundamentalismo religioso, em especial da igreja universal. A empresa aluga vários canais de TV e rádio com programas que fazem lavagem cerebral dia e a noite, além de ser dona da poderosa rede Record. A catequese do mal chega em todos os confins do país através de pastores que além do dízimo cobram votos.

Essa malta não quer pouco. Quer fabricar um presidente da república já que para eles o céu, além de não ser o limite, é a principal mercadoria do comércio. Adestrando pessoas, uma massa incalculável, fazem campanhas eleitorais em seus cultos visando apenas seus intere$$ses. Claro, o governo do Estado do Rio é o próximo golpe já que a eleição de Crivella abriu o caminho para a tigrada entrar.

Qual será o limite?

                                                                               

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Eternas Capitanias Hereditárias

Meritocracia. Bela palavra. Presença obrigatória em comícios, entrevistas, aparições na TV de qualquer político em campanha. Meritocracia significa vencer na vida pelo mérito pessoal, pelo talento, criatividade, ética. Mais nada.

Nesse início do século 21 podemos observar que nunca (ou quase nunca) o nepotismo, os pistolões, a ação entre amigos esteve tão presente como hoje, especialmente em setores como a música, jornalismo e, naturalmente, a política. Isso sem falarmos do noves fora, da corrupção galopante.

Na música chega a ser engraçado. Entramos na internet, abrimos os jornais ou ligamos a TV e o que mais vemos é a “descoberta de talentos” de filhos, netos, sobrinhos, maridos de medalhões. Cardumes e mais cardumes de piranhas. As Capitanias Hereditárias do velho Império tiveram seu conceito eternizado e transplantado para outros setores.

É comum lermos que “Fulano de Tal, que toca o instrumento X é filho do lendário Beltrano”. Toca bem? Não informam. Toca mal? Não informam. A matéria, em geral escrita por amebas da Capitania, só se interessa em dizer que o filho ou a filha do medalhão está em cena. Ponto. Para ele, é o suficiente e o leitor que se dane.

No jornalismo (como em toda a área de Comunicação) é tão melancólico quanto. A enxurrada de sobrenomes iguais (é muita cara de pau) denuncia o nepotismo. Não haveria problema (ninguém aqui é moralista) se o filho do Pluto, digamos assim, tivesse o mesmo talento do pai. Mas em geral não é o que acontece. Filho de barrigada mal dada, ao contrário do pai (ou do avô, tio, primo e similares) apura mal, escreve mal e tem a cara de pau de partir para o abraço assinando a matéria, aplaudida pela horda ignara.

Como a avaliação do talento na arte, cultura e mídia é bastante subjetiva, a coisa fica no zero a zero. No caso, por exemplo, de um neurocirurgião (e de muitas outras profissões que exigem notório saber) a situação é completamente diferente. Exemplo: se Paulo Niemeyer Filho não tivesse tanto ou mais talento do que o pai, muita gente teria morrido na sua mão e ele, certamente, seria rifado do mapa. Mas por ser muito bom e, também, ser filho do grande Paulo Niemeyer, ele atingiu alto grau de reconhecimento de seus colegas médicos e da chamada opinião pública.

Enquanto isso, nas Capitanias Hereditárias da mídia, li tempos atrás uma “reportagem” entre aspas assinada por um venal, falando de músicos medíocres, numa festa realizada num questionável e decadente "ponto da moda", lançando um disco vulgar, com a presença do famoso pai e avô dos músicos, mais mãe e avó e uma montanha de artistas famosos. O venal "jornalista" entre aspas, que também se acha diretor de cinema, faz clipes para a tal banda. Ah, sim, o pai do tal repórter é amiguinho do pai dos músicos. 

Resumindo: músicos filhos de pai e avós famosos, ganham reportagem escrita por um amiguinho que é também diretor de seus videoclipes e filhinhoo de um amigão do pai da banda.

Dizem que é sinal dos tempos. Não sei. Só sei que é fácil acusar a internet pelo fim do disco, dos jornais, das revistas. Até que ponto a tal maioria silenciosa perdeu a paciência com esse lixo produzido e cultuado pelas Capitanias Hereditárias? Ou o nepotismo acha que ninguém está notando, que ele é blindado, à prova de mérito?

Seria melancólico e não fosse escroto.