sábado, 14 de outubro de 2017

"O Formidável", um grande filme, desnuda o genial Jean - Luc Godard em sua guinada de 1967

O diretor Michel Hazanavicius

Fui a Sessão de Gala do filme “O Formidável”, com a presença do diretor Michel Hazanavicius, no Reserva Cultural de Niterói que participa do Festival do Rio. Depois da sessão ele conversou com a plateia que super lotou a sala de exibição.

“O Formidável” é um filme brilhante, instigante, extremamente bem produzido (destaque para a direção de arte e fotografia) e dirigido. Para quem gosta de cinema é absolutamente imperdível. Ganhador do Oscar de melhor diretor por “O Artista”, em 2012, Hazanacicius mais uma vez fez um grande filme. É protagonizado por Louis Garrel e mostra um recorte da biografia do grande diretor Jean-Luc Godard em 1967, baseada no livro de sua ex-mulher e musa Anne Wiazemsky (vivida por Stacy Martin), que, por sinal, morreu no último dia 5, aos 70 anos.

“O Formidável” recria o período entre 1967 e 1970 no qual Godard lança seu tratado político mais feroz nas telas, o longa “A Chinesa”, e na sequência, junta esforços ao grupo militante Dziga Vertov. Sua meta é criar um cinema militante. Ao mesmo tempo, ele vive uma tórrida e neurótica paixão por uma atriz, Anne e no auge do romance, Godard se envolve nos protestos de maio de 1968 e tem sua obra questionada pela ala de esquerda mais combativa. Sua resposta é o radicalismo, em seus filmes e em sua vida. Numa entrevista ao site Omelete, o diretor diz que "a recriação dos protestos de 1968 é o que de mais documental eu filmei. Ali, o que nós temos é um documento da História".

Aqui, outros trechos da entrevista:

"Demorei a estabelecer conexões entre meus filmes, mas a história de Godard me fez notar que estou sempre correndo atrás de personagens desconectados, sem lugar estabelecido na lógica do mundo. A diferença é que O Artista falava de um deslocado sem grandes virtudes. Como seu cãozinho era fofo, torcíamos por ele. Com Godard é diferente: é um criador transgressor.

"Venho de uma geração que rachou opiniões em relação a Godard: parte tem respeito e reverência por ele, parte encara mal sua obra, por se opor à lógica da Nouvelle Vague, que ele representa. Meu cuidado no filme era não me deixar julgar seus atos. Ele pode parecer um babaca às vezes, mas isso todos nós podemos parecer. Mas não se pode negar que estamos diante de um homem que desafiou tabus".

"De uma certa forma, há uma dimensão heroica na atitude militante de Godard em seu opor, de maneira solitária, à máquina do cinema como indústria. Uso storyboard pra poder desenhar todas as cenas que pretendo rodar deixando pro set descoberta do que há de específico em cada ator. Neste filme, tinha um diferencial: levei pro cenário objetos com as cores mais usadas nos filmes de Godard, que são o amarelo, o azul e o vermelho pra trazer algo de godardiano à cena".